Novo cardeal sueco sugere grupo consultivo feminino de alto nível

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30 Junho 2017

Um dos cinco religiosos recém nomeados cardeais da Igreja Católica pelo Papa Francisco sugeriu que ele ponderasse a possibilidade de criar um órgão consultivo especial de mulheres ligadas ao Colégio de Cardeais para oportunizar mais espaço para a liderança feminina na Igreja.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 28-06-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O cardeal de Estocolmo, Anders Arbelius, que Francisco escolheu para primeiro cardeal da Suécia em um consistório na quarta-feira, 28 de junho, disse que acha "muito importante encontrar uma maneira mais ampla de envolver as mulheres na Igreja em vários níveis".

“O papel das mulheres é muito, muito importante na sociedade, na economia, mas na Igreja muitas vezes elas ficam para trás", disse Arborelius em uma entrevista ao NCR em 28 de junho. O novo cardeal mencionou que o Papa João Paulo II muitas vezes buscava aconselhamento de Madre Teresa e Chiara Lubich, fundadora do movimento Focolare.

"Poderíamos oficializar mais isso", sugeriu, acrescentando: "Temos um Colégio de Cardeais, mas poderíamos ter um colégio de mulheres para aconselhar o papa".

O Colégio de Cardeais é um órgão que reúne todos os cardeais da Igreja Católica. Os cardeais geralmente são católicos experientes que atuam como bispos em dioceses ou no escritório geral do Vaticano e que têm algum vínculo especial com o papa enquanto líderes simbólicos das paróquias das igrejas de Roma.

Ainda que Francisco diga frequentemente que ele quer que as mulheres tenham uma participação mais incisiva na Igreja, ele não demonstrou como isso se daria e reafirmou a proibição de mulheres no sacerdócio. As organizações de reforma da Igreja já propuseram que o papa crie um órgão consultivo de alto nível de mulheres.

Em uma entrevista de meia hora na Casa di Santa Brígida, uma casa de passagem anexa à igreja sueca de Santa Brígida, em Roma, Arborelius também falou sobre as reformas que ele espera que Francisco realize no Vaticano, como ele gostaria que a Igreja descentralizasse um pouco de sua autoridade e o significado de sua nomeação como cardeal.

Em relação à liderança feminina na Igreja, Arborelius disse que também estava esperando por mais informações sobre a história das diaconisas na Igreja, a partir da comissão criada por Francisco para estudar a questão.

"Acredito que seja uma questão histórica, acima de tudo, para ver se era um ministério sacramental realmente ou era algo como a atuação de freiras ou irmãs", disse Arborelius. "Acredito que a questão precisa ser esclarecida."

"Mas eu diria que isso não seja essencial, mas sim encontrar maneiras de as mulheres realmente transmitirem a fé em vários níveis, seja como diáconas... ou como um carisma ou trabalho mais individual", declarou.

O primeiro cardeal da Suécia

Arborelius, de 67 anos, foi líder da Diocese de Estocolmo, a única diocese católica do país, desde 1998. Ele afirmou não saber por que Francisco o escolheu para ser cardeal, mas observou que os católicos são minoria na Suécia, com 150.000 em um país de 9,8 milhões de habitantes.

"Não sei o que se passa em seu coração", disse o bispo em relação à escolha de Francisco de que ele se tornasse cardeal. "Mas pensando sobre sua atuação, ele tem esse amor pelas comunidades pequenas e pobres... e também pelos que moram longe. No mundo católico, a Suécia é uma realidade muito distante, [uma] comunidade católica diminuta com pessoas do mundo todo."

Arborelius também mencionou que a visita do papa à Suécia no último outubro, para um evento ecumênico marcando o 500º aniversário da Reforma Protestante, em que Francisco elogiou o fato de o país aceitar centenas de milhares de migrantes e refugiados fugindo da violência no Oriente Médio.

"Sei, de muito tempo, que o papa apreciou o modo como a Suécia recebeu os refugiados", disse o cardeal. "E, claro, a igreja foi construída por todas essas pessoas vindas do mundo todo. Portanto, de certa forma, é uma mini-igreja da Igreja universal."

"Talvez por isso ele queira incentivar a nossa pequena comunidade na Suécia", acrescentou.

Arborelius disse que já teve um breve contato com o papa quando ele era Cardeal Jorge Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, Argentina. Arborelius disse que os dois trocaram cartas alguns anos atrás, quando um padre da Diocese de Estocolmo natural do Uruguai decidiu se aposentar em Buenos Aires para ficar mais perto da família.

Arborelius disse que sua nomeação como cardeal também tem uma importante dimensão ecumênica, pois a maioria dos suecos fazem parte da Igreja da Suécia, uma denominação luterana evangélica que era a igreja oficial do Estado.

"Acho que também foi um incentivo a todos os cristãos, porque, de certa forma, estamos todos um pouco marginalizados em uma sociedade secular", disse Arborelius. "E acho que muitos consideraram isso como um incentivo para todos os cristãos porque temos um relacionamento humano muito bom no nível ecumênico. Podemos trabalhar juntos em muitos campos ".

