Comparando observações sobre 'The Young Pope': episódios 1 a 4

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17 Fevereiro 2017

Durante as próximas semanas, Matthew Sitman, editor associado da Commonweal, e Dominic Preziosi, editor digital, discutirão a minissérie The Young Pope, da HBO. A seguir, um primeiro diálogo, sobre os episódios 1 a 4, publicado por Commonweal, 27-01-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o comentário.

Bem-vindo, Matt. Preciso dizer que com toda a minha expectativa ao redor de The Young Pope, eu só fui vê-lo uma semana depois e minhas expectativas decaíram. Será que foi a confusão e o custo de conseguir o HBO?

De qualquer forma, independente do quão atraente possa ser a ideia de ter Jude Law como um pontífice chamado Pio XIII; que fuma como uma chaminé, xinga e despreza os muitos fiéis; que tem toda uma atitude arrogante - sobre a qual há muito a ser dito -, ainda estou tentando descobrir a quem isto agrada e onde vai chegar. Sou adepto do clichê de que todos os "programas de qualidade" advêm, bem ou mal, do The Sopranos, e certamente aqui temos algumas de suas inovações, agora já conhecidas: um protagonista patologizado; experiências fora-do-corpo (ataques de pânico de Tony S., estados de transe em fuga de Pio XIII); tramas habituais no trabalho pontuadas por momentos de intriga e hostilidades interpessoais; passagens narrativas inquietantes e confusas que podem ser sonhos ou não. Até agora, o que está faltando é a comida (e ainda em Roma). Nos quatro episódios não vimos Pio comer nenhuma vez; ele pediu uma Coca-Cola Zero de cereja a um assessor (e não apareceu bebendo) e tomou um pouco de suco de laranja natural. Na cena em que ele pede três laranjas, pensei: "É agora!". Mas ele só usou as laranjas para fazer malabarismos e demonstrar alguma outra coisa. O novo papa, como descreveu um outro personagem em uma das melhores falas da série até agora, "é um homem de apetite mínimo. Infelizmente". Ele também não faz malabares mal. Metáfora?

Até agora o que The Young Pope me lembra é House of Cards, uma comparação feita pelo editor convidado da Commonweal Massimo Faggioli. É uma boa notícia para os fãs dessa série, mas e o resto de nós...?

É bom, porém, ver Diane Keaton interpretando Irmã Mary, a freira americana convocada por Pio XIII para ser sua consigliera. Tendo sofrido como paciente de Michael Corleone, esposa leal nos três filmes de O Poderoso Chefão, talvez ela esteja pronta para interpretar uma personagem muito mais próxima do coração pulsante do poder: nenhuma porta fica fechada perante Mary. Não ficou claro (ainda) a que ordem de religiosas ela pertence, mas toda arrumada e coberta, com óculos de armação estreita, ela se coloca como uma figura imponente, mesmo que, nos bastidores, faça mais o estilo mãezona. Ela também fuma. E chama o nosso herói pelo diminutivo de seu nome: "Lenny", diz ela, implorando para que ele compreenda o significado de seu novo papel, "Você é papa agora." Sua fala parece até a de Annie Hall castigando Alvy Singer ("você é como Nova York, você é como uma ilha para si mesmo!"). Ela poderia ter entrado em sua versão mais doce de "Parece que foi ontem", mas "Tinha que ser você" parece mais adequado à relação.

Que é o quê, exatamente? Flashbacks (outro recurso conhecido) nos mostram que ela administrava o orfanato onde os pais egoístas de Lenny o abandonaram. Egoístas, ficamos sabendo, porque eram "hippies", uma palavra usada da mesma maneira que me lembro de amigos quadrados de meus pais usarem na década de 70. De qualquer forma, o orfanato parece o tipo de lugar com croqué e topiárias elaboradas nos fundos e sanduichinhos servidos no terraço. "Não me chame de 'mãe'", diz uma jovem Irmã Mary (não interpretada por Diane Keaton) ao pequeno e triste Lenny (não interpretado por Jude Law): um aviso para ressoar, é claro, no momento orfão (sem Pai?) do louco papado da série. Ouve-se este eco bem no início, quando Pio XIII, recém-instalado, pede que ela nunca mais o chame de Lenny novamente.

Será que é preciso avisar sobre imprecisões e implausibilidades? É uma série focada no personagem, mas muito bem vestida e muito bem filmada. O premiado diretor Paolo Sorrentino faz um ótimo trabalho de composição e iluminação e suas referências a Fellini, Kubrick e Lynch são evidentes. O humor é amplo em geral, mas, às vezes, é bastante estranho e quase surrealista: um grupo de freiras na turbulência de um helicóptero em queda, uma vitrola carregada para a sala papal entrondosa e vagarosamente, com o cabo arrastando atrás. Algo que espero ver mais: o grande James Cromwell, que, no papel de mentor de Lenny e o homem que poderia ter sido papa, foi pouco utilizado nos quatro episódios. Deixei toneladas de coisas de fora: funcionários da Cúria com enfisema pulmonar, riffs de Jimi Hendrix nos créditos de abertura e uma consultora de marketing sensual com muito mais acesso a Lenny do que qualquer funcionário do Vaticano. E mais uma antiga escultura de pedra que é objeto de obsessão erótica de um importante cardeal. O que fazer com essas e outras coisas?

