"Com a reforma das paróquias, está cada vez mais difícil ser padre." Entrevista com Thomas Frings

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06 Abril 2017

Quando um padre diz que não quer mais realizar a atividade de pároco para não perder o seu amor pela fé – e vai para o convento – provoca um certo estupor. Thomas Frings fez exatamente isso: há um ano, pediu para se isentar do serviço na paróquia.

A reportagem é de Kirsten Dietrich, publicada no sítio Deutschland Radio Kultur, 03-04-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A sua forte crítica tinha a ver com a falta de verdadeiro interesse pela fé por parte dos fiéis, com o excessivo apego a tradições vazias e com um interesse pela vida da Igreja limitado às ocasiões em que existe a possibilidade de alguma bela foto para acrescentar ao álbum da família.

Frings recentemente esclareceu essa crítica ainda melhor em um livro: Aus, Amen, Ende? So kann ich nicht mehr Pfarrer sein [Fora, amém, fim? Assim eu não posso mais ser pároco] (Ed. Herder).

O título fala por si só. Na verdade, Thomas Frings, desde então, vive em um convento beneditino nos Países Baixos, mas, atualmente, está em viagem, e, por isso, pude falar com ele sobre os motivos pelos quais, na sua opinião, a Igreja deve aprender a admitir que alguns querem ir embora.

“Em relação a mim – afirma Frings –, eu tenho certeza de que devemos aprender a dizer adeus. Na vida, devemos sempre aprender. Envelhecer também significa dizer adeus a muitas coisas que, antes, podiam ser feitas. Muitas coisas são aprendidas, mas eu acredito que, com o tempo, deve-se abrir mão de muitas coisas, e o difícil nisso é, se é possível – ou se deve – fazer isso voluntariamente, que não se sabe o que vai se encontrar no lugar daquilo de que se abre mão. Assim, abrir mão é sempre um risco. As estruturas que vivemos na Igreja, nas quais crescemos, trouxeram consigo também, incrivelmente, muitos pontos fortes, mas parecem ser cada vez menos compatíveis com a forma atual da sociedade. Mas não sabemos o que colocar no seu lugar. Então, preferimos viver na incerteza e no insucesso, em vez daquela total insegurança que poderia surgir.”

Eis a entrevista.

Apesar de tudo, o senhor continua fortemente convencido de que, em todo o caso, como as coisas estão agora, com todos os esforços de reforma e mudança, mesmo com a Igreja do povo, isto é, com uma Igreja que realmente tem a exigência de agir na sociedade como um todo e também de se identificar dentro da sociedade, não é possível seguir em frente.

Realmente não sou o único que pensa assim. Sobre algumas outras coisas, talvez eu esteja sozinho, mas não sobre isso. Eu acho que, hoje em dia, ninguém mais diz que ainda somos uma Igreja do povo. Eu cresci em uma Igreja do povo, na qual era óbvio que uma pessoa pertencia a uma das duas Igrejas [católica ou protestante] na nossa sociedade, e isso também era fortemente sentido na cotidianidade da família. Mas, hoje, simplesmente não é mais possível afirmar isso.

Se o senhor não se sente sozinho no diagnóstico de que não se pode seguir em frente assim na Igreja, então em que se sente sozinho?

A primeira coisa, naturalmente, é que eu sou o único que deu o passo que eu dei e que, por isso, chamei tanta atenção, o que realmente não pretendia fazer. Eu me retirei do cargo de pároco, para poder, no fim, continuar sendo padre. Quem deixa a paróquia ou o presbiterado faz isso, na maioria dos casos, para continuar em outra profissão, ou se casa, ou escolhe uma relação que o obriga a sair. Mas o fato de alguém ir embora praticamente para poder permanecer padre era algo aparentemente tão incomum a ponto de despertar tanto alvoroço.

Gostaria de saber se não há um conflito, ser pároco e ser padre... Isto é, por um lado, a Igreja como forma social, que não funciona mais, e, por outro, a Igreja como “prática sagrada”, digamos assim, que absolutamente queremos manter. Isso não é um pouco desleal?