"Nós tentamos trabalhar com as coisas em que somos um em pensamento, um em convicção", disse ele. "Em muitas questões, como as dos refugiados e da migração, podemos falar com uma só voz e isso é muito importante".

Ele disse que, por mais que a Suécia seja conhecida por ter uma cultura secularizada, há coisas que a Igreja Católica pode aprender com seu país.

"A Suécia tem o coração aberto para questões de justiça, pacificação e reconciliação", disse ele. "Em muitos assuntos, há uma perspectiva comum, eu diria. Claro que existem outras questões que são mais difíceis, como o aborto e assim por diante, mas há problemas em que a sociedade sueca tem algo bonito para mostrar."

Reforma do Vaticano e descentralização

Arborelius disse que até agora não estava seguindo as tentativas de Francisco de reformar a burocracia do Vaticano de perto. Mas ele disse que pensa que o papa quer mais "simplicidade evangélica" daqueles que trabalham no Vaticano.

Ele disse que um exemplo dessa simplicidade era a carta que recebeu informando formalmente sobre sua nomeação como cardeal, em que Francisco usou a palavra "serviço" três vezes.

"Eu acho que isso é bem comum", disse Arborelius sobre a letra e o estilo de Francisco. "É típico do Evangelho, é claro, mas na administração do Vaticano é muito importante não esquecer que todos estão lá para servir a Deus, servir as pessoas, servir a Igreja, e não fazer carreira".

"Eu acho que esse é um dos principais pontos de Francisco na reforma da Cúria, que eles estão lá para servir e não para obter qualquer privilégio", disse Arborelius.

Perguntado sobre as notícias recentes de que o Conselho dos Cardeais sugeriu a Francisco que o Vaticano poderia descentralizar uma parte da sua autoridade para as conferências dos bispos locais, Arborelius disse que concordava que mais decisões na Igreja poderiam ser tomadas a nível local. Como por exemplo as traduções litúrgicas.

"Para nós, é um pouco estranho o fato de enviarmos todas as nossas traduções do sueco para o Vaticano, sendo que não sabemos quem fala sueco lá", disse ele. "Há algumas questões que podem ser tratadas no nível local, acredito".

Amoris Laetitia e o papel da consciência

Arborelius também falou sobre como a Conferência Episcopal Escandinava está implementando a exortação apostólica de Francisco de 2016 sobre a vida familiar, Amoris Laetitia ("A alegria do amor"). Ele disse que a exortação e as reformas de Francisco acerca do processo de anulação abordaram uma questão que alguns bispos já haviam levantado nas reuniões ad limina das últimas décadas.

"Um dos nossos maiores problemas é que quando alguém quer se tornar católico, ele ou ela pode ter se casado várias vezes, porque advêm de um contexto totalmente diferente, onde se considera o casamento de forma muito diferente", explicou Arborelius.

"Pode ser muito difícil para eles passarem por um processo de anulação, então, se fosse mais fácil ver a nulidade desses casamentos, nos ajudaria muito", disse ele.

"Até agora, o Vaticano tem relutado muito, porque diz que existem casamentos válidos nas igrejas protestantes, há casamentos válidos no nível da lei natural", disse ele. "E isso é verdade, mas temos a experiência de que muitos não são válidos porque... já desde o início têm essa intenção de dar [o nosso] melhor, mas, se não der certo, há sempre a possibilidade de se divorciar."

Ele disse que, nos casos em que foi difícil provar se um casamento era válido em termos de ensino católico, ele e os demais bispos escandinavos tiveram que confiar na compreensão do casamento pelo indivíduo.

"Esse é um dos pontos que podem ser trazidos, de que precisamos confiar mais no que dizem, porque é muito difícil provar que as pessoas têm essa intenção, ou essa falta de intenção", afirmou o cardeal. "Pode ser muito difícil, mas existe."

Ele também disse que a consciência da pessoa "sempre foi o mais alto princípio moral" e que às vezes a consciência pode exigir uma ação diferente daquilo que os sacerdotes aconselham.

"O ideal é que a consciência seja iluminada pela fé e pela Igreja", disse Arborelius. "E isso faz parte do nosso catecismo, nossa direção espiritual, ajudar as pessoas a verem que a consciência deve ser iluminada".

"Em muitos casos, este processo dá certo, mas sempre depende de circunstâncias", disse ele. Ele citou o exemplo do beato Franz Jägerstätter, um católico austríaco e objetor de consciência que foi executado durante a Segunda Guerra Mundial por se recusar a servir no exército alemão.

"Sua consciência lhe disse: 'Não posso fazer este juramento a Hitler porque é uma blasfêmia' ", explicou Arborelius. "Mas os sacerdotes e os outros disseram: 'Mas você tem que pensar em sua família, essa é a sua principal responsabilidade'. Mas em sua consciência, ele sentiu: 'Não, eu devo isso a Deus, não negá-lo por essa blasfêmia'. "

"Esse é um exemplo típico de que há circunstâncias em que a consciência pessoal precisa ser obedecida", disse Arborelius.

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