Jesuítas venezuelanos denunciam: "vivemos em um Estado sequestrado e violado por um governo ditatorial"

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20 Abril 2017

"Cabe a nós acompanhar esta longa Sexta-feira Santa que nosso povo está vivendo".

Os jesuítas venezuelanos já disseram que basta. Diante da escalada da violência na Venezuela, que na noite passada reivindicou mais seis vítimas, e a situação de fome e necessidade pela qual o país está vivendo, a companhia de Jesus, por meio de seus diversos órgãos, denunciou que "vivemos em um Estado sequestrado e violado por um governo ditatorial", enquanto fala-se de "repressão indiscriminada e sistemática contra a população civil" por parte do poder Executivo de Maduro.

A informação é publicada por Religión Digital, 18-04-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

"Como cristãos, cabe a nós acompanhar esta longa Sexta-feira Santa que nosso povo está vivendo", denunciam os jesuítas que se somam à "mensagem clara e corajosa" de bispos do país.

O primeiro a reagir foi Luis Ugalde, S.J., Diretor do Centro de Estudos Religiosos da Companhia de Jesus (CERPE), que qualifica a situação na Venezuela de "moralmente inaceitável".

Para Ugalde, "é evidente que vivemos em um Estado com uma constituição democrática, mas que é sequestrado e violado por um governo ditatorial", referindo-se à decisão do Tribunal Supremo de Justiça (que posteriormente voltou atrás) de anular os poderes da Assembleia Nacional.

"O país e o mundo estão agora mais esclarecidos: a democracia foi violada com um golpe mortal contra a soberania do povo cujos votos foram queimados na fogueira dos usurpadores", diz Ugalde, que salienta que "este grave crime tem criminosos que precisam ser punidos", e que "não puni-los é estar em cumplicidade com o golpe".

"Nós não estamos diante de uma disputa de poderes e de uma diferença de interpretação entre juristas, mas estamos diante de um golpe que priva o povo de sua soberania", diz o jesuíta, que se posiciona ao lado dos bispos do país, que consideram que "essa distorção é moralmente inaceitável". Ugalde vai além e afirma que "é um dever de consciência rejeitar o golpe e a Constituição convoca o povo da Venezuela para ignorar qualquer decisão que a viole".

Por outro lado, a revista SIC e o Centro Gumilla, órgão da Companhia de Jesus na Venezuela, publicaram um editorial intitulado "É uma ditadura" em que qualificam os últimos movimentos do poder Executivo de Nicolás Maduro como "um claro golpe de Estado e um desmascaramento definitivo do governo como uma ditadura".

Para a revista, "as situações de fome, de repressão, de falta de cuidado e de suprimentos médicos básicos, que definimos como uma crise humanitária em um país onde tais circunstâncias são inexplicáveis e no fundo podem ser lidas como uma política expressa de submissão da população, cujo objetivo era e é evitar o levante popular frente a um auto-golpe".

Na mesma linha, "as contínuas prisões de diversos políticos venezuelanos" são denunciadas, assim como "o desprezo em que a comunidade internacional tem tratado esta temática venezuelana, a começar pelo próprio Vaticano". Para a revista, "enfrentamos uma ditadura como cidadãos e como cristãos. Estamos conscientes das disposições dos artigos 333 e 350 da Constituição que nos exigem a fazer tudo o que dependa de nós para a restituição das liberdades. Trata-se da ação cidadã através de protestos pacíficos, desarmados, sem violência e em resistência ao abuso de poder. Trata-se de usar a palavra e a razão, apesar de que seja difícil encontrar seus caminhos em tempos tão turbulentos. Trata-se de não cair nas chantagens da força, reivindicar nossos direitos e o direito de uma solução democrática e eleitoral".

"Como cristãos, - acrescenta - cabe a nós acompanhar esta longa Sexta-feira Santa que nosso povo está vivendo. A fome ainda está presente, a falta de medicamentos, as operações violentas da OLP, o mal desempenho dos serviços públicos ou o seu desaparecimento, a insegurança, e fatores que se somam e agravam outros problemas que já vêm de longa data", enquanto critica o último passo dado pelo Tribunal Superior de Justiça (que provocou os últimos incidentes), que é "uma nova temporada nesta Viacrucis do povo venezuelano, uma desapropriação a mais, um novo espinho, outro golpe neste caminho tortuoso que já leva alguns anos".

"Queremos caminhar para a verdadeira liberdade que pressupõe reconhecer a todos como membros de uma comunidade política que respeita os direitos do próximo, que permite verdadeiros caminhos de desenvolvimento, que promove uma solidariedade autêntica", conclui o editorial, pedindo "respeito pelo Estado de Direito, a separação de poderes, a legitimidade do Parlamento como instância de controle e decisão democrática".

Finalmente, as autoridades da Universidade Católica Andrés Bello ofereceram uma conferência de imprensa para estabelecer uma posição sobre o desempenho dos organismos de segurança do Estado frente aos protestos registrados no país, na semana passada, contra as sentenças do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), que desabilitaram a Assembleia Nacional a favor da restituição da ordem constitucional.

A reunião foi presidida pelo reitor, Francisco José Virtuoso, o Cardeal Jorge Urosa Savino - Arcebispo de Caracas e Chanceler da UCAB - e o Padre Rafael Garrido - Provincial da Companhia de Jesus na Venezuela e Vice-Chanceler desta casa de estudos - que leram um comunicado em que denunciaram a implantação de uma "repressão indiscriminada e sistemática contra a população civil" e o "uso irresponsável e ilegal da força" pelo poder Executivo Nacional.

No documento, as autoridades asseguraram que a Universidade Católica "não deve e nem pode permanecer em silêncio frente a violação dos direitos humanos e da impunidade". Eles qualificaram como "abomináveis" as ações repressivas como o uso de armas de fogo, o disparo de bombas de gás lacrimogêneo em direção a hospitais e centros comerciais e o lançamento deste tipo de projéteis por helicópteros do Estado.

Os representantes da UCAB exigiram que o governo nacional cessasse a criminalização das manifestações pacíficas e as prisões arbitrárias, advertiram que não "se pode sacrificar os direitos humanos sob o pretexto de restaurar a ordem pública" e pediram para investigar "de maneira independente e exaustiva" os excessos cometidos no controle da ordem pública, porque "constituem graves infrações do direito internacional e podem constituir crimes contra a humanidade".

Eles também lembraram que o protesto é um direito consagrado pela Constituição Nacional e convocaram aqueles que desejam exercê-la "no âmbito do respeito às leis e aos cidadãos, evitando qualquer tipo de violência que deturpe os mais nobres propósitos".

Segue o texto completo do comunicado, que também está disponível para download aqui.

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