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20 Fevereiro 2017

"A carta assinada por trinta e cinco psiquiatras norte-americanos prestigiados e enviada ao The New York Times causou furor há alguns dias, pois o que o mundo está vivendo é doloroso com a irritabilidade das declarações do presidente Trump, que parece desconhecer que a política é, entre outras coisas, algo que requer muito de uma criação de símbolos, da negociação e da tolerância. Não é o único presidente que parece desconhecer isto. Quisera estender-me sobre o foco das observações desses especialistas em saúde mental, que extrapolaram um código interno sobre a avaliação profissional de personalidades públicas, e o fizeram, segundo explicam, pois “este silêncio é resultado de um fracasso na utilização de nossas experiências pelos jornalistas preocupados e os membros do Congresso, em um momento crítico como esse. Tememos que muita coisa esteja em jogo para permanecermos em silêncio”. É uma pena que estejam falando tão tarde, é uma pena que o próprio Trump seja uma pedra nos seus sapatos em matéria de neutralidade profissional",  O artigo é de Sandra Russo, publicado por Página/12, 18-02-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Eis o artigo.

Mas antes, permito- me deter-me em outra notícia desta semana, cuja fonte era a porta-voz da Chancelaria russa, Maria Zakharova, que chamou a atenção sobre a informação confirmada agora pelo Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM), admitindo o uso de projéteis com munição de urânio empobrecido contra a população civil síria e iraquiana.

Zakharova recordou que a Rússia denunciou essa violação de todas as convenções a esse respeito em outubro do ano passado, mas o que é há de diferente é que, naquele momento, “havia uma equipe encabeçada por um Prêmio Nobel da Paz encarregada disso”. Este pretexto para levar em consideração que Trump, com toda a sua carga negativa estranha, ao mesmo tempo revela o que os bons modos democratas não apenas calavam, mas que também faziam. Esse é o lixo que o capitalismo norte-americano já naturalizou, e vai saber o que opinarão esses psiquiatras sobre um Nobel da Paz que invade países e esmaga as populações civis com armas proibidas, ou seja: se não consideram os sírios e os iraquianos como pessoas que também pensam diferente de um presidente norte-americano.

O foco ao qual me referia antes é assinalado, no decorrer da carta, como “o discurso e as ações do senhor Trump que demonstram uma incapacidade de tolerar opiniões distintas às suas, o que leva-o a reações de raiva. Suas palavras e condutas sugerem uma profunda incapacidade para sentir empatia. Os indivíduos com estas características distorcem a realidade para adaptá-la ao seu estado psicológico, atacando os fatos e a quem os transmitem”.

Terminavam dizendo: “Cremos que a grave instabilidade emocional indicada pelo discurso e pelas ações do senhor Trump tornam-no incapaz de servir com segurança como presidente”. A carta também foi publicada no blog pessoal de um dos assinantes, o Doutor Lance Dodes, analista emérito do Instituto Boston e antigo professor de psiquiatria de Harvard. Ou seja, há um pouco mais de fundamento neste texto do que quando tínhamos de escutar a ladainha sobre a síndrome de hybris.

É interessante que se comece a falar em termos de empatia ou de hostilidade para explicar fenômenos políticos baseados em mecanismos que se fundem na psique de milhões de pessoas e que fazem alavanca sobre a necessidade de desfazer-se do outro a qualquer preço e a localizar no outro uma ameaça. Para conseguir atingir seus objetivos e o fazem, devem quebrar qualquer impulso de empatia em suas audiências. Com seus grandes dispositivos, conseguem circunscrever esse aspecto vital naquelas pessoas que permitem que sejam destruídas suas possibilidades de serem empáticos com os que estão ao seu entorno. A empatia é precisamente a emoção básica que abre uma fenda mundial. A fascinação que Trump desperta em amplos nichos racistas, homofóbicos, patriarcais, violentos, é precisamente a exibição obscena de sua falta de empatia. Não é que seu eleitorado não tenha se dado conta. Votaram nele por conta disso.

Muito além de acreditar, como disse a princípio, que a análise sobre Trump feita por essa carta é um ato de valentia, também é um movimento tardio, além de ser politicamente curto. Por isso dei o exemplo dos mísseis com urânio empobrecido, usados contra civis, que Obama negava, e agora os Estados Unidos confirmam. Porque se formos falar sobre empatia, devemos ir fundo. Tornemos preciso. Empatia é sentida ente amigos, amantes e os membros de uma família. Mas trata-se do fato de que esse substrato emocional de contenção e de aproximação hospitaleira seja o impulso para as relações sociais.

Necessitamos urgentemente de sociedades mais empáticas, e gente que seja capaz de pôr-se não apenas no lugar de alguém que conheça, mas de alguém que sofra distante, no lugar de qualquer pessoa que sofra. A empatia é uma resistência à dor alheia, e um impulso para modifica-la e fazê-la cessar.

Não é somente Trump, esse sintoma estranho, esse grão visível que carece de empatia. Existe um sistema inteiro fracassando. Um sistema capaz de fazer o que seja necessário para manter-se hegemônico. Um sistema complexo, porque nele também sucedem coisas que nos expressam a força contrária, da necessidade imperiosa de empatia que as criaturas humanas necessitam para que a sobrevivência do planeta continue e para que nossas próprias vidas sejam melhores. Dezenas de veteranos de todas as guerras norte-americanas decidiram unir-se como escudo de proteção para os Sioux da Reserva Standing Rock, em Dakota, e defender esse povo dos guardas armados das empresas petrolíferas que já têm o aval favorável de Trump. Alguns desses ex-soldados que combateram no Iraque ou Afeganistão, disseram que esta decisão é uma espécie de “cura”, porque “por fim, há militares estadunidenses que chegam ao território dos Sioux para ajudá-los, e não para atacá-los”.

Hoje há duas vozes que portam os discursos dominantes e em conflito, neste momento crucial da história, porque um rapto enlouquecido poderia acabar com tudo e com todos muito rápido. Uma é a desse emocional inestimável que não suporta que o contradigam, e que quer que os mexicanos paguem sua própria exclusão. A outra é a do papa, que de diversas formas advoga diariamente a favor da empatia, com os refugiados, com os indígenas, com as mulheres, com os pobres, com as vítimas de tráfico, com as pessoas molestadas, com os excluídos. Um discurso expulsa e o outro convida à hospitalidade.

O que fazemos com o outro, que quer negociar, que quer algo do que temos, porque tiraram dele, que fala em um idioma que não entendemos, que tem costumes que não gostamos? Eliminamos ele ou o conhecemos? Mesmo a partir do ponto de vista da segurança, dos sistemas econômicos, do desenho do mundo, o que faremos? Perseguimos ele, bombardeamos ele, espiamos, torturamos, ou tentamos nos abrir para uma associação? Respeitamos a vida ou invadimos o Iêmen ou Iraque? É possível crer que alguém respeita a vida porque é antiaborto, mas apoia políticas de extermínio em países distantes?

Concebemos um mundo para todos ou atiramos na cabeça de quem ponha um pé próximo de nossa propriedade privada? É a pergunta do começo dos tempos.

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