Povos indígenas, acompanhados pela Igreja, lutam por direitos na floresta amazônica

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27 Março 2017

A Amazônia está no centro dos muitos problemas ecológicos debatidos atualmente, e um grupo de lideranças católicas da região está em Washington, DC, para tentar convencer os legisladores a fazerem mais pela proteção da área.

A reportagem é de Barbara Fraser, publicada por Crux, 26-03-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Uma ferrovia percorre mais de 880 quilômetros através de 27 comunidades na Amazônia brasileira. Ela passa tão perto das casas das pessoas que as construções se racham com o tempo, e alguns perdem a audição.

Os trens carregam para o litoral minérios extraídos da floresta. Os trilhos, porém, separam as famílias das suas escolas, dos centros de saúde, dos campos e, às vezes, os trens param sobre eles.

A Irmã Jakelyn Vasquez, das Oblatas do Sagrado Coração de Jesus, ordem religiosa que atua junto às comunidades ao longo dos trilhos nos estados do Maranhão e do Pará, disse que os trens geralmente ficam parados por horas, às vezes o dia inteiro.

No começo de março, um trem de 336 carros estacionou nos trilhos de um dos vilarejos. Vasquez contou ao Catholic News Service que a passarela mais próxima para cruzar sobre os trilhos ficava a mais de 6 quilômetros de distância. Então, como geralmente os moradores locais fazem, uma mãe e um bebê subiram sobre o trem para fazer a travessia – e o este começou a se mover.

A mãe perdeu os dedos; o bebê perdeu um braço. Esse acidente não foi o primeiro, segundo informou a irmã. Muitas pessoas são atingidas pelo trem, disse, e não recebem indenização alguma da multinacional que administra os trens e as minas –“só o caixão”.

Vasquez era uma dos aproximadamente doze membros da Rede Eclesial Pan-Amazônica que visitou Washington em março. O grupo, que incluiu lideranças indígenas que depuseram na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, também se reuniu com líderes religiosos, governamentais e o público para ajudar a espalhar a notícia sobre aquilo que descreveram como injustiças e abusos aos direitos humanos.

O Cardeal Claudio Hummes, presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM, contou ao Catholic News Service que a Amazônia “está no centro de muitos problemas ecológicos debatidos em nossa época, e a mudança climática é um deles”.

O cardeal falou que a encíclica do Papa Francisco de 2015, intitulada “Laudato Si’ – O cuidado da casa comum”, deixa claro que a Igreja “deve participar na defesa da Amazônia”.

“São os pobres que serão os mais afetados pelos problemas climáticos e ambientais”, acrescentou.
Em um encontro na Universidade Católica da América em 23 de março, Hummes falou que quando se reuniu com os bispos brasileiros em 2013, o Papa Francisco enfatizou que a Amazônia encontrava-se num “momento decisivo para o futuro”.

“E é por isso que a Igreja não pode errar na Amazônia”, explicou. Embora algumas pessoas estejam buscando explorar a região, outras procuram protegê-la.

“[A Amazônia] é um dos grandes pulmões do planeta”, disse ele, observando que povos indígenas e pequenos agricultores que vivem na região têm a sabedoria para ajudar a manter o planeta respirando.

A Igreja na Amazônia deve “ser muito profética e muito brava”, o que significa denunciar projetos maus e encontrar meios para o desenvolvimento sustentável.

Parte disso significa ensinar as comunidades a defenderem-se por si mesmas. Mauricio Lopez, secretário executivo da REPAM, disse que a organização tem realizado oficinas e seminários em que a "Laudato Si' é apresentada. Ele salienta que a Igreja não está em busca de resolver os problemas das comunidades locais, mas sim que procura acompanhá-las.

Num encontro público em Washington, líderes comunitários indígenas da Colômbia e do Peru citaram constituições, acordos de paz e documentos internacionais para ilustrar as violações governamentais aos direitos humanos.

Rosildo da Silva, líder Chauwandawa, brasileiro, falou que o governo está constantemente mudando a lei e que sempre promete aos pequenos agricultores que as coisas vão melhorar.

“É uma piada”, disse durante um fórum no dia 21 de março. “Nós não podemos confiar neles”, porque com uma mão nos oferecem algo, mas com a outra eles fazem uma coisa bem diferente.

Marco Martinez Quintana, que trabalha com famílias agricultoras no sul da Colômbia, falou que certo dia um homem apareceu com uns documentos emitidos pela Agência Nacional de Terras e alegou que possuía a permissão para usar a terra de aproximadamente 20 famílias para produzir azeite de dendê. Segundo ele, milhares de hectares na região estão comprometidos com a produção deste óleo.

Estes pequenos agricultores, nas periferias da Amazônia, usam um processo descrito por eles como “floresta comestível”.

“É uma espécie de supermercado na selva”, disse Marco. Os agricultores plantam diversas culturas que produzem alimento. Assim que nutrem o gado, comercializam com agricultores que não têm espaço para cultivar ração animal. Este processo constrói a comunidade, completou.

Marco Quintana falou também de um decreto do governo colombiano assinado com o governo americano que diz que os agricultores locais não podem usar as suas próprias sementes, devendo comprar sementes geneticamente modificadas – e todos os produtos químicos que vêm junto.
“Soberania é quando somos capazes de semear as nossas próprias sementes e cultivar o nosso próprio alimento”, disse.

Hummes falou que entende a necessidade de o país crescer economicamente, mas acrescentou que o agronegócio tem tido um grave impacto sobre o meio ambiente. Por exemplo, rodovias novas permitem que os alimentos sejam transportados e vendidos, porém se são usadas em excesso, podem levar à destruição da floresta.

O prelado brasileiro igualmente disse haver a percepção pública de que a floresta não produz nada, e que “para produzir e ser produtiva, é preciso remover o floresta”.

O desafio “é demonstrar a floresta como ela é, as árvores como elas são – a floresta, as águas, a biodiversidade, podem oferecer mais (...) riqueza do que a floreta que é retirada”, ou que é minerada ou cultivada em larga escala, disse.

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