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31 Março 2017

A migração europeia para a ilha e a britânica para o continente é o conflito por excelência que ficou dissimulado sob o impacto da saída do Reino Unido da União Europeia.

A reportagem é de Eduardo Febbro e publicada por Página/12, 30-03-2017. A tradução é de André Langer.

Pela primeira vez, a União Europeia se vê confrontada com um problema migratório que já não diz respeito à migração Sul-Norte, mas Norte-Norte. A implementação do Brexit na Grã-Bretanha deixa nos bastidores o destino de cerca de cinco milhões de pessoas: os mais de três milhões de europeus que vivem na Grã-Bretanha e os cerca de dois milhões de britânicos que residem nos países da União Europeia. Este é o capítulo mais delicado da negociação entre Londres e Bruxelas e também o mais ignorado pelos brexistas que, com um esforço de analfabetos, tiraram o seu país do grupo dos 27 depois de 43 anos de integração. Londres e a União Europeia deixaram a sorte destes cinco milhões de pessoas na corda frouxa.

A primeira ministra britânica, Theresa May, negou-se a garantir de forma “unilateral” a continuidade dos direitos dos imigrantes europeus. Ambas as partes prometeram responsabilidade e reciprocidade no trato deste tema, mas não avançaram nele. A retórica proveniente da capital britânica é de uma perigosa ambiguidade. A migração europeia para a ilha e a britânica para o continente é o conflito por excelência que ficou dissimulado sob o impacto do Brexit. No entanto, sua dimensão é tamanha que quatro jornais europeus – The Guardian, Le Monde, La Vanguardia e La Gazeta Wyborcza – publicaram esta semana um editorial conjunto no qual “pedem a realização de um acordo entre Londres e os 27 com o objetivo de garantir os direitos dessas cinco milhões de pessoas”.

Presos ao Brexit dentro e fora do Reino Unido, os trabalhadores europeus estarão sujeitos a uma chantagem permanente até que, em 2019, a negociação global chega ao seu fim... se é que realmente termina, e o Brexit entra em vigor. Britânicos e europeus continentais têm dois anos a partir de agora para propor uma solução. Daqui em diante, mais de cinco milhões de pessoas viverão na incerteza em relação não apenas ao direito legal de residência ou de trabalho, mas, sobretudo, à aposentadoria, à cobertura do desemprego ou aos dispositivos de proteção social.

Os especialistas estimam que as regras comunitárias se manterão em vigor até que os novos acordos bilaterais sejam assinados. Mas esse compasso de espera terá consequências imediatas para os expatriados britânicos ou do bloco europeu. Suas existências administrativas e suas projeções humanas estarão condicionadas pela negociação. Diante da incerteza, as empresas britânicas limitarão os contratos com os europeus e estes com os britânicos. Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer. Alguns gigantes financeiros como JP Morgan já anunciaram que contemplavam transferir milhares de empregos europeus que residem agora na ilha para o continente, onde seus direitos não estão “entre parêntese”. Trezentos mil franceses vivem no Reino Unido e 170 mil britânicos na França (320 mil na Espanha, 249 mil na Irlanda, 100 mil na Alemanha).

A complicação consiste, sobretudo, em relação aos outros países da União Europeia, ao mesmo tempo menos fortes que a França ou a Espanha e com um fluxo migratório mais denso que o de Paris ou Madri. É o caso da Polônia. Em agosto de 2016, The Times publicou os números oficiais da migração polonesa para a Grã-Bretanha. Nos 11 anos da pertença da Polônia à União Europeia, 831 mil poloneses foram morar na Grã-Bretanha. O número ultrapassa inclusive o dos migrantes indianos (795 mil). Os poloneses foram, além disso, um dos argumentos mais utilizados pelos brexistas para justificar a urgência da saída do Reino Unido como método para controlar a migração europeia. A xenofobia branca contra os brancos europeus foi determinante na vitória dos brexistas. Os europeus instalados no Reino Unido são 4% da população, o que equivale à metade dos migrantes.

A dívida que o Reino Unido tem com a União Europeia, cerca de 60 bilhões de euros, e a questão dos britânicos que vivem na Europa e dos europeus que residem na ilha constituem hoje as duas chaves da negociação. A primeira é uma questão financeira, a segunda (dos migrantes), por seu volume e seu caráter humano, não fugirá da chantagem nos dois próximos anos. “O gênio eurocético saiu da lâmpada e não voltará a ela”, sentenciou Nigel Farage (UKIP), o euroxenófobo que carregou o Brexit nos ombros. Os gênios, como se sabe, têm semelhanças com o demônio: são incontroláveis. Dele e da racionalidade oportunista de britânicos e europeus continentais depende a gestão de um novo paradigma do século XXI: a migração Norte-Norte.

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