Adeus às secas com milhões de mortos

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12 Janeiro 2017

A seca que, desde 2012, castiga a região semiárida do Nordeste do Brasil já é mais severa do que a registrada entre 1979 e 1983, a mais prolongada do século 20. Mas agora não causa as tragédias do passado. Não estão ocorrendo as mortes em massa por fome e sede, nem o êxodo de multidões castigadas pela falta de água, que invadiam cidades e saqueavam seus comércios, ou buscavam melhor sorte em terras distantes no centro-sul, região mais desenvolvida do país.

A reportagem é de Mario Osava, publicada por Envolverde/IPS, 10-01-2017.

A falta de chuvas, porém, está presente em tudo. A Caatinga, o bioma exclusivo da região do semiárido brasileiro, parece morta, com exceção de algumas árvores resistentes e áreas onde garoas recentes reverdeceram os arbustos. A represa de Tamboril, nos arredores de Ouricuri, cidade de 68 mil habitantes no oeste do Estado de Pernambuco, está seca há mais de um ano. Felizmente a cidade também conta com a água do rio São Francisco, que fica a 180 quilômetros, por meio de aquedutos.

“A seca em 1982 e 1983 foi pior, não tanto pela escassez de água, mas porque não sabíamos como lidar com a situação”, contou à IPS o camponês Manoel Pereira Barros, de 58 anos e sete filhos, em sua propriedade, o Sítio Santa Fé, a 80 quilômetros de Ouricuri. Justo no momento mais árduo da crise, em 1983, ele se casou. “Foi difícil para toda a família. Matamos alguns bois, sobrevivemos com água de uma cacimba (buraco no leito de um pântano ou outro corpo de água), poucas vacas e muitas cabras. Os animais nos salvaram, a plantação de feijão secou”, recordou.

Naquele ano, os governadores dos nove Estados que compartilham o semiárido brasileiro pediam mais ajuda ao governo federal, argumentando que cem pessoas morriam por dia devido à seca. Nos cinco anos que durou a seca (1979 a 1983), as mortes somaram 100 mil, segundo os governos regionais, mas pesquisadores estimam em pelo menos 700 mil as pessoas que morreram por fome e sede, na maioria crianças.

Um milhão é a estimativa adotada pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), uma rede de mais de três mil organizações sociais criada em 1999 para impulsionar as transformações que estão melhorando a vida da população mais afetada pela seca, os camponeses pobres do Nordeste do país. Disseminar cisternas para captar e armazenar água de chuva para beber e cozinhar foi sua primeira meta.

Além de garantir água potável para neutralizar a estiagem anual, que dura oito meses em tempos normais, essa iniciativa é a alavanca de um novo enfoque para o desenvolvimento do semiárido, onde vivem mais de 23 milhões dos 208 milhões de brasileiros. Um milhão de cisternas já foram construídas, cerca de um terço por iniciativa da ASA, que distribuiu unidades familiares de 16 mil litros feitas com placas de concreto e implantadas com participação dos beneficiados, que também recebem aulas de cidadania e de gestão de recursos hídricos.

Conviver com o clima local, superando as fracassadas políticas de “combate à seca”, é o lema do movimento, que, por isso, incentiva o conhecimento do ecossistema, aproveitando o saber tradicional dos camponeses e promovendo intenso intercâmbio de experiências entre comunidades rurais. Educação contextualizada, que prioriza a realidade local, práticas agroecológicas e o princípio da armazenagem de tudo – seja água, incluída aquela para plantar e dar aos animais, forragem para o período seco, e sementes crioulas (tradicionais) adaptadas ao solo e clima locais – são outros itens da convivência com o semiárido.

Essas tecnologias, proporcionadas pelo Centro de Assessoria e Apoio aos Trabalhadores e Instituições Não Governamentais Alternativas (Caatinga) membro da ASA, não existiam nas secas anteriores e hoje fazem a diferença, reconheceu Barros. A elas se soma o Bolsa Família, a aposentadoria rural e programas sociais do governo para garantir uma sobrevivência razoável dos camponeses, inclusive quando não chove.

Barros optou por deixar sua terra em 1993, ao final de outra seca de dois anos, para buscar emprego em monoculturas irrigadas de uva e manga, no município de Petrolina, 200 quilômetros ao sul de Ouricuri, nas margens do rio São Francisco. “Foram 15 anos longe da família, trabalhando com venenos agrícolas, por isso pareço mais velho do que sou”, brincou. “Aqui só como alimentos orgânicos”, acrescentou.

Esse camponês “sonhava ter uma cisterna que não existia, agora tenho três, uma delas ainda com água das chuvas de janeiro de 2016. Usada apenas para beber, dura mais de um ano para cinco pessoas. A economia é rigorosa, antes desperdiçávamos muita água”, destacou Barros. Além das cisternas, a comunidade de 14 famílias conta com um poço artesanal, cavado entre pedras há 70 anos, para armazenar água que desce de uma área mais acima. Ainda não secou, mas está muito suja. “Precisa de uma limpeza”, afirmou Clarinda Alves, de 64 anos, vizinha de Barros.

O bioágua, um sistema de filtros que permite reutilizar o esgoto doméstico na irrigação de hortas e pomares, é outro recurso que se espalha entre camponeses do semiárido. Apesar de todo esse arsenal hídrico, mais a água distribuída pelo exército em caminhões-tanque que se multiplicaram pelo Nordeste, Barros decidiu suspender a produção da horta, que muitos camponeses conseguem manter em suas terras. Ele apostou em priorizar a água para consumo humano e animal.

A ASA considera que ainda há muito a ser feito na questão hídrica. Para a meta de universalizar as “duas águas” faltam 350 mil cisternas para água de beber e 800 mil destinadas à produção. São necessárias “cinco águas”, segundo André Rocha, coordenador de Clima e Água do não governamental Instituto Regional da Pequena Agricultura Apropriada, também membro da ASA, com sede em Juazeiro, na Bahia.

O uso doméstico exige duas águas, uma para beber e cozinhar e outra para higiene, assim a água produtiva seria a terceira. A quarta é de emergência ou reserva, “como um banco de sangue”, e a “quinta destina-se ao ambiente, para recuperação de nascentes, recarga do lençol freático e para manter os rios perenes”, explicou Rocha em seu escritório.

“Construir a convivência com o semiárido”, como quer a ASA, enfrenta uma ameaça política. Será difícil manter a armazenagem de água de chuva e o fortalecimento da pequena agricultura como políticas públicas, após a virada conservadora do governo brasileiro, com a queda do PT. Também exige uma batalha ideológica permanente e, em consequência, um esforço de comunicação, porque combater as secas, em lugar de se adaptar e conviver com elas, permanece como a estratégia para o semiárido nas mentes oficiais e econômicas do país.

Grandes projetos hídricos – como a transposição do rio São Francisco para fornecer água a outros rios e represas do Nordeste –, além da irrigação de monoculturas do agronegócio e da agricultura em grande escala destinada principalmente à exportação, avançam em detrimento da agricultura familiar. Elevados investimentos e créditos oficiais são dedicados ao agronegócio, apesar dos fracassos anteriores e da corrupção, enquanto minguam recursos para as ações da ASA, de êxito comprovado na superação dos efeitos da seca. 

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