Quando vem a desolação espiritual

Revista ihu on-line

Gênero e violência - Um debate sobre a vulnerabilidade de mulheres e LGBTs

Edição: 507

Leia mais

Os coletivos criminais e o aparato policial. A vida na periferia sob cerco

Edição: 506

Leia mais

Giorgio Agamben e a impossibilidade de salvação da modernidade e da política moderna

Edição: 505

Leia mais

Mais Lidos

  • Cardeais Tarcisio Bertone e George Pell diante dos tribunais

    LER MAIS
  • “Mais mulheres no poder não acaba com a ordem patriarcal”, afirma arqueóloga das identidades

    LER MAIS
  • Elon Musk: “A inteligência artificial ameaça a existência da nossa civilização”

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Por: Jonas Jorge da Silva | 27 Junho 2017

“Num mundo cheio de barreira e muro, quero ser chama e romper o escuro” (Doce Madrugada, Zé Vicente)

Que nas horas difíceis, não sejamos surdos! Que nos momentos de desolação tenhamos a disposição de preparar o nosso coração para receber o Amor de Deus, que é puro dom! O certo é que nesse exato momento alguém está amargurado, sofrendo uma dor que se julga irreparável, mas é preciso persistir na procura por Deus, na oração, na busca pelo sentido mais profundo da existência, pois Deus nunca se ausenta, por mais que sintamos a tentação de nos fechar em circunstâncias que parecem negá-lo.

Foi a partir desta perspectiva que no último sábado, 24 de junho, reunimo-nos em mais uma etapa do ciclo de encontros Rezar com os Místicos, abordando o tema A desolação nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, em atividade promovida pelo CEPAT, com o apoio do IHU. Para esta ocasião contamos com a assessoria do padre jesuíta Luís González-Quevedo, religioso com longa experiência na pregação de retiros, conhecido carinhosamente como padre Quevedinho.

Diante da atual conjuntura brasileira, como também da crise planetária capitalista, com as inúmeras problemáticas comuns e pessoais, a inclinação humana aos sentimentos de incerteza, inquietação, agitação, descrença, desesperança e desamor pode levar a uma estagnação, letargia e fechamento.

Embora sejam situações muito difíceis, contrariando as más inclinações, é possível buscar no sentido mais profundo da vida, nas questões essenciais da vida, o fogo que incandesce a alma humana e a revigora a partir de um sentido místico.

Há várias visões e compreensões da mística, como bem lembrou o padre Quevedinho. Entre elas, recordando as grandes contribuições do nosso saudoso teólogo João Batista Libânio, contamos com a mística cristã da libertação, que é muito cara à nossa fé. A experiência de Deus é libertadora, faz com que o ser humano seja acolhido na paternidade/maternidade divina. Por isso, jamais pode ser inferiorizado em sua autoimagem, como filho de Deus. É dessa experiência libertadora que também brota o compromisso evangélico com os pobres. “Um cristão que despreza os pobres é uma contradição”, conforme destacou o padre Quevedinho.

Os participantes puderam meditar sobre a desolação nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio (Foto: Ana Paula Abranoski)

Toda essa descoberta é resultado de um processo de abertura humana ao Amor de Deus. Nesse sentido, apesar de muitas vezes lida de forma ideológica, a tradição cristã carrega consigo verdadeiros tesouros, capazes de transmutar o sentido da desolação humana, libertando homens e mulheres da falta de horizontes, do estreitamento de suas possibilidades.

Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio é um desses tesouros da tradição cristã. Inácio nos legou uma metodologia de oração e encontro com Deus que partiu de sua própria experiência de Deus. Deixou-nos meios que podem ser acedidos por qualquer pessoa que manifeste o desejo de buscar a Deus, basta acreditar que na oração Ele nos fala.

O problema é que no momento da desolação, a tendência humana é a de atribuir a Deus a iniciativa de se afastar de sua vida, de seus problemas. Mas, diante desta acusação, nada melhor que as palavras de Enzo Bianchi, fundador da Comunidade monástica de Bose, em artigo publicado no jornal L'Osservatore Romano e reproduzido pelo IHU: “Não quero defender Deus, quero apenas que Ele não seja acusado para que as pessoas se defendam a si mesmas. Para a pessoa comum, simples, que às vezes afirma sofrer o silêncio de Deus, não ouvir Deus presente, que acusa Deus de permanecer distante e mudo, com muito respeito pela sua dor e sem nenhum julgamento, penso em perguntar: "Mas talvez não seria você o surdo, aquele que não escuta?"”.