Não! Você representou a situação muito bem. De fato, eu sou um defensor dessa “prática sagrada”. Eu também escrevi isso no livro: quando as pessoas ou os jovens vêm até mim e me perguntam se devem se tornar padres, eu sempre sou a favor, porque o âmbito teológico, espiritual, pelo que representa, que eu também pratico, que marcou fortemente a minha vida, é, para mim, algo extraordinariamente bom. Mas a forma social em que eu vivi como pároco – para mostrar a diferença, esse é o cargo social que eu desempenhei dentro da minha comunidade de fé – é desenvolvida em uma forma que, cada vez mais, é difícil de viver. Eu posso ver isso na minha experiência: no meu primeiro encargo, eu tinha 1.500 paroquianos, no segundo 3.000, no posterior 10.000, e esse não seria o limite! Portanto, fazem-se as fusões de paróquias, as paróquias se tornam cada vez maiores. Ser padre com essa reforma é cada vez mais difícil.

Mas é possível imaginar uma Igreja em que o realmente importante é o que acontece na missa e em que as pessoas que, como quer que sejam, pertencem a ela, por definição, não são mais tão importantes?

São importantes! Evidentemente, a eucaristia é para elas. O nosso olhar está sempre dirigido para outro lugar, e nós, justamente, como comunidade, dizemos que somos uma comunidade de 10.000 pessoas, das quais 218 vêm aos sábados ou aos domingos para a missa. Todos são convidados, e nós tentamos manter tudo sempre o máximo possível alto e amplo, mas cada vez menos funciona nessa direção. Vemos isso agora quando focamos na celebração dominical da eucaristia, que teologicamente é o ápice. Quando eu era criança, 50% das pessoas iam à missa. Quando eu me tornei padre, 25%. E, na minha última destinação, não eram nem mais de 3%. Mas continuamos apegados a esse modelo. Eu acredito que devemos buscar novos modelos, e não simplesmente deslocar o modelo conhecido para uma forma mais ampliada, de 3.000 para 10.000 para 20.000, e, depois, talvez para números ainda maiores.

Mas a celebração da eucaristia continuaria sendo o centro, mesmo se buscarmos outro modelo.

Ela está sempre no centro e, para mim – eu também escrevo isto no livro –, é sempre o ponto de partida do meu ser cristão. E a meta do meu ser cristão é precisamente esse ponto. Uma bela experiência que eu vivi na minha vida de padre: certa vez eu perguntei a Dom Helder Câmara, que eu encontrei muitas vezes na América Latina, em Recife, um ícone da Igreja dos pobres... Eu era um jovem padre e lhe perguntei: “Se o senhor pudesse me dar um conselho, senhor arcebispo – ele já tinha mais de 80 anos –, para a minha vida, que conselho daria?”. E ele disse: “Sempre celebre a eucaristia com a máxima devoção. Deus nunca está mais perto de nós do que na forma do pão e do vinho”. E, se quem diz isso é alguém que está do lado dos homens de modo incondicional, naquele momento e também mais tarde, sempre, eu entendo de onde ele tirava a sua força. Por isso, a eucaristia, para mim, é o ponto máximo e o ponto central para poder ir, a partir daí, ao encontro das pessoas.

E, naturalmente, o ponto em que se encontra algo como a relação entre clero e leigos, por um lado, e, por outro lado, em que se evidencia claramente como essa relação pode se tornar crítica. É um ponto que eu entendi a partir da leitura do seu livro: que é necessário repensar a relação entre os leigos, isto é, aqueles que vão à igreja, mas que não o fazem como profissão, e aqueles que, em vez disso, têm a sua profissão justamente na igreja.

Sim. O modelo – é sempre tão difícil conseguir expressar isso em poucas frases – vem de uma abordagem diferente. Até agora, o padre sempre teve que ser aquele que dirige a paróquia. Entre nós, até agora, estava previsto assim. E provocou uma grande repercussão na imprensa o fato de que, na semana passada, o cardeal Marx disse que também deve haver leigos que assumam a responsabilidade pela direção da comunidade. E, imediatamente, chegaram objeções de todos os lados. É preciso que seja possível também um modelo diferente, e que a responsabilidade, até mesmo a responsabilidade última na comunidade, possa estar também nas mãos dos batizados, e não só dos consagrados. Nós os colocamos sempre tão alto e dizemos que os leigos são importantes, que os batizados são tão importantes, mas lhes damos confiança ao longo do caminho? Damos-lhes também responsabilidades? Ou dizemos: “Não, é melhor ter empregados assalariados sobre os quais, em última instância, é possível ter mais influência”? Parece-me que as coisas são assim.

Nesse ponto, não entendo claramente o conceito, se o senhor espera mais ou menos dos leigos. Por um lado, o senhor reivindica o fato de que é importante que as pessoas acreditem de forma mais decisiva, comprometam-se com decisão e que parem com as coisas superficiais. Por outro lado, porém, o ministério do padre também é uma coisa central...

