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21 Janeiro 2017

“Filha de uma irrepetível temporada de bem-estar, de conforto, de facilidade, de tédio e de preguiça, a modernidade ocidental tardia rejeita o imponderável, refugiando-se não mais na previsão, mas na pré-mediação.”

A opinião é do escritor italiano Antonio Scurati, professor da Università di Lingue e Comunicazione IULM de Milão, em artigo publicado no jornal La Stampa, 20-01-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O imponderável. Etimologicamente, aquilo que não tem peso ou que tem um peso tão mínimo a ponto de não pode ser pesado, calculado, medido. Como a eventualidade de que o céu caia sobre a sua cabeça, que uma avalanche gigantesca se destaque da montanha para enterrar um hotel em uma minúscula localidade remota no sopé de uma montanha misteriosa.

O imponderável foi aquilo que matou os infelizes trabalhadores e clientes do hotel Rigopiano de Farindola, no coração do Parque Nacional do Gran Sasso, a 1.200 metros de altitude e a uma distância abissal da obtusa confiança na confiabilidade do mundo, da feroz ilusão na eternidade de nós mesmos, com a qual habitualmente levamos a vida.

Sim, porque o imponderável, paradoxalmente, tragicamente, embora não tendo peso aparente e, talvez, justamente por causa disso, é aquilo que normalmente se manifesta aos homens só para esmagá-los sob a sua massa insustentável. Quanto peso têm nas nossas existências atuais as coisas que não podem ser pesadas? Interromper por alguns minutos o curso cansativo e muitas vezes vazio dos nossos dias para meditar, para nos recolher em uma reflexão sobre o sentido último da nossa vida e da nossa morte talvez seja um modo mais digno do que outros para prestar homenagem às vítimas dessa e de outras tragédias.

Reflitamos, então, sobre o significado do imponderável.

No mundo antigo, ele recebeu o nome de “destino”. O decreto divino quanto à existência de todos os homens, estabelecido em um empíreo inacessível ao olhar humano, pronunciado de modo inapelável e irrevogável. O imponderável, assim, coincidia com o próprio perímetro da condição humana, identificava-se com os próprios pilares sobre os quais se sustentava uma ordem cósmica perfeita, mas impiedosa. A tal ponto que, para as antigas civilizações do Ocidente, rebelar-se contra o destino, contra aquilo que é mais próprio da nossa existência e, ao mesmo tempo, que lhe é mais estranho, por ser traçado de fora, pela lei ou pelo capricho de uma vontade alheia, era considerado a máxima culpa do homem. Lutar contra o imponderável era úbrys – prepotência – inclinação a ir além do lugar designado para nós no cosmos. E era sempre fonte de infelicidade e tragédia.

Depois, veio a modernidade e inverteu completamente a mesa. O imponderável talvez seja o ponto em que a modernidade rompe, do modo mais drástico, com as civilizações antigas. A modernidade se torna, aliás, ela mesma, a tentativa de eliminar o imponderável da face da terra e da vida do homem, a tal ponto que se poderia tentar defini-la justamente a partir dessa sua grande e desesperada obra: a modernidade, a era que declara guerra ao imponderável.

O lugar do destino é tomado por Deus, e, depois, o lugar de Deus, pelo homem. O homem, tendo se entronizado no centro da criação, tenta submeter, por todos os séculos da Idade Moderna, a própria vida e o mundo a um programa tão denso de conhecimento minucioso e transformação radical a ponto de erradicar completamente o imponderável. Esta foi a modernidade: o sonho, o delírio de uma campanha de conquista sob a bandeira da previsão e do controle que triunfariam sobre tudo aquilo que foge do nosso cálculo ameaçando a paz, a saúde, a prosperidade das nossas existência.

É até mesmo supérfluo, neste ponto, notar que a modernidade acabou. A ciência ainda progride, a tecnologia avança galopante, mas o projeto moderno de previsão e controle foi abandonado há muito tempo, como demonstra, acima de tudo, a rendição da política. Porém, a rejeição do imponderável não nos abandonou. Ele não assume mais o aspecto orgulhoso, prometeico de uma purificação dos traiçoeiros pântanos da vida, mas sim o mais modesto de uma regressão da vida vivida, de uma progressiva redução das superfícies expostas aos golpes do destino, aos caprichos do acaso.

Filha, talvez, de uma irrepetível temporada de bem-estar, de conforto, de facilidade, de tédio e de preguiça, a modernidade tardia de nós ocidentais, incapazes de pensamento trágico – e, portanto, também de pensar e de fazer guerra contra os inimigos que nos atacam, semeando massacres justamente nos lugares do nosso lazer e do nosso conforto –, rejeita ainda o imponderável, refugiando-se não mais na previsão, mas na pré-mediação.

Não visamos mais pôr em segurança as nossas vidas, vivendo-as nos extremos das suas possibilidades de transformação da realidade, mas, mais modestamente, salvar-nos, confiando-nos às margens de vidas autenticamente vividas. Autoexilamo-nos cada vez mais na placenta morna e anestésica de experiências mediadas, de vidas não vividas, sob o abrigo de consoles, monitores e displays.

E, enquanto isso, o imponderável ainda está lá, à espreita...

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