Romero será santo, mas quando? Bispos de El Salvador viajam a Roma. Eles esperam que a canonização ocorra em 2017

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20 Março 2017

Gregorio Rosa Chávez está prestes a viajar para Roma com todos os bispos de El Salvador e leva uma carta do Presidente Salvador Sánchez Cerén ao Papa apoiando a moção de que Romero seja declarado santo o quanto antes possível. A data poderia ser - de acordo com o desejo dos viajantes - em agosto, no centésimo aniversário do nascimento do atual beato Oscar Arnulfo Romero V.
 
Dom Rosa Chávez também espera que isso aconteça, mas não se ilude e propõe uma outra possibilidade: em 2019, quando o Dia Mundial da Juventude acontecerá no Panamá. "Isso nos daria tempo para trabalhar duro para conseguir o que eu chamo de 'o milagre da paz' ", pois consagraria Romero como o santo da América Latina e não acrescentaria mais viagens às que o Papa já tem programadas. Explica todos os seus argumentos junto com algumas outras coisas inéditas ou pouco conhecidas sobre o futuro santo e o candidato a beato, Rutilio Grande.
 
A entrevista é de Alver Metalli, publicada por Tierras de América, 17-03-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.
 
Eis a entrevista.
 
Monsenhor, o que você esconde na mala?
 
[risos] É muito pequena para esconder grandes coisas...
 
O que você espera desta viagem?
 
A visita "ad limina" é protocolar, mas todos os bispos de El Salvador juntos terão um diálogo coletivo com o Papa. Estou fascinado pela nova forma de realizar este tipo de visitas, especialmente a respeito do momento do encontro com ele. Pelo que sei da experiência dos bispos da Costa Rica e Chile que já a realizaram, é algo que realmente vale a pena.
Existe alguma novidade sobre Romero?
A novidade é o encerramento do estudo sobre um suposto milagre. Foi realizada uma sessão solene do Tribunal Eclesiástico da Arquidiocese de San Salvador, com a presença do arcebispo, do núncio apostólico e dois outros bispos. Aqueles que conhecem o caso de perto estão muito otimistas.
Será que no próximo mês de agosto, no centenário do seu nascimento, falaremos do Beatificado Romero ou de São Romero?
Imagine como esperamos por esta notícia! Para o Papa - basta ver sua carta ao arcebispo que foi lida no final da cerimônia de beatificação -, o maior milagre de Romero seria que o país conquistou a paz. A receita do Santo Padre é conhecer o pensamento de Romero, imitar o seu testemunho e pedir sua intercessão com autêntico fervor. Meu maior medo é que esperamos uma canonização "grátis", que não tenha nenhum custo; bastando que o suposto milagre que acaba de ser apresentado em Roma fosse aprovado. Meu sonho é ver, pouco a pouco, que todo o país se coloque neste movimento. O principal sinal exterior seria as peregrinações aos lugares sagrados de Romero, incluindo a pequena cidade onde ele nasceu há quase cem anos, Ciudad Barrios.
Mas o senhor espera a notícia da canonização?
Pessoalmente, acho que não vai acontecer nada em 2017. Gosto da data de janeiro de 2019, data da Jornada Mundial da Juventude, que se realizará no Panamá. Já existem precedentes, por exemplo, quando o Papa João Paulo II visitou o Canadá, a Guatemala e o México em 2002, e no primeiro país canonizou Juan Diego e no segundo o irmão Pedro de San José de Betancourt. Uma data como esta nos daria tempo de trabalhar duro para alcançar o que eu chamo de "o milagre da paz".
 
Se o milagre humano acontecer...
 
É verdade, mas há também um milagre que eu chamaria de "moral", do qual não se fala, que é de quando houve uma enxurrada de conversões assim que o Monsenhor Romero foi beatificado. Muitos vêm se desculpar porque odiavam Romero ou ficaram felizes com sua morte... é algo silencioso, mas real. E muitos admitem que formaram um julgamento negativo sobre ele sem nunca tê-lo escutado com base em coisas ditas por terceiros e que agora sabe-se que eram mal-intencionadas.
 
Houve um caso que me ocorreu quando fui a uma escola católica para administrar a confirmação. Quando a missa terminou, um homem se aproximou de mim para perguntar se poderia falar comigo. Ele disse que seu pai, um notável professor da Universidade Nacional de El Salvador, militante da esquerda, tinha sido assassinado. Muito depois supus que Romero tivesse denunciado esse crime. E ele havia lido a homilia em que fez a denúncia. Ele disse: "Se ele defendeu um homem justo como meu pai, ele mesmo deve ser justo." A partir daquele momento, ele se converteu.
 
