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15 Julho 2017

Nos quatro países da África Central, o poder acentua as pressões contra a Igreja Católica, engajada na oposição. Da República Democrática do Congo ao Burundi, o nível da ameaça passa de inquietante a alarmante.

A notícia foi publicada em Urbi et Orbi África, no dia 11 de julho de 2017. A tradução é de Susana Rocca.

Em Camarões, a morte suspeita de um bispo

Há várias semanas, um conflito opõe os bispos camaroneses e o poder mantido por Paul Biya, cujo quarto mandato terminará em 2018. A causa: a morte de Dom Jean-Marie Benoît Bala, bispo de Bafia, cidade do centro do país, no início de junho. Ele desapareceu na noite de 30 para 31 de maio, e seu corpo foi achado num riacho, não muito longe do seu carro, no qual tinha uma mensagem: “Estou na água”.

Suicidou-se o bispo? Os responsáveis católicos do país não têm dúvida alguma: para eles, Dom Bafia foi “brutalmente assassinado”. Essa versão foi frontalmente contestada no dia 4 de julho através de um comunicado do Procurador geral afirmando que “o afogamento é a causa mais provável da morte do bispo”.

“Perante tal negação, a credibilidade dos bispos fica diretamente questionada”, disse Paul Samangassou, ex-diretor da Caritas de Camarões e consultor de muitas ONGs. “Se eles não falam nada, não se sabe o que eles pensam. Se mostram provas do que estão afirmando, eles entram em crise com o poder”.

A situação é ainda mais delicada, pois, segundo esse grande conhecedor da Igreja em Camarões, a Conferência Episcopal está particularmente debilitada pelas divisões internas. “O regime pensa que pode maltratar facilmente a Igreja”, salienta ele.

Em abril, três bispos camaroneses foram convocados pelo tribunal de Bamenda (noroeste), acusados de ter motivado a população à greve. Em efeito, uma crise paralisa as regiões anglofalantes de Camarões desde novembro de 2015. Seu processo deveria acontecer no dia 24 de julho.

Na República Democrática do Congo, a tensão aumenta

Herdeira de uma longa tradição de engajamento, a Igreja Católica tenta, há meses, reunir a oposição e a maioria em torno de um acordo destinado a tirar o país do impasse no qual ele se encontra desde o adiamento sine die da eleição presidencial, inicialmente prevista para dezembro de 2016. No dia 31 de dezembro, os partidos conveniaram que as eleições se organizariam antes de 2017 terminar. Um prazo lembrado regularmente pelos bispos.

Eles também estão preocupados com a situação do país, conforme a mensagem publicada no dia 23 de junho. Denunciam fortemente “a contínua deterioração das situações econômica, de segurança e humanitária, assim como do impasse político”. Três dias mais tarde, em Lubumbashi (sudeste), o presidente Joseph Kabila reagiu de forma muito violenta. Ele acusou explicitamente os bispos de “criar desordem no país”, qualificando o prazo do fim de 2017 de “puramente político e irrealista”.

No campo, na capital, várias igrejas foram vandalizadas nos últimos meses. “Estamos sendo observados. No dia 30 de junho, no aniversário da independência, tínhamos na igreja pessoas enviadas para escutar a homilia”, salienta um padre em Kinshasa. Outro padre afirma que viu aparecer um homem tirando fotos durante uma cerimônia. O núncio adverte regularmente aos padres congoleses dos riscos de sequestro.

Em Burundi, discrição atrás da cortina de ferro

Uma cortina de ferro desceu em Burundi. Após ter criticado publicamente o processo eleitoral de 2015, depois de ter-se alarmado com os desvios de poder, autoritários e ultraviolentos, durante dois anos, a Igreja do Burundi agora está bem discreta.

“Há um ano, ela se abstém de toda palavra pública que possa ser entendida como uma crítica aberta ao regime”, testemunha um trabalhador humanitário que pede para ficar no anonimato. Como mostrou o último relatório da Federação internacional dos direitos humanos (FIDH), publicado na semana passada, o poder está doravante engajado numa campanha de eliminação sistemática dos que ele considera opositores. Para evitar o pior, a Igreja Católica decidiu, então, ficar calada.

“Poderia se pensar que as coisas estão melhor entre a Igreja e o regime, explica um padre do Burundi. Mas é uma ilusão. A Conferência Episcopal não faz barulho para não complicar mais a situação”.

“Ela adotou um perfil discreto para não comprometer as suas ações pastorais e sociais”, acrescenta o trabalhador humanitário. “O país está à beira do genocídio, os Tutsis estão extremamente expostos. A Igreja entende que deve acalmar os ânimos para evitar uma explosão geral. Sua margem de ação é pouca. Mas ela não tem outra escolha”, analisa um especialista em resolução de conflitos.

Por enquanto, nenhum padre foi morto. Porém, três fugiram para o estrangeiro. E vários foram ameaçados e enviados em missão para fora do país.

No Congo Brazzaville, intimidação e divisão

Como em Burundi, o poder no Congo Brazzaville está confiscado por um clã decidido a mantê-lo a todo custo. Como em Burundi, criticar publicamente o regime expõe aos piores problemas.

“Todos os principais candidatos à eleição presidencial do ano passado estão presos, observa uma testemunha. Sassou Nguesso e seus partidários têm mais liberdade. Ninguém pode nos proteger deles”.

E, como em Burundi, as vozes religiosas que se levantavam contra as violências e a opressão do regime foram silenciadas depois de um ano. “Ao contrário do ano passado, não escutamos mais Dom Portella, bispo de Kinkala, preocupado com as violências exercidas pelas forças de segurança”, constata essa testemunha. Em fevereiro de 2016, o presidente da conferência episcopal solicitou a todos os padres que não falassem mais de política.

Da mesma forma que em Burundi, o padre é vigiado, as homilias escutadas, os suspeitos são marcados, detidos e levados à prisão. Mas a diferença com o Burundi é que o bispado está dividido entre os bispos conciliadores e os críticos. “Fica difícil para uma conferência episcopal adotar uma posição comum e claro controle dos desvios de Sassou Nguesso quando se está dividido”, salienta um observador.

Uma região escapa aos observadores independentes, o Pool. A armada congolesa conduz uma vasta operação contra os partidários do “pastor” Ntumi: os povoados são bombardeados, os habitantes deslocados, regiões inteiras são fechadas. Por enquanto, a Caritas está autorizada a socorrer civis desse departamento, que abrange também a diocese de Dom Portella.

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