Protagonismo juvenil é pacífico e questiona políticas impostas de cima para baixo. Entrevista especial com Maria Stela Graciani

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Por: Patricia Fachin | 18 Novembro 2016

“Esse movimento que está havendo agora, de ocupação de muitas escolas, é um desdobramento do que aconteceu em São Paulo. Não analisei ainda a amplitude dessa ação, que tem um protagonismo juvenil muito avançado. Mas, pelo que pude perceber, trata-se de uma ação pacífica, amorosa, respeitosa, e não de uma ‘luta com pedradas’. Ao contrário, eles mostram que a qualidade da escola precisa melhorar para que possam se empoderar de outras concepções, seja da geografia, da literatura ou da história”, diz Maria Stela Graciani à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone.

A professora da PUCSP, juntamente com outros professores da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da USP, acompanhou a ocupação de aproximadamente 200 escolas paulistas no ano passado, quando o governo Alckmin propôs fechar mais de 90 escolas estaduais. Segundo ela, à época “os alunos não aceitavam que pudessem ser transferidos para um local distante das suas residências, e os pais dos estudantes endossavam essa mesma proposta. Eles argumentavam que, caso os filhos fossem transferidos para outras escolas, eles iriam precisar de conduções, e isso implicaria uma oneração da vida familiar. Ou seja, a vida das famílias seria alterada por conta de uma ordem vinda de cima e não consultada. Além disso, não se sabia, inclusive, para onde as crianças seriam transferidas”.

Na entrevista a seguir, Maria Stela Graciani comenta a proposta de reforma do currículo do Ensino Médio e frisa que a “reformulação do currículo deveria ser feita a partir de uma discussão ampla com a sociedade, com as universidades e as Secretarias de Educação”.


Maria Stela Graciani, no IHU | Foto: Cristina Guerini 

Maria Stela Graciani é graduada em Pedagogia e mestra em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP, e doutora em Educação pela Universidade de São Paulo – USP. Coordena os Cursos de Pós-Graduação Lato Senso de Formação em Políticas de Gestão e Segurança Pública, Pedagogia e do Núcleo de Trabalhos Comunitários, na PUCSP, onde também leciona. A professora esteve presente no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, na noite de ontem, 17-11-2016, ministrando a palestra As ocupações estudantis e a reinvenção do espaço público e político.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que consistiu o estudo que a senhora coordenou, de acompanhar 200 escolas que foram ocupadas em São Paulo, no ano passado, quando o governo do estado propôs fechar mais de 90 escolas na cidade?

Maria Stela Graciani – O processo de ocupação das escolas foi uma proposta do movimento dos alunos, de centros escolares e de professores que ficaram indignados com a possibilidade de transferência dos alunos para outros bairros, longe de onde eles sempre viveram e longe da escola. O segundo ponto que motivou as ocupações foi o fato de o governo ter imposto uma política sem diálogo com as famílias, com os alunos, com os professores e os diretores das escolas. Enfim, o governo assumiu uma linha de decisão de cima para baixo e isso causou um mal-estar em todos que fazem parte da escola. Foi por conta disso que começou o grande conclave de todos discutirem essa questão.

Os alunos não aceitavam que pudessem ser transferidos para um local distante das suas residências, e os pais dos estudantes endossavam essa mesma proposta. Eles argumentavam que caso os filhos fossem transferidos para outras escolas, eles iriam precisar de conduções, e isso implicaria uma oneração da vida familiar. Ou seja, a vida das famílias seria alterada por conta de uma ordem vinda de cima e não consultada. Além disso, não se sabia, inclusive, para onde as crianças seriam transferidas. Quem sabia disso provavelmente eram as autoridades ligadas à Secretaria de Educação e seu grupo de assessores, que são professores, mas que não tiveram possibilidades de avaliar o impacto que isso teria na comunidade escolar e na vida das famílias.

Os alunos disseram que não sairiam de modo algum daquelas escolas e aí se deu minha inserção no acompanhamento das ocupações, junto com um grupo do curso de Pedagogia da PUCSP e outros grupos, com o padre Júlio Lancellotti, que tem um caráter carismático ligado à escola, e com os pais. Nós íamos a essas escolas, que estavam sob a coordenação dos alunos, escutávamos os lamentos dos alunos e sugeríamos propostas efetivas de como a questão poderia ser resolvida. Todos eles falavam de modo ordenado, levantavam a mão, e tinha uma organização; ficamos surpresos com a maturidade que eles tiveram para enfrentar um momento tão importante de suas vidas.

