América Central – México –  EUA. "Uma mulher migrante em cada três é estuprada”

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26 Junho 2017

As camas estão cuidadosamente arrumadas. Por baixo, em uma linha ordenada, estão alinhados alguns vidrinhos de esmalte, um prendedor, um tubo de creme. Em Ixtepec, em Oaxaca, no sul do México, o dormitório feminino está sempre arrumado, apesar do intenso movimento. Um hóspede em cada quatro - dos quase dois mil que a cada mês batem nas portas do Albergue Hermanos en el Camino - é mulher. Uma novidade.

Até três anos atrás, a maioria do meio milhão de migrantes em fuga da América Central para o Eldorado USA eram homens. Jovens adultos com idades entre vinte e trinta anos. Não agora. Ou melhor, os homens continuam a ser a maioria. A presença feminina, no entanto, aumenta. À medida que aumenta a violência no Triângulo Norte, naquele trecho de terra entre os dois Oceanos - de forma triangular – que compreende El Salvador, Honduras e Guatemala, e que, nos últimos tempos, tornou-se a região mais mortal do planeta.

A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 24 -06-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Culpa das maras, as gangues criminosas que conquistaram áreas inteiras das nações, nas quais impõem a sua lei feroz: extorsão, recrutamento forçado, "noivados" obrigatórios. É justamente destes últimos que estão fugindo, cada vez mais, meninas e adolescentes.

Eis por que o êxodo para o Norte se feminilizou: em 2015, as mulheres eram 24 por cento de meio milhão de centro-americanos que, a cada ano, atravessa o México na viagem para os EUA. Dez por cento a mais em relação a 2011. A maioria tem menos de trinta anos.

Muitas vezes trata-se de jovens mães com os filhos: ao fugir procuram também salvar as crianças do recrutamento forçado pelas gangues. Entre a América Central e o sonho americano, há, no entanto, "o pesadelo mexicano". O inferno para os "indocumentados" (ilegais) centro-americanos começa muito mais ao sul - entre dois e quatro mil quilômetros, dependendo da rota escolhida - do muro de Trump. Estes precisam atravessar sem documentos e, portanto, invisíveis, um País dilacerado pelo conflito entre grupos criminosos, aliados a setores institucionais corruptos. Tornam-se, portanto, o alvo mais frágil.

Nove em cada dez - denuncia um dos poucos levantamentos de campo recém publicado pela entidade Médicos Sem Fronteiras (MSF) - sofrem violência por parte de traficantes de drogas, mas também de agentes que deveriam protegê-los. E, ao contrário, muitas vezes, os entregam às máfias que os sequestram para exigir resgate ou os revendem no mercado do sexo, dos órgãos, do trabalho escravo.

As "indocumentadas", depois, revela a MSF também são submetidas a estupros sistemáticos. Pelo menos um terço das migrantes visitadas pela ONG contou ter sido abusada sexualmente. Não uma, mas várias vezes. Em alguns casos, são os companheiros de viagem que cometem os crimes, em outros, as violências ficam a cargo dos traficantes de drogas ou das autoridades. "Porque, me diziam, tu não existes. Não podes denunciar, ninguém vai te ouvir”, conta Yolanda. Muitas, portanto, escolhem o "código do silêncio". As estimativas da MSF são, portanto, certamente inferiores ao real.

Outras fontes falam de seis a oito migrantes estupradas em cada dez. Como a proporção de mulheres aumenta, o fenômeno está se tornando mais evidente. O risco é tão alto que nas farmácias centro-americanas está em contínuo aumento a demanda de Depo-Provene, um contraceptivo extremamente poderoso, com duração de 90 dias, composto por um único hormônio, a medroxiprogesterona. A injeção anti-México, como é chamada. O mesmo medicamento é usado por africanas que precisam atravessar o Saara e, depois, a Líbia sem lei. "Eu escolhi fugir porque eu sabia do perigo. Mas o que mais poderia fazer? Precisava fugir de San Salvador - conclui Yolanda -, as maras teriam me estuprado de qualquer maneira. Pelo menos no México havia uma chance que isso não acontecesse. É uma roleta russa. Eu joguei. E perdi".

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