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31 Julho 2017

“Não se estudará nossa história sem concluir que esta foi a geração da grande e irreparável ilusão política, prenúncio de sabe-se lá o que virá”, escreve Luís Fernando Verissimo, escritor, em crônica publicada por Zero Hora, 31-07-2017.

Eis o texto.

“Idiota” já foi um elogio. No seu sentido original grego, significava uma pessoa privada (não, não uma pessoa WC, você sabe o que eu quero dizer). Alguém que tinha seus próprios valores e seus próprios caprichos (daí “idiossincrasia”) independentemente dos valores públicos e das convenções sociais. Com o tempo, passou-se a enfatizar o contraste entre o privado, o fechado em si, e o público, e “idiota” era o que não participava da vida comunitária, por deficiência ou por escolha. Como não participava da vida comunitária, era um ignorante.

Vem daí o sentido moderno de simples, burro ou desligado. Mas durante muito tempo, na Grécia, “idiota” era o que não se interessava pelo zelo coletivo, desdenhava da política. O oposto do cidadão. A primeira vez que se xingou alguém de “idiota” foi para criticar sua omissão política, já que era na participação política que o homem se distinguia dos servos e dos bichos – e das mulheres, diga-se de passagem.

Corta para o Brasil atual. “Idiota”, lhe dirá qualquer eleitor desencantado, é quem se deixa levar pela política e pelos políticos. Houve um momento na história recente da humanidade em que “idiota” perdeu seu sentido grego de infenso à política e ganhou seu sentido moderno de ludibriado pela política. No Brasil, a política nos fez todos de idiotas. A última esperança de participação política consequente e promessa de virtude cívica foi a do PT, que também desencantou eleitores e simpatizantes. Fora da fugaz esperança representada pelo PT, tivemos uma sucessão de “blefes” que foram minando nossa crença na política e nos políticos, a ponto de hoje você dizer que “é tudo ladrão” e ninguém contestar a frase reducionista.

Não se estudará nossa história sem concluir que esta foi a geração da grande e irreparável ilusão política, prenúncio de sabe-se lá o que virá. Assim como a falta de calorias vai nos imbecilizando, a privação política vai nos idiotizando. Há quem pense que a solução é resgatar o sentido original da palavra para poder dizer que é idiota no bom sentido, o sentido de quem só se interessa pela administração do próprio umbigo.

Nota tipo nada a ver: de onde virá a palavra “blefe”? Meu palpite, sem nenhuma base etimológica, é que vem de bluff, que na linguagem universal do pôquer significa apostar como se tivesse uma boa mão sem ter nada. Uma definição da classe política brasileira.

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