Miguel d'Escoto, o teólogo que humilhou os Estados Unidos

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13 Junho 2017

A Nicarágua dá seu adeus ao padre Miguel d'Escoto Brockmann, uma figura histórica do sandinismo e da Teologia da Libertação. Um adeus sem tristeza – falou a vice-presidente Rosario Murillo - prestando homenagem a "uma personalidade excepcional, um irmão que nunca se sentia triste, um irmão indomável que lutou com o povo e pelo povo, por todas as causas justas, cheio de alegria, de esperança, de confiança e de certeza em um futuro melhor no qual todos nós acreditamos e que todos merecemos".

A reportagem é de Geraldina Colotti, publicada por Il manifesto, 10-06-2017.

Miguel d'Escoto, padre católico, nasceu em Los Angeles em 5 de fevereiro de 1931. Passou a infância na Nicarágua, depois voltou para os EUA para estudar no final de 1940. Em 1953 entrou no seminário da Sociedade Missionária de Maryknoll, onde foi ordenado sacerdote sete anos mais tarde. Em meados dos anos 1970, enquanto o continente latino-americano trilhava o caminho cubano e batia de frente com a dura reação dos EUA, o sacerdote tornou-se um partidário da Teologia da Libertação, que acompanhava o marxismo na busca de justiça social e por isso entrava em conflito aberto com o Vaticano.

Em 1975, juntou-se em segredo com a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), a guerrilha que combatia a ditadura na Nicarágua. Em 1977, ele já fazia parte do grupo dos doze, composto por intelectuais e empresários que se opunham ao ditador Somoza Debayle, e expressou seu apoio público à FSLN.

Após a vitória da Frente Sandinista, em julho de 1979, d'Escoto, tornou-se ministro das Relações Exteriores até 1990, ano em que os sandinistas perderam as eleições e o poder.

À diferença de outro padre-sandinista, o poeta Ernesto Cardenal, ele continuou a apoiar o caminho do líder sandinista Daniel Ortega, até o seu retorno à presidência em 2007.

Em 2008 assumiu por um ano o cargo de Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas. Entre 2007 e 2011 acompanhou o presidente da Nicarágua Daniel Ortega como consultor de Relações Exteriores. Foi agraciado com dois prêmios, a ordem Rubén Darío e Carlos Fonseca.

Como ministro das Relações Exteriores, foi protagonista uma vitória histórica contra os Estados Unidos. Em 1984, denunciou ao Tribunal Internacional de Justiça de Haia as atividades militares dos EUA contra a Nicarágua, e o Tribunal acatou sua acusação.

Nesse mesmo ano, por suas atividades de teólogo progressista e pelo papel político que desempenhou no sandinismo, recebeu uma suspensão "a divinis" de Wojtyla, o papa guerreiro que lutou contra a "ameaça vermelha" ao lado de Thatcher e de Reagan e praticamente abandonou nas mãos dos carrascos o bispo salvadorenho Oscar Romero. Também Ernesto Cardenal foi humilhado publicamente e suspenso "a divinis" pelo papa polonês.

Trinta anos depois, em agosto de 2014, o papa argentino Jorge Bergoglio, anulou a ordem de suspensão, atendendo ao pedido de d'Escoto para poder "celebrar novamente a Eucaristia antes de morrer". D'Escoto voltou a celebrar a missa em setembro daquele mesmo ano, sendo festejado também na Itália como "padre do mundo". Apesar de estar longe da política institucional, nunca cessou de defender as causas que considerava justas no âmbito internacional.

Juntamente com outras figuras históricas da Teologia da Libertação como Leonardo Boff, dois anos atrás, enviou uma carta a Barack Obama para protestar contra as sanções impostas à Venezuela de Nicolas Maduro em 9 de Março, 2015: considerando "extremamente vergonhosa" a motivação que definia a Venezuela como "uma ameaça incomum e extraordinária para a segurança dos Estados Unidos". Uma medida - ressaltou em sua carta - "incrivelmente semelhante à emitida por Reagan mais de três décadas atrás, para garantir o direito de atacar a legítima Revolução sandinista com a sua Guerra dos Contras (contra-revolucionários), na década de 1980”. Até mesmo os seus dois últimos apelos internacionais, assinados também por outro grande teólogo da libertação, François Houtart, poucos dias antes de sua morte, foram em defesa da Venezuela.

A partir de hoje até segunda-feira, será possível assinar o "livro de condolências" na Embaixada da Nicarágua em Roma, para lembrar "um mensageiro da paz e da reconciliação".

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