Uma dose de realidade sobre o eixo Bannon-Burke

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15 Fevereiro 2017

Ainda que todos amem uma teoria da conspiração, as reportagens sobre um “eixo do mal” entre o guru ideológico de Trump, Stephen Bannon, e o cardeal americano Raymond Burke podem dar lugar à navalha de Occam. A explicação mais simples pode ser a de que eles estão apenas fazendo o que fazem, sem a necessidade de um conluio.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 13-02-2017. A tradução e de Isaque Gomes Correa.

Todos amam uma teoria da conspiração, e ultimamente a imprensa de língua inglesa ficou atordoada com a especulação de que o guru ideológico de Trump, Stephen Bannon, e o cardeal americano Raymond Burke, visto como o principal crítico tradicionalista do Papa Francisco, formaram um pacto para “legitimar as forças extremistas que querem derrubar a democracia progressista ocidental”, nas palavras de um artigo publicado no Washington Post.

Por estarmos falando simultaneamente sobre uma das figuras mais polarizadoras da política americana e de uma presença igualmente polarizadora da Igreja Católica, um lembrete inicial se faz obrigatório: nada do que vem a seguir pretende ser uma defesa ou uma acusação das opiniões que Bannon e Burke representam. Diferentemente, o objetivo é apresentar uma dose de realidade quanto às relações que se fazem entre ambos.

Cinco pontos parecem merecer destaque.

Em primeiro lugar, até onde sabemos, só houve um encontro face a face entre Bannon e Burke, que ocorreu antes da eleição de Trump e mesmo antes da publicação do documento polêmico do Papa Francisco, Amoris Laetitia. Ou seja, antes que qualquer matéria-prima para uma aliança entre ambos existisse.

Em segundo lugar, não há provas de que Bannon e Burke se tornaram melhores amigos, além de uma sugestão feita por Ben Harnwell, líder de um grupo conservador chamado Dignitatis Humanae Institute, segundo a qual eles têm mantido contato.

Mesmo se os dois venham ocasionalmente trocando emails, em si não há nada de extraordinário. Eu cobri o Vaticano por 20 anos, vendo dezenas de políticos americanos passarem por Roma, todos em busca de estabelecer contatos – seja porque veem o Vaticano como um ator global importante, seja porque acham que poderia haver um ganho político ao serem vistos como possuindo amigos católicos do alto escalão, ou ambas as coisas.

Os políticos americanos tendem a procurar os compatriotas no Vaticano, primeiro porque muitos não falam outros idiomas e, segundo, porque estes são as pessoas sobre as quais eles provavelmente possuem algum conhecimento. Em geral, os políticos primeiramente gravitam em torno dos americanos que, creem, podem compartilhar pelo menos alguns dos pontos de vista consigo, o que faz da aproximação de Bannon a Burke, cuja retórica combativa contra o Islã é bem conhecida, ser completamente natural.

Sob um outro ponto de vista, Bernie Sanders fez a mesma coisa quando veio a Roma, assim como John Kerry, John Bolton, Newt Gingrich, e uma série de outros que assisti em ação.

Em terceiro lugar, não há provas de que Bannon esteja tendo contatos romanos próximos além de Harnwell e Thomas Williams – este último sendo teólogo e um ex-padre legionário de Cristo que escreve para o Breitbart News. (Williams também contribui para o Crux.)

Embora Harnwell e Williams sejam pessoas bem-informadas sobre o que se passa em Roma, ambos provavelmente seriam os primeiros a concordar que não são pesos-pesados no Vaticano em posição que lhes permita ajustar acordos entre a Casa Branca e um conluio de cardeais dissidentes. Com respeito à atual administração vaticana em particular, ambos são definitivamente pessoas distantes.

Em quarto lugar, Bannon e Burke são personalidades diferentes com pautas também diferentes.

Por um lado, a ideia que ocupa as preocupações de Burke neste momento é a de defender a doutrina católica clássica sobre a indissolubilidade do matrimônio, questão trazida à tona em Amoris Laetitia com a sua abertura cautelosa à Comunhão a fiéis divorciados e recasados no civil. Posto que Bannon é divorciado e já se casou três vezes, assim como o seu chefe [Trump], Burke provavelmente não os vê como grandes parceiros naturais.

Em quinto lugar, e talvez este seja o mais importante, independentemente do que queiramos dizer sobre Bannon, ele não é nenhum idiota político. Se o seu objetivo fosse realmente influenciar a direção do papado de Francisco, longe de zonas de conflito potenciais com o seu chefe, certamente teria de saber que Burke dificilmente ocupa um cargo que seja útil.

De fato, se fôssemos compilar uma lista das figuras no cenário romano menos propensas a influir naquilo que o Papa Francisco diz ou faz, Burke seria um grande candidato a figurar no topo.

Havemos de concordar: alguns dos protagonistas desta história parecem estar exagerando a fim de tornar quase irresistível uma teoria conspiratória.

Por exemplo, na segunda-feira Williams usou o seu espaço no Breibart News para escrever uma resposta ao padre jesuíta James Martin, quem havia ido à rede televisiva MSNBC no domingo para comentar sobre as notícias em torno de uma aliança entre Bannon e aquilo que Martin chamou de “tradicionalistas radicais” católicos.

Os leitores poderão assistir ao que Martin disse e, depois, ler a resposta de Williams, julgando os méritos desta troca de ideias por si mesmos. De modo geral, é fácil supor que Williams é igual a Bannon e Bannon é igual a Burke, e que, portanto, devemos concluir que Williams estava executando um papel pensado pelo suposto conluio.

Sob a lei da navalha de Occam, no entanto, a explicação mais simples é diferente.

O que provavelmente esteja ocorrendo é isto: Bannon é um ferrenho conservador cultural, e, desse modo, quando esteve em Roma, procurou pessoas com as quais, suspeitava, poderia fazer amizade. Sem qualquer necessidade de alguma coordenação, nesse ínterim ele continuou perseguindo sua agenda, e os católicos tais como Burke continuaram buscando realizar as suas pautas também.

Em outras palavras, a explicação mais plausível é que as pessoas que figuram nesta narrativa estão apenas fazendo o que fazem desde sempre, e o fato de que a atividade delas às vezes se sobrepõe não deve nos surpreender.

A questão de fundo é: não precisamos de um novo “eixo do mal” para explicar o que está acontecendo, simplesmente um choque costumeiro de ideologias e cosmovisões concorrentes. Talvez isso não faça nos sentir melhor, mas pelo menos tem a virtude de estar mais próximo da realidade.

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