Contra o totem da meritocracia: a grande lição do Papa Bergoglio

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30 Maio 2017

A parte mais clamorosa do discurso sobre o trabalho em Gênova: “Assim, legitima-se eticamente a desigualdade”. Foi um discurso longo, denso, articulado que o Papa Francisco proferiu no sábado passado na empresa Ilva de Gênova, durante a sua visita à capital da Liguria.

A reportagem é de Fabrizio d’Esposito, publicada por Il Fatto Quotidiano, 29-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O tema foi o trabalho, e a desleixada síntese jornalística achatou o discurso do pontífice em um título instrumentalmente anti-Beppe Grillo: “Bergoglio contra a renda de cidadania”. Verdade. Mas em que contexto?

E aqui vem a parte bonita. Porque, se os partidários de Matteo Renzi podem se alegrar com as palavras sobre a renda, eles não pode fazer o mesmo com aquelas sobre os empresários “especuladores” (incluindo muitos amigos do sistema em geral), mas especialmente com aquelas, sensacionais, contra a meritocracia. Ou seja, o totem dos últimos 20 anos, que redesenhou para pior o perímetro da esquerda.

Assim, mais uma vez, o papa argentino se confirma como ponto de referência para aqueles que se reconhecem nos valores da igualdade. Bergoglio desenvolveu uma autêntica catequese: “Outro valor que, na realidade, é um desvalor é a tão elogiada ‘meritocracia’. A meritocracia fascina muito porque usa uma palavra bonita: o ‘mérito’, mas, como a instrumentaliza e a usa de modo ideológico, ela a desnaturaliza e a perverte. A meritocracia, para além da boa fé dos tantos que a invocam, está se tornando uma legitimação ética da desigualdade”.

Depois de explicar os danos que provoca o talento considerado como “mérito” e não como “dom”, o papa concluiu: “Uma segunda consequência é a mudança da cultura da pobreza. O pobre é considerado um desmerecido e, portanto, culpado. E, se a pobreza é culpa do pobre, os ricos são exonerados de fazer algo. Mas essa não é a lógica do Evangelho, não é a lógica da vida: encontramos a meritocracia no Evangelho, em vez disso, na figura do irmão mais velho na parábola do filho pródigo. Ele despreza o irmão mais novo e pensa que este deve continuar sendo um fracassado, porque mereceu isso. Ao contrário, o pai pensa que nenhum filho merece as bolotas dos porcos”.

Nota de IHU On-Line: Para ver a íntegra do encontro do Papa Francisco com os trabalhadores e as trabalhadoras em Gênova, em italiano, assista ao vídeo: 

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