Itália. Assim, os jesuítas perderam o Referendo

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15 Dezembro 2016

Também os jesuítas perderam o Referendo. Ou pelo menos suas duas revistas de prestígio: Civiltà Cattolica (publicada em Roma), e Aggiornamenti sociali, de Milão. Explicitando na véspera seu apoio ao Sim, foram varridas pela avalanche de Não, junto com todo o establishment econômico e político aliados a Renzi.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 12-12-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

A Civiltà Cattolica, de fato, em 2014, havia se posicionado duramente com relação à abordagem superficial de Renzi. Embora de acordo com o fim do Bicameralismo perfeito, a revista dos jesuítas previa o risco do Senado tornar-se um "clube recreativo de administradores locais", denunciava a insuficiência de pesos e contrapesos no futuro sistema, definia de "slogan" a história do "custo zero" e apoiava a eleição direta dos senadores.

Dois anos depois desta tomada de posição, perdeu-se pelo caminho. Em maio passado, a revista publicou uma análise articulada sobre a reforma, não negando várias preocupações, mas, no final, inclinando-se a um juízo político de apoio. Escrevia o Padre Francesco Occhetto que uma "cultura moderna de "manutenção constitucional "... não sacraliza todas as soluções adotadas e pode ainda consentir, em caso do desejável sucesso do Referendo, sucessivas modificações de aprimoramento que leve em conta as críticas mais motivadas". Em síntese: #bastaunSì.

Em novembro, perto da votação, os jesuítas milaneses da Aggiornamenti sociali tomavam a mesma direção. Com ainda mais convicção: "Aprovar a reforma, apesar das limitações, parece o passo a ser dado no momento, porque pode melhor acompanhar e sustentar o que até agora apareceu na sociedade civil."

É útil voltar a tais declarações. O Referendo revelou, de fato, um mundo católico quebrado, disperso em muitas correntes de motivação para o Sim e para o Não. Personalidades e mentalidades, até ontem convergentes ou próximas, saltaram para lados opostos. Democratas católicos como Parisi, para o Sim, e Pasquino para o Não. Europeístas como Monti, para o Não e Prodi, para o Sim. ACLI e CISL, para o Sim, ex-presidentes do Tribunal Constitucional, para o Não. Um caso especial (por vingança pessoal contra Renzi) foi o Não do movimento anti-união gay de Massimo Gandolfini.

Mas o que contou - além das siglas e personalidades individuais - foi a avalanche de Não dos jornais católicos: o povo das paróquias, nos subúrbios do Norte e na desolação do Sul. Para não mencionar os jovens italianos de todas as crenças e filosofias, apoiantes decididos e raivosos do Não para uma reforma em ruínas e um governo boquirroto.

Em relação a este mundo real, concreto, essencialmente pós-partido - em que católicos e não católicos misturam-se numa existência marcada pelo aumento da pobreza, insegurança e desigualdade crescente - as antenas dos jesuítas estranhamente não funcionaram. No final, seu apoio para a reforma renziana foi influenciado por razões de aparente alta política, desconectada da realidade magmática das massas populares e classe média empobrecida e assustada: uma realidade profundamente desiludida com o primeiro-ministro das inexatidões.

A ACLI pró-Sim deveria refletir se era sensato aceitar que a sua proposta de " contrato com tutelas crescentes" acabasse em um Jobs Act deformado na liberdade para cassar o empregado, num contexto geral caracterizado pelo triunfo do precariado e dos voucher. Igual reflexão deveria fazer a CISL, muitas vezes orgulhosa de marchar separada da CGIL, como se a modernidade consistisse na redução das conquistas penosamente alcançadas.

Foram as escolhas políticas imediatas de Renzi que indicaram claramente sua perspectiva. Um premier, caracterizado imediatamente pelo bloqueio da taxa-Google, vangloriando-se, dificilmente poderia e poderá dedicar-se à superação das desigualdades e à construção de um novo estatuto social.

Permanece o fato da liquefação política do mundo católico. Cada molécula segue seu próprio caminho. Cada associação flutua seguindo seu curso. Convergências forçadas ou teorizadas na mesa já falharam no passado. Hoje, este mundo variegado parece uma encruzilhada. Ou continuam na fragmentação, dispersando um patrimônio histórico-social de importância inquestionável, ou os católicos socialmente organizados encontrarão a capacidade de confrontar-se efetivamente com o pensamento social da Igreja, que exatamente na atual crise econômica internacional, em pleno andamento, entra nos problemas mais agudos: desigualdade, pobreza, novas formas de escravidão.

Paradoxalmente, com relação com a afasia da esquerda e das forças liberal-democráticas nos confrontos das catástrofes causadas pelo darwinismo neoliberal, a doutrina social de João Paulo II, do próprio Ratzinger em sua encíclica Caritas in veritate e, especialmente, do Papa Bergoglio têm muito a dizer. De espessura completamente laica, além das motivações religiosas.

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