Presidência eucarística: Soluções locais para situações especiais

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20 Março 2017

Muitas vezes me pergunto como apresentar as boas novas em cada lugar e em cada momento histórico. A vivência do cristianismo foi mudando ao longo da história, adaptando-se às circunstâncias espaciais e temporais, em um processo que nem sempre tem sido fácil e que às vezes tem causado rupturas e divisões, conflitos que nem sempre são resolvidos da melhor forma possível.

A reportagem é de Luis Miguel Modino, publicada por Religión Digital, 18-03-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Alguns, a partir de uma visão monolítica, pretendem estabelecer critérios universais a partir de leituras que não levam em conta as diferentes situações em que tentamos viver a mensagem de Jesus de Nazaré hoje, inclusive dentro da própria Igreja Católica. São os defensores autodeclarados da fé autêntica, os católicos verdadeiros, que condenam e declaram hereges todos os que não pensam como eles, mesmo que seja o Bispo de Roma.

Durante nove dias, visitei as comunidades do Rio Xié, o primeiro afluente do rio Negro em território brasileiro, onde as pequenas comunidades indígenas estão espalhadas. É um lugar de difícil acesso: para chegar à última comunidade é preciso viajar de canoa por dois dias. O último padre passou por lá em maio do ano passado, o que significa que em quase um ano não foi possível celebrar nenhum sacramento.

No mês passado, o bispo emérito da Diocese de Jales, no Brasil, D. Demetrio Valentini, mostrou publicamente sua posição sobre a presidência da celebração eucarística e defendeu que este ministério não seja reservado apenas aos ministros ordenados, por intermédio da homilia de uma missa celebrada no Santuário Nacional de Aparecida pelo aniversário da Associação Nacional de Sacerdotes, e suas palavras provocaram reações de todos os tipos. Da mesma forma, em uma entrevista recente, o Papa Francisco falou sobre os viri probati e disse abertamente que está refletindo sobre a questão.

Fazer teologia pastoral ou simplesmente estabelecer critérios pastorais a partir de um escritório nem sempre responde à realidade concreta, pois escapam circunstâncias especiais que, na minha opinião, devem ser contempladas em resposta a situações locais. Não pretendo entrar em questões teológicas, mas sim em situações pastorais que exigem respostas urgentes, que dependem de circunstâncias espaço-temporais.

Há regiões onde a vida da Igreja Católica está circunscrita a situações singulares e acredito que muitos lugares da Amazônia estão entre elas. Acredito que não é possível estabelecer critérios universais a respeito deste tema da presidência eucarística. A primeira paróquia onde desenvolvi o meu ministério sacerdotal foi no centro de Madrid. Depois, em uma paróquia nos arredores da capital espanhola e, em seguida, passei a trabalhar como missionário no Brasil, por mais de nove anos na região Nordeste e já há mais de um ano na Amazônia.

Na primeira paróquia chegamos a ser sete sacerdotes, com um amplo número de missas, o que se repetia na maioria das paróquias, escolas, hospitais, capelas da região, ao ponto de que caminhando por menos de quinze ou vinte minutos era possível participar de cerca de cem missas dominicais. Na Amazônia brasileira, as longas distâncias e o alto custo dos deslocamentos fazem com que muitas comunidades recebam visitas do sacerdote uma vez ou duas vezes por ano.

Em uma visita ao Papa Francisco em abril de 2014, o Bispo Erwin Kräutler, então titular da Prelazia do Xingu, que era a maior circunscrição eclesiástica do Brasil com mais de trezentos mil quilômetros quadrados, colocou este problema ao Bispo de Roma, ao que ele respondeu que deviam ser levantadas propostas corajosas para resolver esta questão. Em diferentes reuniões entre Bispos da Amazônia, esta problemática tem sido abordada e têm sido dados passos nesse sentido.

A própria Igreja Católica diz que a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã e que um dos mandamentos é ouvir a missa inteira em todos os domingos e festas de preceito. Como explicar isso àqueles que, mesmo que queiram, não têm essa possibilidade? Que passos devem ser dados para responder aos desafios que a vivência do cristianismo, dentro das comunidades católicas, solicita-nos em cada vez mais lugares nas comunidades católicas do século XXI?

Nessa viagem, indo de uma comunidade a outra, estava lendo o último livro do teólogo brasileiro Celso Pinto Carias, que, juntamente com sua esposa, Aurelina de Jesus Cruz Carias, escreveu uma obra intitulada "Outra teologia é possível, outra Igreja também". Em suas páginas, ele refere-se ao Cardeal brasileiro Aloísio Lorscheider, que, junto com Paulo Evaristo Arns, Helder Câmara, Pedro Casaldáliga, José Maria Pires e muitos outros bispos, influenciou decisivamente a vida pastoral da Igreja brasileira na segunda metade do século passado, com atitudes muitas vezes proféticas.

O Cardeal Lorscheider define o Concílio Vaticano II em duas palavras: aggiornamento e diálogo. Ambas as dimensões não foram fáceis de concretizar, pois a resistência de alguns setores da Igreja tem sido, e continua sendo, forte. Hoje, mais do que nunca, é necessário assumir a dinâmica criada no Concílio Vaticano II e, assim, responder a tais situações, por vezes pontuais e específicas pelas quais a Igreja Católica passa.

Diferentes medos nos impedem de entrar em um clima saudável de diálogo, que leve a cabo uma atualização e renovação da Igreja. As opiniões diferentes não são aceitas e as tentativas de responder a situações locais são descartadas por causa de uma ortodoxia e uma homogeneidade, que nem sempre responde a critérios evangélicos.

É necessário dar respostas a comunidades onde a vivência do cristianismo, por parte de pessoas que são e sentem-se católicas, é prejudicada pela falta de ministros ordenados. São comunidades onde todos são batizados, casados na Igreja, onde quase todos participam da Eucaristia nas poucas vezes em que têm a oportunidade, onde uma boa parte se confessa nos momentos de presença sacerdotal.

Não podemos continuar sendo dominados por um sentimento de medo que nos impede de olhar para o futuro com esperança. Nunca nos esquecemos de que "uma Igreja com a participação de todos também desenvolve uma experiência missionária intensa", como nos lembra Celso Carias. Visões monolíticas nos empobrecem, por isso vamos pensar em soluções locais para situações especiais.

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