Há muitos casos como esse e muitos outros continuarão acontecendo. Em uma escola católica, um militar me abordou e ajoelhou-se diante de mim. Pediu perdão dizendo que ele "tinha desejado a morte de Romero", mas que agora compreendia que "era um homem de Deus".
 
Romero tem causado um verdadeiro terremoto espiritual com fortes abalos sísmicos, como se diz no jargão. E isso é importantíssimo para o processo de canonização. Eu não tenho pressa.
 
O senhor acredita que seja necessário aguardar pelo Padre Rutilio Grande?
 
A relação que o Papa estabelece entre as duas figuras é clara, pelo menos em seu coração, inclusive a ideia de canonizar Romero e beatificar Rutilio na mesma ocasião. No México, ele fez duas beatificações na mesma viagem, a de João Batista e de Jacinto dos Anjos. De qualquer forma, Roma tem toda a documentação, ampla, interessante e bem verificada, e uma excelente biografia de Rutilio, como homem de Deus, como pastor.
 
Se o senhor, que conhece tão bem a Rutilio, diz...
 
Ele era meu professor e mentor. Rutilio é um jesuíta atípico. Sua postura é de um excelente pastor. Sua visão da Igreja e do ministério foi marcada por um curso realizado no IPLA (Instituto Pastoral para a América Latina) em Quito, no Equador, com um grupo magnífico de professores. Ao voltar a El Salvador, ele se propôs a trabalhar para que os campesinos recuperassem a palavra e sua dignidade, na perspectiva dos documentos de Medellín.
 
Há um fato que poucos conhecem e que mostra seus dons extraordinários como pastor: refiro-me ao campo-missão organizada e conduzida por ele na paróquia de Ciudad Barrios, com todos nós, que na época éramos estudantes de teologia. Curiosamente a Ciudad Barrios é a cidade onde nasceu Dom Romero. Quem poderia imaginar que estas duas vidas poderiam se cruzar dez anos depois?
 
Por que enfatiza a pastoralidade de Rutilio?
 
Ele tinha uma capacidade impressionante de falar com os camponeses, sabia levar a mensagem de Cristo às pessoas simples e sempre dentro de um horizonte de busca por justiça. Aprendeu com Dom Proaño, bispo de Riobamba, no Equador, que concorreu ao Prêmio Nobel da Paz. Foi um dos poucos latino-americanos que participaram do Concílio Vaticano II. Como eu disse, Rutilio foi para o Equador para participar de um curso de Proaño em Quito e depois foi com ele para sua diocese de Riobamba, na Cordilheira dos Andes. Isso marcou-o profundamente. Sem Proaño, o apóstolo dos índios, não se compreende Rutilio, suas habilidades pedagógicas e, especialmente, sua extraordinária capacidade de inculturar o Evangelho no mundo dos pobres e dos camponeses.
... e sem Rutilio não se compreende Romero...
 
Encontramos a melhor resposta na homilia fúnebre que o arcebispo mártir proferiu na catedral de San Salvador. Na introdução, o D. Romero disse que considerava Rutilio "como um amigo". Logo depois ele explicou o porquê: "em momentos decisivos da minha vida, ele estava muito perto de mim e esses gestos jamais se esquece". Em seguida, traçou o perfil de Rutilio com as três características que Paulo VI menciona na "Evangelii Nuntiandi" sobre a contribuição da Igreja para a luta de libertação: os verdadeiros libertadores têm "uma inspiração de fé, uma doutrina social que é a base de sua prudência e sua existência... e, especialmente, uma motivação de amor".
 
A forma como Romero usa esses traços para falar de seu amigo é comovente. Mas gostaria de acrescentar outro elemento em resposta à sua pergunta: não se compreende Romero sem Pironio. Pironio pesa mais do que Rutilio na vida de Romero. Romero liderou o semanário Orientación e era muito reticente com a Conferência de Medellín e muito crítico a respeito da Teologia da Libertação. Romero começou a compreender Medellín quando Pironio, secretário adjunto do Secretariado Episcopal da América Central e do Panamá, pregou um retiro para os bispos da América Central na Guatemala em 1974...
 
Romero estava presente?
 