Na sequência, Enzo Bianchi continua a reflexão: “O nosso caminho de homens e mulheres é um caminho, às vezes, na noite profunda, às vezes na névoa, porque não sabemos ver bem, não sabemos escutar bem. O silêncio de Deus acolhido como nossa não escuta, como nossa surdez, faz parte do nosso caminho árduo, da tarefa de viver como humanos e como cristãos”. Sendo assim, “não podemos pensar que Deus tem a possibilidade de interromper o Seu amor, de fechar para sempre uma relação, de ver o ser humano sofrer e de Se comprazer com isso”. Ou seja: “O amor de Deus não deve ser merecido, e nenhum de nós pode pensar que tem em si mesmo um amor que Deus nega, detesta ou não vê, porque o Seu amor é maior do que o nosso coração e o nosso amor (cf. 1Jo 3, 20)”.

Nesse sentido, é preciso que o ser humano passe a corresponder, dentro de seus limites, à iniciativa amorosa de Deus. Os Exercícios Espirituais nada mais são do que meios humanos, a partir da ascética, para se fortalecer uma relação com Deus. “Aja como se tudo dependesse de você, sabendo bem que, na realidade, tudo depende de Deus”, sintetizou Santo Inácio.

Ao contrário dos momentos de consolação espiritual, quando somos levados por movimentos internos positivos, que conduzem para o bem e reforçam em nós as virtudes teologais (fé, esperança e caridade), dadas não por mérito humano, mas graça divina, quando nos vem a desolação, somos inundados por sentimentos negativos, que nos desintegram interiormente, trazendo a sensação de que Deus se esqueceu de nós. Esta dura experiência é um convite à maturidade espiritual, conforme destacou o padre Quevedinho. São momentos que exigem superação e persistência, constância na súplica e desejo de encontro com Deus, a quem nascemos para louvar, reverenciar e servir. Este é o verdadeiro projeto que conduz à felicidade.

Eis algumas recomendações apresentadas pelo padre Quevedinho ao nos depararmos com momentos de desolação:

- Não tomar nenhuma decisão, já que o ser humano fica propenso a ser dirigido pelos maus conselhos e tentado a se desviar de seu propósito de vida;

- Reagir firmemente contra a desolação, insistindo no encontro com a sua própria verdade interior, valendo-se da oração e meditação;

- Cultivar o pensamento positivo, não caindo na tentação de se enredar por falsas ideias e sentimentos a respeito do que se está vivenciando;

- Perseverar na paciência ativa, confiante em Deus;

- Manter a esperança, acreditando que é possível superar as adversidades.

Embora em nada seja fácil, a desolação também pode ser vista como uma oportunidade de conversão, a partir do reconhecimento de nossa fraqueza. Momentos de desolação propiciam o sentimento de humildade, pois fazem enxergar que a consolação é graça de Deus.

Abaixo, reproduzimos um belíssimo texto publicado em L’Osservatore Romano, edição em português, n. 39 (29 de set. de 2016), que destaca uma das meditações matutinas do Papa Francisco, na santa missa celebrada na capela da Casa Santa Marta (27-09-2016), que também discorre sobre a desolação espiritual. O texto foi compartilhado pelo padre Luís González-Quevedo, durante o nosso dia de encontro.

Três graças

Terça-feira, 27 de setembro de 2016

«Reconhecer a desolação espiritual, rezar quando nos sentimos dominados por este estado de desolação espiritual e saber acompanhar as pessoas que sofrem momentos difíceis de tristeza e de desolação espiritual». São as três graças a pedir ao Senhor indicadas por Francisco.

Oferecendo a celebração do dia, festa litúrgica de São Vicente de Paulo, pelas religiosas da comunidade da Casa — que «foram fundadas» pelo santo francês e cuja «vida segue o caminho que ele indicou: fazer caridade» — o Papa centrou a própria reflexão sobretudo na primeira leitura, tirada do livro de Job (3, 1-3,11-17.20-23). Esse homem «sofria» porque «tinha perdido tudo. Todos os seus bens, inclusive os seus filhos. E depois adoeceu de uma doença semelhante à lepra: grave, cheio de chagas». Deste modo, o seu sofrimento era tal que «a um certo ponto, abriu a boca e amaldiçoou o seu dia, o que lhe acontecia», dizendo: «Pereça o dia em que nasci e a noite em que foi dito: foi concebido um varão. Seria melhor que tudo isto não tivesse acontecido. Melhor a morte do que viver assim».

Contudo, observou o Pontífice, «a Bíblia diz que Job era justo e santo». E geralmente um santo não «pode agir assim». Com efeito, esclareceu o Papa, Job «não amaldiçoou Deus. Apenas desabafou, isto era um desabafo: um desafogo de filho diante do Pai». Quase como fez o profeta Jeremias, que de acordo com o capítulo vinte do seu livro no Antigo Testamento: «Começa com algo muito bom — observou Francisco — e diz ao Senhor: “Fui seduzido por Ti, Senhor”»; mas logo depois, como Job, também Jeremias diz: «Maldito o dia em que fui concebido». E no entanto «estes dois casos não são blasfêmias: são desabafos». Ambos «se desafogam diante de Deus» porque «os dois sentiam uma grande desolação espiritual».

