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03 Dezembro 2016

"O sistema político funciona na base do lobby e da concentração de poder econômico contaminando o ambiente parlamentar. Por isso o moralismo anticorrupção é hipócrita. O que tem que fazer é uma reforma politica para neutralizar ou diminuir a corrupção estruturante do sistema", escreve Ivana Bentes, professora e pesquisadora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ensaísta, curadora e atuante na área de comunicação e cultura, ex-diretora da Escola de Comunicação da UFRJ de 2006 a 2013 e Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural no Ministério da Cultura, de 2015 a 2016, em artigo publicado por revista Cult, novembro de 2016.

Eis o artigo.

Mas então era para isso que os corruptos de colarinho branco se arriscaram tanto? A pergunta ecoa diante da imagem de um vaso sanitário polonês encontrado na casa do ex-governador Sérgio Cabral, preso em Bangu, que fornece água em três temperaturas e cujo assento também pode ser aquecido. Luxo demais para necessidades literalmente tão básicas!

As imagens do vaso sanitário high tech produziram revolta e comentários cômicos nos portais e redes e vem se juntar a outros signos de status, estilo e ambições dos ricos, novos ricos e aspirantes ao “clube” social brasileiro – um “quem é quem” contemporâneo que vem migrando da coluna social para as páginas político-policiais.

A pergunta não comporta uma resposta reducionista e nem ingênua. Mas o que está em jogo vai do estilo de vida do “corrupto ostentação” até a névoa que cobre a corrupção estruturante da própria democracia no seu atual estágio, onde o que está em jogo na mídia é sempre “a corrupção dos outros”, dos inimigos políticos, e não o modus operandi e estrutural da corrupção.

Brotam nessas crônicas midiáticas sobre a corrupção toda uma “literatura” descritiva e uma sociologia a quente, em um país de extrema desigualdade, em que a riqueza sempre foi vista, de forma popular como bênção dos deuses ou “merecimento. Só muito recentemente podemos ver a melhoria de vida de um contingente por redistribuição de renda, programas sociais e educação, contrastando com o acúmulo de riquezas “do berço”, vistas hoje com suspeição, apropriação indevida do bem comum, rapina de poucos da riqueza dos muitos.

Uma justa revolta diante da “corrupção ostentação” que a mídia sabe explorar de forma folhetinesca, sempre “fulanizando” ao invés de mostrar sua cara e forma estruturante.

Foram inúmeras as matérias sobre a joia de preço estratosférico dada por Sérgio Cabral a esposa como presente de aniversário: um anel de 800 mil reais pago pelo empresário Fernando Cavendish em troca de benefícios para sua empreiteira. Negócio desfeito, o anel milionário foi devolvido por Cabral, em um conto político-corporativo em que a “troca de favores” terminou em delação e prisão.

Esses contos pouco edificantes, com traições e delações premiadas (Cavendish faz o relato da sua prisão domiciliar), trazem também as grifes, valores e detalhes de uma relação que já suspeitávamos de absoluta intimidade e não separação entre os negócios públicos e a vida privada e o gosto das nossas elites, que formam um único e só sistema.

Crédito ou débito? Eis a questão!

O dinheiro público, financiando uma rotina de luxos, espanta também pela “pobreza” de imaginário. Cartão de crédito, espelho meu, diz-me o que compram os muito mais ricos do que eu!

E o que revelam os registros dos gastos nos cartões de créditos de Cláudia Criz, mulher de Eduardo Cunha são 7,7 mil euros na loja da Chanel, em Paris, de US$ 4,4 mil na Prada, em Roma, de US$ 2,2 mil na Victoria’s Secret, de Miami. O consumo de luxo como forma de “distinção” aumentando o capital social e as relações sociais: casamentos, amizades, alianças entre pares que circulam e se concentram no “clube”.

Os “bens de luxo” que pululam nas operações anticorrupção revelam ainda a forma como uma parcela dos ricos e novos ricos brasileiros tentam comprar “capital cultural” e social por meio do consumo de joias, vinhos, roupas, viagens, uma finesse prêt-à-porter com episódio de “mau gosto”, “cafonice”, exageros, na sua lógica.

É que os que roubam milhões utilizam parte do seu tempo para comprar capital cultural, bens, e experiências de distinção para as quais lhes faltam tempo para se dedicar e mesmo para usufruir o resultado do butim.

O luxo serve a dois fins pelo menos: de lavagem cultural/comportamental e a rapina do comum. As propinas recebidas por Eduardo Cunha seguiam esses dois caminhos de lavagem de dinheiro, segundo investigadores da Lava Jato: “ocultação em contas no exterior em nome da mulher Cláudia Cruz” ou “a conversão do dinheiro público em bens de luxo”, o “dinheiro público foi convertido em sapatos e roupas de grifes”.

