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23 Março 2017

" Como costuma se comportar, porém, em todas as crises por ela própria engendradas vai tentar - e quase certamente vai conseguir - transferir todo o seu prejuízo econômico e financeiro ao Estado e, consequentemente, a todo o seu povo", alerta Jacques Távora Alfonsin, procurador aposentado do estado do Rio Grande do Sul e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos.

Eis o artigo.

As fotos do presidente Michel Temer servindo-se de carne brilhando de gordura, domingo passado, 19 deste março, num jantar oferecido a representantes de embaixadas estrangeiras, oferecem a qualquer um/a a possibilidade de confirmar denúncias repetidas há muito tempo, sobre o desrespeito de grandes empresas do país para com a saúde e a vida do público consumidor das suas mercadorias, às vezes com o apoio do próprio Poder Público.

O presidente procurava mitigar os efeitos da operação Carne Fraca, desencadeada pela Polícia Federal. Tendo investigado frigoríficos brasileiros, de poder econômico o mais expressivo, embalando e vendendo carne imprópria para o consumo, levando junto salmonela e papelão, a operação provocou imediato embargo de compra dessa mercadoria por vários países importadores. Michel Temer tratou então de, com muita agilidade e pressa, convidar quem os representa para passar uma imagem de tranquilidade como a de nada existir de irregular nessa carne e ter havido exagero por parte da investigação policial, assim buscando defender as exportações de carne do prejuízo consequente:

“Além de picanha, o presidente se serviu de alcatra, fraldinha, linguiça e carne de cordeiro. A comitiva de 54 pessoas movimentou o restaurante”, conforme noticiou o Valor Econômico do dia seguinte.

A qualidade e o preço da carne assada, colocada a escolha dos comensais nesse jantar, se forem comparados com o conteúdo e o valor de uma cesta básica brasileira, sugerem algumas conclusões tão prejudiciais e insalubres para o governo da União e os frigoríficos exportadores de carne, seja do ponto de vista econômico seja social, como as provocadas pela salmonela e o papelão juntados às carnes vendidas aqui e no exterior.

Prevista para ser consumida em um mês (!), por uma família trabalhadora brasileira, o valor da cesta básica do Brasil é calculado periodicamente para cobrir o custo de 13 alimentos, variando às vezes por acordo firmado entre empregadoras/es e empregadas/os: carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga.

Segundo o DIEESE, em nota publicada na internet no dia 7 deste março, o valor da cesta básica de Porto Alegre, por exemplo, a mais cara do país em fevereiro, chegou a R$ 435,51. Isso significa, segundo a mesma fonte, que “em fevereiro de 2017, o salário mínimo necessário para a manutenção de uma família de quatro pessoas deveria equivaler a R$3.658,72, ou 3,90 vezes o mínimo de R$ 937,00.”

Se o preço de um buffet vai a R$119,00 sem bebidas, na churrascaria onde o presidente resolveu levar seus convidados, conforme noticiou o mesmo Valor Econômico, dá para se calcular a proporção representativa desse preço no valor da cesta básica de Porto Alegre. Um pouco mais de três refeições ali servidas custa o mesmo.

A tal operação Carne fraca, portanto, se está causando sério prejuízo econômico aos frigoríficos investigados, poderá servir também para desmascarar muita outra coisa, como já aconteceu no Rio Grande do Sul com as grandes empresas de industrialização e comercialização do leite.

A principal delas, talvez, seja a de provar o descaso e a indiferença de todo um modelo de economia aqui presente com a vida e a saúde da população de cá e do exterior, algo não exclusivo do grande capital exportador de carne do Brasil. Há uma conduta gananciosa, anti-ética e corrupta nisso revelada; outra, a de demonstrar como é farisaica e hipócrita a grita partida dele e da bancada ruralista, igualmente fiel ao agronegócio, em favor da legalidade e da moralidade, quando monta CPMIS, como a do Incra e da Funai. Em vez de defesa de direitos sob risco, nessas iniciativas o que lhes interessa é a proteção dos seus privilégios e históricos desmandos contra índias/os, sem-terras e quilombolas; uma terceira, a injusta e escandalosa desigualdade social vigente no país, cujo governo corre velozmente para socorrer quem tem responsabilidade por esse estado de coisas, com rapidez invertida quando se trata de garantir os direitos sociais das suas vítimas; uma quarta, a de a estratégia do presidente, convidando gente dos países importadores de carne, para consumi-la num jantar, não estar dando certo. Com exceção da Coreia do Sul, que suspendeu o embargo, mais cinco mercados aderiram ao boi-cote, além da China, União Europeia e Chile, que já tinham feito o mesmo anteriormente. Conforme a Zero Hora desta quarta-feira noticia, Japão, Suiça, Jamaica, Mexico e Hong Kong passaram a figurar nesse rol.

A impressionante fortaleza econômica do capital, por todos esses fatos, acaba se despindo a contragosto. Como costuma se comportar, porém, em todas as crises por ela própria engendradas vai tentar - e quase certamente vai conseguir - transferir todo o seu prejuízo econômico e financeiro ao Estado e, consequentemente, a todo o seu povo.

Há uma coincidência irônica nesse “incidente”. As Igrejas cristãs aconselham suas/seus fiéis a fazerem, durante o período litúrgico da quaresma, como agora acontece, a penitência de suportarem jejum e se absterem de comer carne em certos dias previamente previstos, sexta-feira santa servindo de exemplo. Sabe-se lá se toda a repercussão desse caso, refletida na operação Carne fraca, ao contrário do que se divulga, não tenha sido manobra proposital dos frigoríficos para estimular fiéis a fazer essa penitência preparatória da páscoa.

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