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18 Maio 2017

"Pelo momento, tarefas imediatas que estão diante de nós: dar um empurrão num governo podre que não se sustenta e cassar políticos como Aécio Neves, descoberto mendigando (!) milhões de reais ou dólares de capitalistas poderosos", escreve 
Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo. 


Eis o artigo.

Festejemos Alessandro Molon, que não perdeu tempo na hora da crise terminal desta fase republicana. Rapidamente, em minutos, saiu na frente, com um pedido de impeachment, como deputado totalmente ficha limpa e independente (sua presença na Rede pouco indica, com posições bem diferentes da gerente Marina Silva). Não são muitos os que podem falar como ele, num congresso em significativa parte de rabo preso. Participo com ele de um grupo de cristãos que, duas vezes ao ano, tentam pensar os grandes horizontes que temos por diante. Conheço assim sua capacidade analítica e seu dom de deixar claros problemas complexos.

Só há uma saída honrosa para o país: ELEIÇÕES DIRETAS JÁ. Mais além das interpretações constitucionais, este congresso tem que devolver imediatamente ao povo a decisão de eleger um novo presidente e um novo parlamento. Mas para valer a empreitada, será indispensável melhorar substancialmente a qualidade do voto, para não trazer de volta uma trupe que em boa parte deveria estar na cadeia.

Não se trata de refundar este ou aquele partido, mas de refundar a democracia. É hora de criar uma Frente Ampla Popular, Nacional e Democrática, reunindo políticos de vários partidos mas, acima de tudo, membros da sociedade civil que renovem a vida pública. E aí os setores populares, o povão das periferias e do interior, teriam de jogar um grande papel. Mais importante do que apenas eleger um novo presidente, será ter um parlamento capaz de abrir um novo capítulo republicano. Para isso deveriam entrar ali verdadeiros ficha limpa. Não se trata de ficar numa posição meramente moralista, que a direita apregoa ainda que não cumpra, mas de escolher um bom número de representantes com um sentido de cidadania e de justiça social.

Nessa direção, listas eleitorais fechadas nada mais farão do que privilegiar as máquinas burocráticas partidárias, ou dar um guarda-chuva para os que têm de fugir da justiça. E uma democracia participativa teria que vigiar e pressionar a democracia representativa dos eleitos. Seria importante chegar à possibilidade de estes serem afastados, se necessário, pelos eleitores de suas circunscrições.

Há também que acabar com o financiamento eleitoral pelas grandes empresas, fonte habitual de gigantesca corrupção, que a Lava Jato está desocultando. Nas últimas eleições nos Estados Unidos, Bernie Sanders, pré-candidato democrata, na verdade socialista da União pela Liberdade, só aceitava pequenas contribuições individuais. Reuniu, em pouco tempo, setenta e três milhões de dólares de mais de um milhão de eleitores, com uma média de US$27,16 por pessoa.

Tarefa enorme no Brasil, num caldo político apodrecido. Não poderemos cair no risco de um certo voluntarismo ingênuo, não medindo bem as dificuldades e os prazos necessários para transformações sociais e políticas, sempre com uma certa inércia, lentidão e necessidade de amadurecimento? Mas é preciso sonhar e arriscar: há esquinas inesperadas na história na espera de gestos audazes. Meu herói Quixote deu uma lição de política a seu escudeiro, preparando-o para ser governador da ilha de Baratária. Entre outras coisas disse:“Lo que te sé decir, Sancho, ... cada cual es artífice de su ventura”. É preciso saber aventurar-se, ainda que, no nosso caso, estamos diante de prazos tremendamente exíguos e de uma consciência cidadã ainda com fragilidades expostas.