Mas os novos ricos buscam algo para além das mercadorias de luxo e adentram o consumo cultural em busca da distinção. Afinal não se pode ser confundido com um rico deseducado e bronco! O espólio do ex-governador Sérgio Cabral revela seus arroubos de canonização pela “arte” com dois retratos do polêmico Romero Brito, cultuado pintor brasileiro de sucesso em Miami, uma espécie de Paulo Coelho das artes plásticas que pinta as celebridades do mundo com seu estilo “inconfundível”.

Mimetizando o retratismo das cortes, vemos nos quadros um Sérgio Cabral pintado de forma multicolorida por Romero Brito, com uma bandeira do Brasil em forma de coração no rosto! Enquanto sua mulher, Adriana Ancelmo, é retratada com cabelo lilás e uma boca vermelha sorridente. Para cada grupo social, um retratista oficial ao gosto de cada “corte”.

Eu vendo a vista!

Joias, viagens, retratismo e, fundamental, o lugar e endereço onde se mora. No mais recente escândalo da República de Temer vimos o ex-ministro Geddel Vieira perseguindo o sonho da “Minha cobertura, minha vida” em um empreendimento de luxo na orla de Salvador. Mesmo que para isso tivesse que passar por cima do embargo da obra do edifício de 24 andares pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional) do Ministério da Cultura.

O EdifícioLa Vue”, como vários outros com nome em francês ou inglês, não deixam dúvida do desejo de nobreza e exclusividade (depois que um publicitário criou o “Santander Van Gogh” tudo é possível!). O empreendimento se apresenta como esse “sonho do alto” que aparta o morador das coberturas de luxo do cidadão comum: “cobertura com piscina e elevador privativo, deck molhado, quadra, espaço gourmet, fitness com vista para o mar, spa, salas de massagem, sauna e jogos, brinquedoteca, bar”. Uma infinidade de signos de um estilo de vida vendido pelas imobiliárias para os que desejam se distinguir.

Um dos filmes mais significativos sobre esse imaginário apartado das coberturas se chama “Um Lugar ao Sol”, de Gabriel Mascaro, de 2010. Um documentário sobre os proprietários e moradores de coberturas no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo que falam sobre essa necessidade de “não ouvir o barulho das panelas que vem da cozinha”, da satisfação de “olhar de cima”, esse sentir se bem se vendo como privilegiado e “a parte”. A busca a todo custo por uma marca de distinção.

O caso Geddel, e sua tentativa de colocar os interesses pessoais acima do interesse público, produziu um escândalo que derrubou o próprio Geddel, o ex- Ministro da Cultura Marcelo Calero e ameaça o presidente usurpador Michel Temer. A operação, com pressão direta, telefonemas, conchavos, para liberar a obra embargada explicitam o objetivo das elites do dinheiro e da política, de se apropriarem do Estado para fins pessoais ou de seus grupos e como consideram “ninharia”, corriqueiro e natural esse comportamento predador.

Não se trata de uma “pequena corrupção”. Toda a orla brasileira está sob ataque de políticos e empreiteiras que tentam burlar pedidos de tombamento pelos órgãos de defesa do patrimônio histórico e imaterial. O Cais Estelita, no Recife, também aguarda posicionamento do IPHAN em defesa do patrimônio e da cidade e de seus habitantes ou beneficiando o empreendimento do “Novo Recife”. Um caso que produziu uma hiper mobilização de movimentos sociais e culturais, contra a especulação imobiliária e formas de resistência de novo tipo, atos, filmes, vídeos.

“Vendo a Vista” poderia ser um anúncio dos empreendimentos que vendem a paisagem brasileira, vendem commons, bens comuns, passando por cima do interesse público e privatizando o Estado se for preciso. São as mesmas empreiteiras que financiam as campanhas políticas.

Fato é que essa elite econômica e os novos ricos não possuem um projeto de sociedade para além da rapina de curto prazo, amealhar bens e riquezas, partilhar um estilo de vida que se diferencia da “ralé” e da classe média por pequenos e grandes privilégios. Esse imaginário de poder está tão arraigado na cultura que esse desejo de distinção, nobreza faz parte de toda uma pedagogia de classes sociais que atinge da elite endinheirada a classe média e as classes trabalhadoras que ascenderam socialmente.

Os pobre-stars

Durante décadas as novelas, o noticiário sobre o fabuloso Eike Batista e sua princesa de coleira (a atriz Luma de Oliveira), ou agora o casal Michel Temer e a primeira dama “bela, recatada e do lar”, Marcela Temer, foram apresentados como donos de estilos de vida “invejáveis”, casais paradigmáticos, de modos de ser e estar de uma elite do dinheiro. Até que caiam em desgraça, o que é cada vez mais comum.

