Votar em Macron, em branco ou abster-se, pergunta-se Mélenchon

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27 Abril 2017

Emmanuel Macron contou com a formação instantânea de uma frente anti-Marine Le Pen, à exceção do partido França Insubordinada, de Jean-Luc Mélenchon.

A reportagem é de Eduardo Febbro e publicada por Página/12, 25-04-2017. A tradução é de André Langer.

As esquerdas da França foram incapazes de reunir uma maioria para enfrentar o fascismo e derrotá-lo. Encarregar-se-á disso um liberal de 40 anos apoiado a partir de agora por um amplo arco político que vai da socialdemocracia, à direita e setores da esquerda, tanto da França como da Europa. Emmanuel Macron contou com a rápida formação de uma espécie de frente republicana francesa e europeia que desgarrou a esquerda mais fidedigna, neste caso a da França Insubordinada, de Jean-Luc Mélenchon.

O líder da esquerda radical francesa – o único que saiu vivo do primeiro turno das eleições presidenciais com 19,7% dos votos enquanto o Partido Socialista terminou nas catacumbas com um modesto 6,7% –, não dará indicações diretas de voto para o segundo turno, que será uma disputa entre o paladino de centro liberal e a candidata de extrema direita Marine Le Pen. Antes de qualquer decisão de hoje [terça-feira] fará uma consulta aos 450 mil militantes através da sua plataforma da internet (jlm.fr) com três opções: votar em Emmanuel Macron, votar em branco ou abster-se.

Diante das críticas que caíram sobre o líder da França Insubordinada, seu porta-voz, Eric Coquerel, esclareceu: “nunca imaginamos votar na Frente Nacional. Simplesmente, temos 400 mil pessoas que apoiaram esta campanha com um espírito novo, os insubordinados e as insubordinadas, e são eles que devem decidir como devemos nos comportar em relação ao segundo turno”. Mélenchon foi objeto das críticas da quase totalidade da classe política que o chantageia para que se junte à frente anti-Le Pen. Até agora, Mélenchon disse que “em sua consciência, cada um sabe qual é o seu dever”. As pesquisas internas publicadas pelo Le Monde assinalam que 39% do eleitorado de Mélenchon não pensa em votar em nenhum dos dois, enquanto que 9% o fariam em Marine Le Pen.

Marine Le Pen deu os primeiros passos na nova campanha com a meta de atrair o voto da direita mais moderada. Para isso, a candidata da ultradireita renunciou à presidência da Frente Nacional com a finalidade de ser “apenas uma candidata” e, em uma entrevista ao canal France 2, ligou o ventilador para espalhar lixo. “Nós podemos ganhar e vamos ganhar”, disse Le Pen após ter qualificado a coligação que se forma contra ela como “a velha frente republicana toda podre, que ninguém jamais quer”. Marine Le Pen voltou sua tradicional artilharia para o seu envelhecido eleitorado e levantou as bandeiras do populismo nacionalista: “temos uma bandeira, azul branca, vermelha, e um hino, a Marselhesa. Não quero que os franceses sejam despojados do que lhes pertence”. A “candidata do povo” renova assim a posição soberanista, xenófoba e nacionalista que lhe permitiu romper todas as marcas históricas.

Embora nenhuma pesquisa a aponte como vencedora do segundo turno de 07 de maio, a classe política vê nela um perigo e trata de lhe diminuir os espaços, não apenas para que não vença, mas também com o objetivo de sufocar suas forças para o futuro. O presidente francês, François Hollande, tomou rapidamente sua decisão e ontem [segunda-feira] mesmo comunicou que votará em Emmanuel Macron,  porque, para ele, Marine Le Pen representa “um risco” para a França devido aos “seus métodos, seus laços com grupos extremistas em toda a Europa” e o fato concreto de que “a extrema direita vilipendia parte dos nossos concidadãos por suas origens ou sua religião. A extrema direita questiona os princípios da República”.

Mal começou o dia, começaram duas batalhas políticas paralelas: uma pelo segundo turno de 07 de maio, outra pelas eleições legislativas de junho, cuja perspectiva é um problema para Macron, porque carece de partido. O candidato é obrigado a fazer alianças que parecem ser, neste momento, mais difíceis do que se pensava. O birô político do PS aderiu à consigna pró-Macron, ao passo que cerca de 160 líderes do Partido Socialista assinaram um apelo no vespertino Le Monde a favor de Emmanuel Macron, mas, ao mesmo tempo defendem não aliar-se com o ex-ministro da Economia de François Hollande durante as eleições legislativas.

O texto é, além disso, uma defesa explícita do balanço da presidência de Hollande e uma forma de ocupar um terreno independente e evitar a completa absorção por parte do macronismo. Neste sentido, o ex-chefe de governo de Hollande, Manuel Valls, não rejeita integrar-se a uma maioria legislativa e de governo com Emmanuel Macron à frente. O ex-primeiro-ministro segue empenhado em destruir o pouco que resta do Partido Socialista, enquanto que os “hollandistas” lutam para preservar seus espaços.

As lutas de aparato já marcam as próximas semanas. Os dois partidos que dirigiram os rumos políticos do país, PS e conservadores (hoje chamados de Republicanos) foram derrotados pelo centro com nova cara e o radicalismo de direita. Sua respectiva eliminação inaugura para ambos uma fase de espadas entre tendências e líderes. A calamitosa campanha do candidato conservador, François Fillon, deixou feridas profundas na direita. Quando veio à tona o caso dos empregos fantasmas da esposa e filhos de Fillon na Assembleia Nacional, o que levou, em seguida, à sua acusação, muitíssimos líderes influentes pediram-lhe que se retirasse da corrida presidencial.

Fillon empenhou-se em continuar com uma espécie de cruzada contra a Justiça e os meios de comunicação. As urnas o decapitaram e, agora, assim como um ex-ministro de Nicolas Sarkozy, Eric Woerth, os conservadores dizem em uníssono: “não é a direita que perdeu, é François Fillon”. Outro ex-ministro, Pierre Lellouche, declarou que a campanha eleitoral e a posterior derrota foram “um fiasco lamentável”.

O partido fundado por Sakozy engasgou-se com o muro de contenção que está sendo forjado para afogar Marine Le Pen. Sua estrutura política fez milagres na hora de divulgar um comunicado em que se pronuncia a favor de “votar contra Le Pen” sem jamais dizer o nome do seu rival no segundo turno. O interessado tirou suas próprias conclusões e ameaçou passar um tempo sob as palmeiras “como simples militante”. François Fillon declarou na segunda-feira que não tinha “legitimidade para travar o combate das legislativas”.

Marine Le Pen, ao contrário, voa sobre as afamadas asas da legitimidade presidencial. Nela votaram 7,6 milhões de eleitores, ou seja, quase três milhões de pessoas a mais que aquelas que, há 15 anos, puseram seu voto nas urnas do seu pai, Jean Marie Le Pen. Este detalhe dos milhões a mais é que semeia certo pânico.

O Le Monde recorda que se as pesquisas davam a Emmanuel Macron 62% das intenções de voto, em 2002, quando o ex-presidente Jacques Chirac enfrentou Jean Marie Le Pen, tinha 82%. “Evaporaram-se 20 pontos em 15 anos”, escreve o jornal. A França e o fim de sua época política não inicia a nova nas melhores condições. O fascismo está de volta, forte e atrevido. Seu inimigo mais constante e legítimo, aquele que deixou sua vida para combatê-lo, à esquerda, está ausente do combate final. A missão recai sobre um liberal diluído nas mutantes noções de “centro” ou “extremo centro”.

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