É preciso formular isso de um modo um pouco diferente... O ministério do padre não é a coisa central, mas, como o papa atual continua dizendo, a coisa decisiva é o batismo. Ele já perguntou várias vezes na Praça de São Pedro quem sabia a data do seu batismo, e, para aqueles que não sabiam, ele fazia uma pequena reprimenda. Ele dizia: “Assim não está legal, vocês também devem saber quando vieram para Cristo, quando foram acolhidos nesta comunidade!”. E eu digo que não devemos continuar mantendo o modelo atual, dizendo que esse modelo agora deve ser levado em frente pelos leigos, que agora se encarreguem...

Acredito, ao contrário, que devemos aperta o botão de “reset” e simplesmente recomeçar do zero, em vez de ver como ainda podemos seguir em frente no modelo que existiu até agora, que tem cada vez menos sucesso. Em vez disso, devemos nos perguntar o que é a coisa essencial, o nosso “depósito”, qual é o ponto de partida, e tudo aquilo que está relacionado com ele deve ser feito com aqueles que dele participam. Hoje, naturalmente, ainda temos uma Igreja em que as pessoas vêm e dizem: “Há pessoas que se ocupam disso em tempo integral, são elas que fazem, confiemos a elas a tarefa”. Eu, também, que cresci dentro dela, sempre me disse que, como sou pago para isso, assumo muitos encargos, e, para os batizados, esse era um status muito mais cômodo. Por isso, a abordagem fundamental deve ser totalmente modificada.

O senhor consegue entender o fato de que um representante dos leigos, como por exemplo o presidente do Comitê Central dos Católicos Alemães, Thomas Sternberg, critica-o muito? Ele considera que, com o seu modelo, o senhor realmente não leva a sério os leigos, não concede a eles nenhum papel realmente decisório.

Eu não o ouvi dizer isso, ou ele não leu bem o meu livro, ou não o entendeu no ponto em que eu digo muito claramente: em vez de dizer que devemos remover o celibato obrigatório para ter mais padres, eu diria que esse é o pressuposto para deixar as coisas como estão. Eu digo que não devemos fazer isso, devemos mudar e realmente dar a responsabilidade aos leigos. Não apenas passar-lhes encargos a serem realizados, mas também a responsabilidade ligada a eles. E os encargos não são aqueles que se encontram até agora, para continuar assim. Ao contrário, quando as pessoas chegam à comunidade e têm desejos, estes não devem ser reelaborados pela comunidade separadamente, mas devem ser implementados, devem conviver com as pessoas. Portanto, eu não delego a realização dos meus desejos para a Igreja e para a comunidade. Se eu tenho desejos em relação à comunidade, sou eu mesmo que devo assumir a responsabilidade pela realização desses desejos, como batizado.

A Igreja Católica deve se tornar mais semelhantes às Igrejas livres?

Você não é a primeira que me pergunta isso e que diz que há uma semelhança com as Igrejas livres. Em um primeiro momento, parece ser efetivamente assim, mas há uma diferença fundamental: nas Igrejas livres, só é possível ser membro se houver um compromisso de 80%, de preferência de 100%, e se a pessoa organiza a sua vida completamente dentro desse modelo. No meu modelo, as coisas são totalmente diferentes. Alguns se comprometem totalmente, participam totalmente, alguns se comprometem apenas um pouco, participam um pouco, sem pretender ter tudo. Essa é a diferença. Nas Igrejas livres, é preciso estar em 100%, nisso eu as admiro, esta também é a sua força. Mas, para aqueles que não estão em 100%, uma Igreja livre não serve. Para eles, o meu modelo seria a resposta.

O senhor deixou a sua paróquia há um ano, na Páscoa de 2016, e foi para o mosteiro. Como vê as coisas depois de um ano? Já sabe o que vai fazer em seguida?

Posso responder certamente que não, mas as coisas vão se esclarecendo. Lá onde eu estou, há uma comunidade incrivelmente fantástica, eu não quero dizer paradisíaca, mas realisticamente bonita do ponto de vista espiritual. Até a Páscoa, vou ficar nessa comunidade monástica nos Países Baixos. Depois, vou me jogar por 15 dias novamente na vida ativa e vou fazer uma turnê de conferências por toda a Alemanha, do norte até Munique, passando por Colônia, Regensburg e Paderborn. Depois, voltar e tentar entender o que me agradou, qual poderia ser o lugar certo para mim na Igreja, e isso não dependerá apenas de mim, mas também dependerá de outros na Igreja.

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