A este propósito o Pontífice frisou que a desolação espiritual «acontece a todos: tanto ao forte como ao débil... Mas, este estado obscuro da alma, sem esperança, desconfiado, sem vontade de viver nem de ver o fim do túnel, com muita agitação no coração e nas ideias», é vivido por todos os homens e mulheres. «A desolação espiritual — explicou — faz-nos sentir como se tivéssemos a alma esmagada», que «não quer viver: “é melhor a morte!” foi o desabafo de Job; melhor morrer do que viver assim».

Mas, disse o Papa, «quando o nosso espírito está neste estado de tristeza ampliada, que quase não temos fôlego, devemos compreender» que isto «acontece a todos»: de modo mais ou menos acentuado, mas acontece a todos. Eis então o convite a «compreender o que acontece no nosso coração», a questionar-nos sobre «o que deveríamos fazer quando vivemos estes momentos obscuros, devido a uma tragédia familiar, uma doença, ou outra situação que nos desanima». Certamente, esclareceu, não é o caso de «tomar um remédio para dormir e afastar-nos dos fatos, ou beber dois, três, quatro copos» para esquecer, pois «isto não resolve». Ao contrário, «a liturgia de hoje faz-nos ver como nos devemos comportar «com esta desolação espiritual, quando estamos desanimados, sem esperança».

Uma ajuda vem do salmo responsorial: «Chegue a ti a minha oração, Senhor». Portanto, a primeira atitude é rezar. «Oração forte, forte, forte» repetiu Francisco, evidenciando que o «salmo 87 que acabámos de recitar juntos» ensina «como rezar no momento da desolação espiritual, da escuridão interior, quando nada funciona e a tristeza se apodera do coração. “Senhor, Deus da minha salvação, diante de ti clamo dia e noite”: as palavras são fortes! Foi o que fez Job: “Clamo, dia e noite. Por favor, ouve a minha súplica”». É uma oração que consiste em «bater à porta, mas com força: “Senhor, estou cansado de desventuras. A minha vida está à beira do inferno. Sinto-me como aqueles que descem à fossa, sinto-me como um homem já sem forças”».

Na vida, quantas vezes nos sentimos assim, sem forças. Contudo o próprio Senhor nos ensina como rezar nestes momentos difíceis: “Senhor, lançaste-me na fossa mais profunda. Pesa sobre mim o teu furor. Chegue a ti a minha oração”. Devemos rezar deste modo nos momentos difíceis, obscuros, de desolação, esmagadores, que nos sufocam». Porque «isto é rezar com autenticidade» e, de qualquer maneira, serve «inclusive para desabafar como desabafou Job com os filhos. Como um filho».

Depois de ter indicado o comportamento individual que devemos ter nos momentos de desolação espiritual, o Pontífice refletiu sobre o acompanhamento de quantos se encontram em tais situações. De fato, o trecho bíblico continua com a narração dos amigos que foram ter com Job e «permaneceram em silêncio, muito tempo». Com efeito, explicou o Papa, «diante de uma pessoa que está nesta situação, as palavras podem ferir. Basta tocá-lo, estar próximo», de modo «que sinta a proximidade, e responder ao que ele pergunta, sem fazer discursos».

Mas no caso de Job «vê-se que os amigos depois de um certo tempo se aborreceram com o silêncio» e começaram «a fazer discursos, a dizer disparates». Mas «quando uma pessoa sofre, está na desolação espiritual, devemos falar o menos possível e ajudar com o silêncio, a proximidade, as carícias e a oração diante do Pai».

Eis a atualidade das leituras litúrgicas. Com base nelas Francisco expressou os votos de «que o Senhor nos ajude: primeiro, a reconhecer em nós os momentos da desolação espiritual, quando estamos na escuridão, sem esperança, e a perguntarmos o porquê; segundo, a rezar como hoje nos ensina a liturgia com este salmo 87 no momento da escuridão — “Chegue a ti a minha oração, Senhor”». E terceiro, «quando me aproximo de uma pessoa que sofre», por uma doença ou por qualquer outra circunstância, «mas que sente precisamente a desolação: silêncio». Um silêncio, concluiu, «com muito amor, proximidade, carícias. E não façamos discursos que no final não ajudam e até ferem».

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Instituto Humanitas Unisinos - IHU - Quando vem a desolação espiritual