Haverá, pois, tempo para uma reforma política de envergadura? Temos pela frente um círculo vicioso: este congresso não parece ter vocação para um hara-kiri. Além disso, problema grave, de onde sairão novos quadros políticos? Atenção, eles podem estar espalhados pela sociedade, esperando um fator aglutinador. Na Espanha, numa grande crise de 2011, setores do 17M (17 de maio) em Madri e dos Indignados em Barcelona, críticos até então de todo o sistema político, resolveram constituir um partido, Podemos, que em três meses elegeu deputados ao parlamento europeu e, logo adiante, as alcaldessas de Madri e de Barcelona, mulheres independentes que vinham da sociedade civil e uma de trabalho em ONGs. Atualmente oscila entre a terceira ou a segunda força eleitoral, atropelando o histórico Partido Socialista. Na França, Jean Luc Mélanchon, dos Insoumis (Insubmissos), chegou no primeiro turno eleitoral em quarto lugar, com quasae 20% de votos. No Uruguai, uma Frente Ampla, reunindo várias agrupações, superou, anos atrás, a alternância blancos-colorados, elegeu presidente Tabaré Vasquez, que fora antes prefeito de Montevideu, depois o extraordinário Pepe Mujica e agora, novamente Tabaré. No Equador, em votação apertada, Rafael Correa levou à vitória seu vice-presidente, o cadeirante Lenin Moreno. São avanços, alguns pequenos, ao lado de derrotas como na Argentina ou no Peru, mas enfrentando uma direita neoliberal e a ameaça de uma extrema direita facistoide. Aqui tivemos quatro eleições vencidas por partidos progressistas em coalizão com um centro anfíbio; o processo só se interrompeu com a deposição ilegítima da presidenta Dilma Rousseff. Aliás dia 10 de maio, em Curitiba, Lula, ao enfrentar o juiz Moro, e depois diante da multidão que acorreu de todo o país para apoia-lo, se lançou novamente como candidato; no momento está à frente nas sondagens. Isso para dizer que as sociedades estão em movimento e nem tudo são sinais negativos.

Há momentos de aceleração histórica que atropelam planejamentos estratégicos. Eu estava na Polônia no fim de julho de 1989, quando caiu o governo comunista, com a vitória avassaladora do movimento Solidariedade. Dia 1º de agosto, Lucia e eu entrevistamos o diretor da revista Solidarnosc, um fino intelectual, Tadeusz Masowiecki. Perguntamos se julgava que seu movimento deveria ocupar o poder vacante. Ele respondeu que alguns assim pensavam, mas ele era contrário: não tinham um programa acabado, nem experiência parlamentar, deveriam amadurecer politicamente um tempo na oposição. Quinze dias depois era nomeado primeiro-ministro. Imagino seu sofrimento, sem apetite pelo poder, discípulo de nosso mestre comum Emmanuel Mounier, acostumado a fazer sempre discernimentos cuidadosos. Os poloneses acreditavam num processo mais ou menos lento no resto do leste europeu. Meses depois Ceaucescu era condenado à morte na Romênia e caía o muro de Berlim. Dois anos depois a União Soviética se dissolvia.

Entre nós, onde se pressenteria uma renovação de quadros e o crescimento de lideranças comprometidos com a transformação da sociedade e a solidariedade com os mais pobres e os discriminados? A crise deste 17 de maio faz apressar um processo ainda frágil e que parecia exigir um certo tempo de maturação. Mas, como indiquei, há incidentes na história que fazem saltar calendários. Como enfrentar um processo eleitoral que surge inesperado e imediato diante de nós? Já a data de 2018 parecia bastante próxima para permitir decisões arrojadas.

Pelo momento, tarefas imediatas que estão diante de nós: dar um empurrão num governo podre que não se sustenta e cassar políticos como Aécio Neves, descoberto mendigando (!) milhões de reais ou dólares de capitalistas poderosos. Há ainda lugares nas celas de Cabral Filho e de Eduardo Cunha. Incrivelmente este segue, atrás das grades, como os chefes do comando vermelho, dando as cartas e chantageando, levando o presidente ilegítimo e golpista a tentar cala-lo com uma poderosa mesada, o que foi sua perdição. Com isso, antes de tudo, nas próximas semanas, é o momento de uma boa e vigorosa faxina política.

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