A vingança de Mazzolari, o padre dos pobres banido pela Igreja, mas amado por Francisco

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22 Junho 2017

No último dia 20 o Papa prestou homenagem ao padre Mazzolari, indo até o seu túmulo, em Brabiana. Seguidor de Mounier e de Maritain foi antifascista e defensor das lutas camponesas. O Santo Ofício ordenou o recolhimento de seus livros.

O depoimento é de Stefano Albertini, diretor da Casa italiana Zerilli – Marimo, na New York University, publicado por La Repubblica, 20-06-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

As únicas pessoas interessantes, declarou certa vez o escritor britânico Graham Greene, são os padres e os revolucionários.

Nesse dia, o Papa Francisco deixou o Vaticano para prestar homenagem às sepulturas de dois padres revolucionários: Primo Mazzolari, pároco de Bozzolo (província de Mantova) e Lorenzo Milani, prior de Barbiana (província de Florença). Dois padres que, apesar de não se conhecerem pessoalmente tinham muito em comum e contribuíram decisivamente para a renovação eclesial e social da Itália do pós-guerra.

Ambos vistos com desconfiança, marginalizados e perseguidos por suas posições anticonformistas pela triunfante Igreja de Pacelli, receberam a homenagem de um pontífice que se viu catapultado das periferias do mundo para o coração do catolicismo e que, agora, simbolicamente os abraça e apresenta como modelos de vida sacerdotal.

Eu nasci em Bozzolo alguns anos após a morte do Padre Primo, quando sua memória ainda estava bem viva e emocionada entre os meus concidadãos; estudei seus textos, ouvi as gravações de seus discursos e escrevi a minha dissertação sobre seu relacionamento tempestuoso com o fascismo.

Mazzolari, filho de camponeses e pároco de camponeses, teve o estofo de um intelectual e sua biblioteca (abrigada pela Fundação que leva seu nome) dá uma ideia da amplitude e profundidade de seus interesses, que iam da literatura ao teatro, da filosofia à história da teologia. Especialmente próximo à mais aberta cultura católica francesa, de Mounier a Maritain, sempre permaneceu um padre do campo e se, em seus escritos (dezenas de livros que incluem romances e comentários bíblicos às propagandas políticas), pode ser reconhecida uma sutileza rara de pensamento e estilo, em seus sermões e discursos o que mais se destacava era a clareza, a simplicidade e a paixão que o fizeram amado por tantas pessoas de diferentes origens sociais e culturais.

Da paróquia de Cicognara e Bozzolo, na planície entre Mantova e Cremona, testemunhou as lutas dos trabalhadores agrícolas, depois o advento do fascismo e sua derrota, e, por fim, o nascimento da República, do centrismo e o alvorecer do milagre econômico.

Todos eventos políticos que o viram também um pouco protagonista: disposto ao diálogo com os socialistas, que ele se recusava a demonizar como era prática comum na Igreja do seu tempo, em oposição frontal ao fascismo que atacou e censurou; enfim no papel de questionador e inspirador para a classe política católica que ajudou a formar, em grande parte graças aos seus encontros com os universitários católicos, ao seu compromisso ativo na Resistência.

Mas padre Primo foi acima de tudo um padre apaixonado pelo Evangelho e, justamente por isso, próximo aos pobres, aos últimos e aos distantes. Uma proximidade que seus míopes superiores confundiram com um filo-comunismo e cripto-protestantismo (curiosamente as mesmas acusações sistematicamente endereçadas contra o papa Francisco pelas alas católicas mais reacionárias).

O Santo Ofício o golpeou duramente em várias ocasiões, ordenando a retirada de seus livros, impondo limites à pregação fora de sua paróquia, impedindo-o de escrever em jornais e revistas e até mesmo condenando-o por alguns dias a não celebrar a missa, uma espécie de mini-excomunhão humilhante e vergonhosa para um sacerdote.

João XXIII, no entanto, que o conhecia e estimava, recebendo-o no Vaticano em fevereiro de 1959, abraçou-o e o chamou de "Trombeta do Espírito Santo em terra mantovana", convidando-o a participar do Concílio Vaticano II que estava prestes a começar. Foi o último e um dos poucos reconhecimentos que vieram da Igreja.

Padre Primo morreu em 12 de abril daquele mesmo ano. O Santo Ofício continuou a condenar implacavelmente seus textos, mesmo após o afetuoso encontro com papa João e depois de sua morte.

Foi só a partir do Concílio que as causas pelas quais Mazzolari lutava começaram a receber a importância que mereciam na missão da Igreja: o ecumenismo, a abertura aos distantes, a opção preferencial pelos pobres, a exigência de uma verdadeira justiça social, a superação da tradicional doutrina sobre a "guerra justa", o primado da consciência. Uma lista que parece, em suma, o projeto do pontificado de Francisco, o Papa das periferias do mundo que, como Padre Mazzolari, tenta realizar a cada dia "uma igreja pobre para os pobres".

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