A manifestação fez com que o governador recuasse da decisão e culminou, também, com o pedido de demissão do secretário de Educação. Nós não sabemos como o governador vai resolver a questão daqui para frente, mas, de qualquer maneira, registramos na mídia a nossa posição, e a Av. Paulista foi o grande palco dos acontecimentos desses mais de dois mil alunos que criaram formas alternativas de se manifestar.

IHU On-Line – E como a senhora avalia a ocupação de várias outras escolas por todo o país ao longo do último ano?

Maria Stela Graciani – Esse movimento que está havendo agora, de ocupação de muitas escolas, é um desdobramento do que aconteceu em São Paulo. Não analisei ainda a amplitude dessa ação, que tem um protagonismo juvenil muito avançado. Pelo que pude perceber, trata-se de uma ação pacífica, amorosa, respeitosa, e não de uma “luta com pedradas”. Ao contrário, eles mostram que a qualidade da escola precisa melhorar para que possam se empoderar de outras concepções, seja da geografia, da literatura ou da história. Precisa melhorar a qualidade do ensino, e isso só vai acontecer quando as universidades formarem melhor os educadores, quando o salário dos professores for melhor, quando os professores forem respeitados e quando o envolvimento não for só de aprendizagem de conteúdo, mas de uma aprendizagem para a vida e para os sonhos que eles acalentam.

Nas ocupações que acompanhei, pude perceber que esse é um novo momento da juventude na cidade de São Paulo. E é interessante perceber que os moradores dos bairros estavam a favor dos alunos e apoiavam a causa deles, trazendo arroz, feijão, bolo, suco para aqueles que permaneciam mais tempo na escola. Durante as manifestações que fizeram na Av. Paulista, eles foram aplaudidos pela população que ficava na calçada, porque a atitude deles era uma coisa “maneira”, como eles diziam, que expressa o afeto e o amor que eles têm pela escola.

IHU On-Line – Como a senhora avalia o desenvolvimento das políticas de educação no país, seja no ensino básico, seja no ensino superior? Pode fazer um balanço de quais foram os pontos positivos e negativos em relação às políticas desenvolvidas nos últimos anos?

Maria Stela Graciani – Estamos muito aquém do que deveríamos estar, principalmente no que diz respeito à qualidade e à formação dos professores, porque mudou o mundo, mas não mudaram as estruturas curriculares das faculdades que formam esses professores. As ONGs, por exemplo, estão solicitando educadores que saibam trabalhar com outra dimensão que não é só acadêmica, mas que é socioacadêmica. Então, precisamos mudar, transformar e edificar um novo tipo de educação para os nossos professores.

IHU On-Line – O que seria uma mudança na formação dos professores?

Maria Stela Graciani – Teríamos que incluir na formação dos professores outras dinâmicas pautadas dentro do mundo contemporâneo, como, por exemplo, a questão da internet, seu uso, seu abuso, a questão dos materiais didáticos, porque quando nos formamos, esses materiais tinham sentido, mas hoje eles não são mais adequados. Precisamos, portanto, de propostas alternativas para resolver os grandes problemas que a juventude traz para esse momento histórico. Então, é preciso mudar o projeto político-pedagógico. O projeto é o que se lança para frente. Além do que já conhecemos sobre a juventude, sobre a necessidade de conhecimento, sobre as áreas de ensino e formação dos professores, precisamos fazer uma análise de conjuntura no sentido de ver como está o momento atual, para onde ele caminha e qual será o futuro da nação. Tudo isso só será feito dentro da escola através da heterogeneidade de saberes. A juventude está muito autônoma e diversificada e nós não estamos acompanhando, nos currículos, essas extraordinárias mudanças do mundo contemporâneo.

IHU On-Line – Como a senhora está avaliando a proposta de reformulação do currículo do Ensino Médio? Quais os prós e contras dessa medida?

