"Eu não poderia acreditar em Deus, sem Cristo." Entrevista com Enzo Bianchi

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15 Fevereiro 2017

E, então, Enzo Bianchi atualizou a carteira de identidade. De “prior” a “prior emérito” de Bose, a comunidade monástica que ele fundou na Serra d’Ivrea, em 1965. Assim, “ruminando”, dia após dia, a Palavra, à luz do Concílio, que terminou no mesmo dia em que ela depositada a primeira pedra da Fraternidade.

A reportagem é de Bruno Quaranta, publicada no jornal La Stampa, 14-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Natural de Monferrato, de Castel Boglione, nascido em 1943, capaz de ser livre até a solidão, como é comum de certa linhagem piemontesa, Enzo Bianchi, aproximando-se dos 75 anos, passa o bastão para Luciano Manicardi, mas não abdica, porque ainda não é a hora do “nunc dimittis servum tuum”, dispondo-se a segurar a batuta de outra forma.

Eis a entrevista.

Uma recordação do dia 8 de dezembro de 1965?

Eu cheguei a Bose com duas moças e dois rapazes que logo desapareceram. No entanto, não me rendi. Uma esperança e uma loucura radicais me escoltavam.

Que leitura bíblica o senhor meditou então?

Eu tive um radiozinho. Escutei o discurso de Paulo VI que selava o Vaticano II.

Os seus papas: Pacelli?

Venerado pelos fiéis. Encontrei-o em 1951, aos oito anos. Eu tinha vencido, na minha diocese, o concurso “Veritas”. Uma figura hierática, me fulgurou.

João XXIII?

O papa do coração. De uma estatura ecumênica extraordinária.

E Paulo VI?

Era exemplar a sua vocação a dialogar com o mundo. A Ecclesiam suam é uma encíclica basilar.

E João Paulo II?

Um confessor da fé. Tinha combatido o comunismo. Concebia a Igreja como uma força militante. A sua maior qualidade? A determinação com que favoreceu o diálogo inter-religioso. Ele quis que eu fizesse parte da delegação encarregada de entregar a Alexis II, patriarca de Moscou, o ícone de Nossa Senhora de Kazan. O seu maior limite? O fechamento na Igreja, impermeável como era à liberdade. Na Igreja, ao invés, a liberdade deve ser uma constante, na forma de debate e até de conflito.

Ratzinger: que pegada deixa?

A inteligência da fé e a paixão pela liturgia como fé celebrada. Por isso, eu quis lhe agradecer também no recente encontro com ele. Certamente, não me esqueço de que ele me nomeou como perito para dois Sínodos dos Bispos: o primeiro sobre a Palavra de Deus e o outro sobre a Nova Evangelização.

Por fim, Francisco.

Com ele, a liberdade se reconciliou com a Igreja. Não esquecendo de Bergoglio a sensibilidade para com os últimos e a tensão ecumênica, artífice de gestos até ontem inconcebíveis.

Nunca correu o risco de desviar a Comunidade de Bose?

Não, eu não escondo as horas difíceis, mas nunca trágicas. Assim como ela é, felizmente, um caso único no curso geral das coisas. De 1965 até hoje, o monaquismo sofreu uma queda de 52%. A cultura dominante vai em uma direção diferente: é individualista, a sociedade líquida é a sua dimensão.

Foi crucial para o senhor o Pe. Pellegrino. Foi iniciado o processo de beatificação do sucessor, Ballastrero. E o cardeal da [carta pastoral] Camminare insieme?

Eu não acho que a sua subida aos altares seja uma questão essencial, estruturada como está hoje a fábrica dos santos. Certamente, Pellegrino mereceria a precedência. Ele foi de uma estatura intelectual absoluta, mestre de Patrística, convidado por toda a parte para ensinar, além de defensor da liberdade, religiosa e de pesquisa.

Uma recordação do Pe. Pellegrino?

Ele me chamava de “doutor Bianchi”. “Doutor Bianchi, desça...”, isto é: venha para Turim. Uma vez com especial urgência. Eu tinha entrado na mira do Santo Ofício por causa de uma conferência em Pádua. Ele quis a gravação e se ocupou pessoalmente de refutar as objeções romanas.

No espaço de meio século, mudou a sua ideia de Deus?

Seguramente. Nos anos da minha formação, Deus se destacava como um juiz, severo. Um rosto que, aos poucos, me pareceria perverso. Jesus Cristo é a única narração de Deus. Eu não conseguiria crer em Deus, sem Cristo.

Na sua relação com Deus, houve um momento dramático?

Era 1985, eu passei por uma grave crise espiritual. Uma longa travessia no escuro. Depois de sair dela, escrevi no meu diário: “Cantarei a Tua misericórdia, mesmo estando no inferno”.

Qual é a tentação do monge?

Quem se aproxima de Deus é mais tentado do que outros, tem um conhecimento do Mal que outros não têm.

Costumou-se entender Enzo Bianchi como um “progressista”. Há também um Enzo Bianchi “conservador”?

Sim. Eu sou fiel, fidelíssimo às virtudes camponesas. O respeito pela palavra dada. A necessidade do esforço e do trabalho. Sou moralmente granítico: em termos de coerência, de culto à legalidade.

O senhor é autor de inúmeros livros. A quais está mais ligado?

Pregare la parola [Rezar a palavra], para começar. Eu o escrevi aos 30 anos. Traduzido em 35 línguas – é um reconhecimento que me honra – ele reintroduziu a lectio divina, a meditação da Palavra, na Igreja.

E depois?

Il pane di ieri [O pão de ontem], uma viagem às minhas raízes, à sabedoria popular, um mandamento acima de tudo: “Faça o seu dever, arrebente-se, mas siga em frente”.

Qual a sua oração?

A oração por excelência dos monges são os Salmos. O meu Salmo é o 71: “Chegada a velhice e os cabelos brancos, ó Deus, não me abandones...”.

O senhor pensa em se mudar para Jerusalém, como Carlo Maria Martini?

Não, vou ficar em Bose. E, de vez em quando, vou visitar as nossas outras comunidades, menores, onde posso me recolher melhor.

Terá mais tempo para os seus hobbies. Qual, em particular?

A horta. Perto da minha ermida, tem um pedaço de terra que eu cultivo pessoalmente. Tomates, pimentões espanhóis, pequenos e não fortes, saladas, cebolas: é deliciosa a soup à l’oignon...

Há uma viagem que gostaria de fazer?

Que eu gostaria de refazer. Ao Marrocos. Eu era jovem, tinha cerca de 20 anos. Lá passei 40 dias inesquecíveis com os tuaregues. Eles me deixaram ficar sozinho comigo mesmo. Nômade entre os nômades.

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