– Dominic

Virei fã nos quatro primeiros episódios de The Young Pope. Estou ansioso pelo resto da temporada. Mas por todas as razões colocadas, Dominic, não sei se posso justificar o meu entusiasmo. É verdade, como você disse, que não tem como saber a quem a série pretende agradar ou onde deve chegar. Não tenho certeza se o protagonista, Lenny Belardo, agora Pio XIII, realmente convence. Com exceção do fato de que ele era um órfão que se tornou um reacionário, ainda estou tentando entender suas motivações, a que ele realmente veio. Seu grande argumento de que o papa é um "homem de apetite mínimo" ressalta isso. O que ele quer? O fato de que ele não parece realmente acreditar em Deus contribui para essa sensação de não saber, bem, no que ele realmente acredita. Isso não é totalmente ruim: a imprevisibilidade e a inclinação de Pio para explosões emocionais e gestos dramáticos significam que há uma imprevisibilidade não desagradável em jogo na série, mesmo que outra tensão dramática - o jovem e impetuoso papa encontra resistência por parte da velha guarda dos burocratas do Vaticano - seja clara o suficiente. Vamos saber mais sobre Pio, tenho certeza. Porém, muitas vezes, o que ainda não sabemos sobre ele parece um mistério menos dramaticamente útil do que uma possível inconsistência.

A série é muito prazerosa de assistir, e isso certamente ajuda a compensar estas incertezas. As cenas em Roma, o visual deslumbrante, a arte religiosa e as regalias e, sim, os riffs do Jimi Hendrix compõem uma experiência audiovisual envolvente. A premissa da série é um pouco ridícula e até eu me acostumar seu apelo estético certamente contribuiu para que eu mantivesse o interesse.

Essa é uma razão por que as comparações com House of Cards, por mais sugestivas que sejam, são certas até por ali. A primeira temporada de House of Cards realmente pareceu para mim bastante convincente, ou pelo menos um exagero crível de uma dupla política sedenta por poder. Somente mais tarde, quando Frank Underwood alcança a presidência, é que a série torna-se realmente ridícula. The Young Pope é absurda desde o início. Os momentos estranhos e surreais - acima de tudo, como você abservou, Dominic, a vitrola barulhenta levada para a sala papal para tocar Senza Un Perché para nada menos que o primeiro-ministro da Groenlândia - só reforçam isso.

Mas o ponto mais importante nas comparações com House of Cards é que The Young Pope é uma série profundamente política, preocupada com a natureza do poder e como ele é utilizado. O post de nosso colega Massimo Faggioli sobre ela aponta alguns pontos em relação a isso, mas não posso deixar de dizer o quanto é impressionante assistir a esta série nos primeiros dias da presidência de Donald Trump. É verdade, como Massimo descreve, que The Young Pope "mostra o que acontece quando o recém-eleito decide romper com os modos tradicionais e a etiqueta de comunicação, abandona a tradição de visibilidade, acessibilidade e adesão às normas anteriores e exerce um poder que parece supremo, único e terrível". Eu iria mais longe: mostra como a personalidade de um indivíduo e seus fantasmas psíquicos influenciam seu exercício de poder, muitas vezes de maneiras assustadoras. Assim como Pio permanece inevitavelmente ferido pelo abandono que sofreu na infância, Trump é um homem profundamente inseguro que tende a atacar impetuosamente inimigos reais e imaginários. Há uma solidão radical que vem com o poder, como Massimo observou, e sustentá-la requer certos recursos próprios e internos que não sei se qualquer um deles possui.

A falta de rumo e os passos em falso dos primeiros dias de pontificado de Pio equiparam-se ao governo de Trump. O mesmo sentimento de esperar para ver o que vai acontecer, temer a próxima decisão desequilibrada, é criado por ambos os líderes erráticos. Mas, certamente, nada ultrapassa o timing perfeito do quarto episódio, em que Irmã Mary dá uma declaração audaz aos jornalistas, que pareciam ignorar as verdadeiras questões e preocupações expressas pelas decisões e pelo comportamento do novo papa. Claro, isso foi ao ar apenas dois dias depois do discurso bizarro de Sean Spicer à imprensa, com mentiras óbvias sobre o número de pessoas na posse de Trump.

Nenhuma discussão sobre The Young Pope e política estaria completa sem mencionar o cardeal Angelo Voiello, secretário de Estado do Vaticano. Talvez ele tenha se tornado o meu personagem favorito, ou pelo menos o que eu acho mais interessante. Até o final do quarto episódio, o foco da série tinha se voltado para ele, dando uma melhor compreensão de quem é Voiello, da sua complexidade e de seu papel na eleição de Belardo para papa. Como o vemos mais atrás de portas fechadas, em vez de envolvido em conspirações e armações, manifestam-se sua real compaixão e suas lutas morais. Seu cuidado com a criança com deficiência com a qual interage é profundamente tocante, sem cair no sentimentalismo. Quando encontramos Voiello pela primeira vez, ele é apresentado como uma grande figura do Vaticano, o poder por trás do trono de Pedro, pelo menos até Pio tornar-se papa. Mas agora sabemos que ele tem real consciência e está lutando com os conflitos e hipocrisias que vêm com o poder. A cena em que ele reconhece, em lágrimas, que terá de ser perdoado pelo que precisa fazer para salvar a igreja foi surpreendentemente poderosa. Ainda não sabemos o que fazer com muitos desses personagens, mas este pareceu genuíno - algo real que descobrimos sobre Voiello.

Se o Papa Pio continua um personagem não exatamente convincente, o mesmo não pode ser dito de Voiello. De todas as razões para continuar assistindo, nenhuma me interessa mais do que ver sua experiência em mais uma história do Vaticano.

Assista ao trailer:

Nota da IHU On-Line: A série pode ser vista clicando aqui.

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