A revista Caras (com seus ensaios fotográficos em castelos e ilhas, chamando filhos de “herdeiros” e namorados de “eleitos”) ensinaram o que é ser “de elite” no Brasil das jacuzzis, dos carros importados e mil marcas e logos. Ensinaram como essa elite estava em um outro lugar, patamar e classe, inatingível. E que era melhor aos pobres “porem-se no seu devido lugar” e aceitarem sua dominação econômica e cultural.

Mas essa pedagogia só deu certo parcialmente. Os pobres, ex-pobres, a classe média, a classe C resolveram (do seu modo) “agregar valor ao camarote”, as suas existências, ao puxadinho, a laje, etc. O funk ostentação foi uma uma das formas de expressões do que as elites chamam de “ideias fora do lugar” (como o rolezinho e outras manifestações dos nossos “pobres stars” que embaralharam os códigos.

As culturas das periferias produziram o seu imaginário ostentação, hoje em baixa com a crise econômica, mas fruto de um trabalhador e de uma “ralé” que se viu com a possibilidade de mobilidade social. Sonhar, ostentar! Os clipes e vídeos do funk trouxeram signos de uma fartura e excesso que mesmo imaginária (castelos e paisagens nevadas! Grana para o alto), produziram um deslocamento e curtição em cima do imaginário dos “ricos”, que incomodou profundamente.

Pois a ostentação dos jovens, dos pobres, das popozudas, explicita não apenas o desejo de entrar no mundo normatizado do consumo, mas o que é realmente imperdoável, explodiu o lugar de “distinção”, racista e classista, e o lugar que lhes foi destinado pelas elites.

Essa foi uma forma de “politizar” a cultura do consumo. Os pobres que ascenderam socialmente no Brasil nas últimas décadas afirmaram um novo imaginário: o afropunk, o orgulho da favela, as mil modas e colorações do cabelo, linguagens, música próprias, uma cultura de resistência, novos movimentos urbanos, para além de terem incorporado o ideário das elites e da direita.

A questão é que vimos, com a crise econômica, com os erros políticos da esquerda no governo, com a redução das conquistas sociais ao consumo, com o golpe jurídico-midiático, se forjar um consenso sobre a “corrupção dos outros”, com o crescimento de uma gigantesca base social de classe média ressentida com a ascensão social dos pobres “fora de lugar”.

Democracia em tensão

A classe média brasileira abraçou o discurso da mídia da “corrupção dos outros”, a corrupção seletiva dos inimigos e se se emponderou de forma histérica com esse neo-moralismo seletivo. A corrupção não é o desvio das regras das instituições, mas seu modo de funcionamento. O sistema representativo atual é corrupto (e os partidos atuam dentro dele e o atravessam).

Como retomar o debate da corrupção pelas esquerdas? De forma estruturante? Impossível acabar com a corrupção sem acabar definitivamente com o financiamento empresarial das campanhas políticas ou anistiando o “caixa dois” Não será um golpe, ou um passe de mágica narrativa que vai livrar o sistema político e corporativo, o sistema midiático, as estruturas religiosas do ônus da privatização e predação do Estado. Será um processo.

A fulanização da corrupção tira o foco do sistema. O obscurantismo no Brasil tem nome e sobrenome: a bancada ruralista, a bancada fundamentalista, o lobby das empresas de comunicação e do agronegócio e outras forças arcaicas de especulação contra a vida e contra as liberdades.

É com base no lobby e no poder econômico das corporações e igrejas que se corrompe o ambiente parlamentar que se sacrifica e destrói o meio ambiente, as culturas, territórios e cosmovisão indígenas, se mata a juventude negra, se atenta contra a saúde da população, contra direitos e liberdades.

O sistema político funciona na base do lobby e da concentração de poder econômico contaminando o ambiente parlamentar. Por isso o moralismo anticorrupção é hipócrita. O que tem que fazer é uma reforma politica para neutralizar ou diminuir a corrupção estruturante do sistema.

Jessé Souza chama atenção para o rentismo e os juros altos como uma das maiores formas de concentração e expropriação de renda e riqueza consentidas, junto com a evasão de recursos para o exterior. Operações de corrupção legalizadas que não produzem escândalo e nem manchetes na mídia.

Isso é como o sistema funciona, o sistema politico e econômico atual é corrupto na sua lógica de funcionamento. Por isso tem que ter reforma política e formação política constante.

O crime no Brasil que foi punido com o golpe não foi contra a corrupção foi contra a entrada dos pobres no jogo democrático, como força politica, através dos programas sociais e entrada nas universidades.

Isso as elites não vão perdoar tão cedo! O golpe jurídico midiático foi dado contra essa mobilidade subjetiva para recolocar em seu lugar as forças retrógradas e conservadoras. Os retrocessos hoje em curso não são o erro de um partido simplesmente e muito menos de um governo. São um processo de restauração de uma elite.

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