Trump e a miopia dos bispos dos EUA. Artigo de Massimo Faggioli

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24 Novembro 2016

A busca por um ralliement entre os bispos e Trump não considera a torção a que é submetida a eclesiologia católica: Trump interpreta em sentido étnico-racial um certo sectarismo típico do neoconservadorismo católico estadunidense contemporâneo.”

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado no sítio Settimana News, 22-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Trump foi eleito como 45º presidente dos Estados Unidos, contra todas as previsões. Abre-se uma nova inédita e perigosa era para a democracia nos Estados Unidos e, especialmente, para as Igrejas estadunidenses que ainda pretendem ser a alma dessa nação.

Um país profundamente moralista como os Estados Unidos elegeu alguém como Trump, que se gloria da sua imoralidade não só sobre as questões sexuais, mas também fiscais e da ética do business, que – ao menos na aparência – a moralidade ainda é importante nos Estados Unidos.

É uma eleição presidencial que desmascara algumas hipocrisias da cultura estadunidense e revela a crise tanto da cultura progressista e secularizada, quanto da conservadora e religiosa, ambas obcecadas com a questão identitária.

São três os fatores principais. Trump foi eleito pelo desconforto econômico e social dos esquecidos pela globalização, por protesto contra um sistema econômico e financeiro do qual os Clintons fazem parte não menos do que Trump, mas do qual os Clintons foram culpabilizados por serem políticos profissionais.

Há, depois, um protesto dos Estados Unidos profundos contra os Estados Unidos das elites culturais e secularizadas e do sistema dos mass media do establishment.

Por fim, há uma parte de ressentimento contra o primeiro presidente afro-americano, Obama, que faz parte daquela elite econômica e intelectual, mas também é o rosto dos Estados Unidos futuros, e, que os brancos em breve serão uma minoria entre as minorias.

A campanha de Trump explorou também o ressentimento racial daquela América profunda que nunca aceitou Obama como legítimo presidente. A América religiosa não coincide com aquela América profunda e reacionária, mas faz parte dela.

Abre-se um problema

A eleição de Trump abre um problema particular para a Igreja Católica estadunidense: diante da sua história, como Igreja “importada” pelos imigrantes em tempos mais recentes em comparação com os fundadores; diante da sua dimensão global, com um papa como Francisco que representa a alternativa ao sistema global que uma boa parte dos bispos estadunidenses não quis escolher, preferindo Trump.

O episcopado estadunidense tinha muito mais medo de uma presidência Clinton do que de Trump, colocou-se contra a parte econômica e politicamente fraca da própria Igreja, e renunciou a elaborar uma palavra alta diante das mensagens mais violentas da campanha eleitoral de Trump, que durou quase um ano e meio.

Muitos bispos esperavam há muito tempo por uma vitória de Trump, temendo, não sem alguma razão, uma radicalização das políticas abortistas de Clinton (uma radicalização que revelou a miopia política dos Clintons e é um dos elementos da derrota), e não considerando que, durante os governos dos republicanos ideologicamente pro-life, o número dos abortos aumenta, por causa dos cortes no Estado social.

Havia medo por parte de muitos bispos, clero e intelectuais católicos de denunciar a retórica de Trump do mesmo modo como foi denunciada a cultura abortista da “identity politics” do Partido Democrata. Tratou-se de um erro de porte histórico, que a Igreja estadunidense vai pagar politicamente, mas também espiritualmente. Os primeiros a pagar serão os pobres nos Estados Unidos, mais do que com um governo Clinton.

Que diálogo e sobre quais questões?

A semana seguinte à eleição de Trump viu a assembleia anual da Conferência Episcopal, que elegeu a nova cúpula para o próximo triênio: ela elegeu o novo presidente no cardeal DiNardo (um dos signatários da carta dos 13 cardeais contra Francisco durante Sínodo de outubro de 2015) e o vice-presidente (e, portanto, segundo a tradição, provavelmente presidente no triênio de 2019-2022) no arcebispo de Los Angeles, Gomez, o bispo mais visível da população católica dos latinos nos Estados Unidos, apresentando-a como uma resposta à eleição de Trump.

A escolha de Gomez não absolve os bispos estadunidenses da sua aquiescência em relação a Trump. O fato de os católicos latinos nos Estados Unidos terem boas relações com os latino-americanos da América Latina é um mito. São mundos diferentes, assim como já são mundos diferentes a Igreja de Francisco e o episcopado estadunidense: as nomeações episcopais de Francisco incidem sobre as Igrejas locais, mas não (ao menos por enquanto) na conferência episcopal.

Os bispos terão de dialogar com Trump, mas Trump vai tentar contentar os bispos em uma série muito limitada de questões. Toda a cultura social e política da Igreja institucional nos Estados Unidos sai prejudicada por essas eleições, pela sua manifesta incapacidade de captar o que estava acontecendo no país.

As primeiras nomeações de Trump, anunciadas nos primeiros 10 dias depois da eleição, mantêm o que ele havia ameaçado: o nacionalismo “white supremacy” entra na Casa Branca, diante daqueles que ainda se obstinam em ler o resultado das urnas em termos materialistas de desconforto econômico.

A torção que Trump vai impor

A Igreja Católica estadunidense é dividida, como ou mais do que outras Igrejas, entre identidades culturais, políticas e étnicas diversas, e, portanto, as reações são diferentes diferente. A campanha de Trump capitalizou sobre essas divisões, aproveitando-se da identidade branca e conservadora, usando de modo instrumental a questão do aborto para atrair o voto católico.

Assim como no restante dos Estados Unidos, também na Igreja católica, democratas e republicanos vivem mundos diferentes, a partir de um ponto de vista existencial e intelectual. Há um catolicismo em estado de choque: os Estados Unidos são um país que é percebido como entidade espiritual, e a eleição de Trump é percebida como um sinal de grave crise espiritual.

Há quem possa se permitir em ver essa transição de poder como uma das tantas na história estadunidense, mas não o é. Especialmente para aqueles que não têm a pele branca, é um momento de surpresa e de medo.

O medo é evidente especialmente entre os latinos, os árabes e os muçulmanos, os asiáticos, as minorias sexuais. A questão não é ter ou não ter nada a temer perante a lei: é o temor do racismo de algumas alas da sociedade estadunidense, que sempre fizeram parte da sociedade estadunidense, mas que, há cerca de 50 anos, eram mantidas às margens da vida política, embora gozando muitas vezes da proteção da polícia e do poder judiciário. Agora, com Trump, elas se sentem relegitimadas a repropor, com uma linguagem violenta, o seu projeto de um Estados Unidos etnicamente puro.

A presidência dos Estados Unidos tem uma função simbólica evidente também do ponto de vista religioso: a presidência tem uma função pontifex. Com a presidência de Trump, o excepcionalismo estadunidense morre. A eclesiologia política dos Estados Unidos é inclusiva: Obama a encarnava, Trump a renega.

A busca por um ralliement entre os bispos e Trump não considera a torção a que é submetida a eclesiologia católica: Trump interpreta em sentido étnico-racial um certo sectarismo típico do neoconservadorismo católico estadunidense contemporâneo.

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