Sim, e ele ficou muito surpreso com o que ouviu. No diário de Romero, pode-se ver que sempre que vai a Roma para as audiências com o Papa, ele visita Pironio. Em Roma, como se sabe, Romero teve de enfrentar várias acusações falsas e sofreu muitos mal-entendidos e era sempre Pironio que o confortava e iluminava seu caminho. Em seu diário, Romero detalha seus encontros com Pironio depois de ver o Papa. Quase sempre ele carrega um grande peso em sua alma. Em uma ocasião, Pironio conforta-o dizendo que ele também foi acusado e que estava circulando um panfleto em Roma intitulado "Pironio piromaníaco". Pode-se dizer que entre Pironio, no processo de beatificação, e Romero, em vias de canonização, havia uma aliança santa.
 
Foi feita justiça com Romero? Refiro-me à ação judicial, que deve encontrar, julgar e condenar os autores do assassinato.
 
Este é um ponto importante. Foi D. Rivera y Damas, grande amigo e primeiro sucessor de Romero, que denunciou à Corte Interamericana de Direitos Humanos que o assassinato nunca foi investigado a fundo pelo governo. O governo rejeitou a denúncia e nunca assumiu responsabilidade explícita e pública. Depois de anos de litígio, na última sessão que presenciei juntamente com María Julia Hernández (que trabalhou com Romero e dirigiu a Tutela Legal até sua morte, N.d.R.), o governo, através de seu representante, concluiu mais ou menos nestes termos: nos reconciliamos, firmamos um acordo de paz, o caso prescreveu, existe anistia, portanto, arquiva-se. Afirmamos a necessidade de perdoar, mas com verdade e justiça.
 
A partir desse ponto de vista, acreditamos que a mensagem de João Paulo II, em 1997, "receba o perdão e ofereça a paz" é um documento chave para uma Igreja como a nossa, que promove a reconciliação. Ele argumenta que há duas linhas: uma fala de perdão e esquecimento, a outra de verdade, justiça e perdão. Na América do Sul, ambas têm sido aplicadas; onde se seguiu a linha de perdão e esquecimento, foi um fracasso; onde se seguiu - como no Chile - uma linha de justiça e perdão, obtiveram-se os melhores resultados. Pessoalmente eu acrescentaria um quarto termo: a reconciliação, como no esquema colombiano.
 
E no caso de Romero?
 
Houve uma anistia decretada pelo Presidente Cristiani em 1993, a critério do perdão e do esquecimento. Esta anistia acaba de ser revogada. Abriu-se novamente espaço para investigação. Estamos nesse ponto. Mas continua uma dívida pendente. A sentença da Organização dos Estados Americanos (OEA) pedia três coisas fundamentais: em primeiro lugar, que o Presidente da República reconhecesse publicamente a responsabilidade do Estado de El Salvador no assassinato de Romero, o que foi feito pelo presidente Mauricio Funes; segundo, que fossem concedidas honras públicas em nome de Romero, o que também foi aconteceu, por exemplo, dedicando o Aeroporto Internacional de San Salvador a ele; e em terceiro que a história verdadeira de Romero fosse ensinada às crianças nas escolas, mas justamente aqui nos deparamos com a necessidade de esclarecimentos.
 
Na Comissão da Verdade, um grupo de advogados peruanos associados ao monsenhor Bambaren e fortemente motivados em seu trabalho promoveu grandes avanços. Os três vieram até mim e disseram: "sabemos de tudo, agora precisamos cruzar as informações". Eu tinha uma carta de uma pessoa envolvida de várias maneiras nos esquadrões da morte, em que ela contava tudo o que sabia, como, entre outras coisas, o seu modus operandi. Entreguei uma cópia da carta a este grupo de advogados. Alguns dias depois, eles disseram que tudo o que tinha sido investigado foi confirmado pelo documento. A carta era de uma pessoa que havíamos ajudado a sair do país. D. Rivera y Damas também tinha uma cópia. O tempo passou, o homem voltou para El Salvador em segredo e concordou em falar com os advogados peruanos. No diálogo verbal só faltava um ponto: quem cometeu o disparo. E isto ainda não foi esclarecido.
 
O irmão mais novo de Romero, Gaspar, fez uma declaração, desconcertante em certo sentido, em uma conversa recente que tive com ele: "se meu irmão estivesse vivo hoje, eles teriam o assassinado novamente...".
 
Também estou convencido disso. Embora o ambiente seja diferente, Romero falaria em alto e bom tom, como nos anos terríveis da nossa história...

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