Maria Stela Graciani – Estamos num momento de encruzilhada bastante sério em relação às diferentes possibilidades do ensino, da aprendizagem, da formação e da articulação com a comunidade escolar na construção do novo currículo. Um dos absurdos é tirar a Filosofia do currículo, pois é ela que traz os valores que temos para viver em sociedade. Se não bastasse isso, como se pode tirar o ensino da Sociologia, que nos faz pensar sobre a comunidade, de forma interativa, com troca de experiências, para formar adultos com uma visão política progressista, empoderada? Além disso, o currículo ainda quer tirar o ensino das Artes, que é o que os jovens mais gostam. Quem inventou esse currículo neste momento da história? A reformulação do currículo deveria ser feita a partir de uma discussão ampla com a sociedade, com as universidades e as Secretarias de Educação. A quem interessa esses parâmetros que se criaram e que vieram como se fosse de cima para baixo de modo acachapante? Não só nós, professores, mas também os pais estão perplexos. É uma aberração o que está acontecendo.

IHU On-Line – A que a senhora atribui o baixo índice dos estudantes brasileiros no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes - PISA? Quando se trata de pensar na qualidade do ensino, esses dados devem ser considerados ou não?

Maria Stela Graciani – Creio que nós, os coordenadores pedagógicos das universidades e das escolas, estamos investindo muito pouco na formação dos docentes. Por exemplo, tem agora o Plano de Formação do Professor - Parfor, que é um projeto do MEC, interessantíssimo. Há iniciativas valorizadas, mas poucas pessoas e poucas universidades têm a possibilidade de abrir esta fresta. Quem faz isso? As universidades particulares, que são muito empenhadas nas coordenações dos estudos, dos seminários e dos congressos que realizam. Mas esse é um movimento para dentro e não um movimento para fora no sentido de realmente edificar esses saberes nas escolas públicas.

As escolas particulares têm mais possibilidades porque os melhores profissionais serão diretores, coordenadores e empoderados dentro dessas instituições particulares. Com isso, a escola pública vai ficando com aquele funcionário que prestou concurso público, porque ficará 30 ou 40 anos no mesmo local e vai se aposentar ali.

O que está faltando é uma grande política de formação dos nossos educadores, independente de eles serem do setor público ou privado. Nós temos que, agora, pensar em um processo totalizador, sociopolítico e econômico, e em uma visão interdisciplinar na questão da sociologia, da política, da geografia e da história. E, tendo essa visão de que precisamos formar esse sujeito para uma participação nos anos que vão advir, cada vez mais temos que estabelecer um diálogo com novas tecnologias, mas estamos atrasados em discutir isso. Em todo lugar vemos pessoas com celulares, com laptops, e elas estão muito mais avançadas do que as universidades e as escolas de formação.

Portanto, temos que pensar um conjunto de mudanças, transformações e modificações que considerem as mudanças do mundo contemporâneo, que está nos deixando num “pasmo pedagógico”. Ou nos empenhamos e arregaçamos as mangas para realmente ver os problemas que existem nas áreas da educação, das ciências sociais, da pobreza, da qualidade de ensino, ou, talvez, estejamos à deriva daqui 50 anos. Está na hora de abrir os olhos, escutar mais essa juventude que é protagonista, que sabe o quer, porque está cheia de informações, valores e perspectivas; nós infelizmente não estamos acompanhando a juventude.

IHU On-Line - Mas para além do acesso às novas tecnologias e da modernização das escolas, não lhe parece que o problema da escola é que ela não está dando conta da sua função básica, que é alfabetizar os alunos, dado que hoje é elevado o número de estudantes que saem do ensino médio ou ingressam na universidade com muitas dificuldades de escrita e leitura? Como reverter essa situação?

Maria Stela Graciani – Há uma defasagem muito grande entre o que é ensinado e a realidade concreta que vem evoluindo a passos largos. As tecnologias contemporâneas estão à disposição dos jovens, mas através desses equipamentos de envio de mensagens, por exemplo, vemos que muitas vezes eles escrevem de maneira errada o que estão querendo dizer. Isso acontece porque a escola não tem tido a competência técnica que deveria ter. Aí você poderia me perguntar se apesar disso houve evolução no ensino. É lógico que houve, principalmente na educação infantil houve muitos avanços, e hoje se estuda muito mais do que há 10 anos. Os currículos que estão sendo propostos para a primeira infância estão muito melhores do que o currículo da formação do educador que vai trabalhar com as crianças dessa faixa etária. De todo modo, tem que haver uma mudança estrutural da infraestrutura dos currículos nas universidades, no ensino médio e no ensino fundamental para que, realmente, consigamos avançar.

Assista à palestra proferida pela professora na íntegra: 

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