A odisseia dos haitianos que deixam o Brasil em crise com destino aos EUA

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27 Outubro 2016

Tangerinas colocadas sobre o asfalto demarcam os gols. Na rua da Casa do Migrante de Tijuana, no norte do México, dois times se formam a cada tarde. De um lado, mexicanos que estão fugindo de suas casas devido a ameaças dos bandidos – “Ou você paga ou te mato” – e já viram familiares e vizinhos serem assassinados; do outro, haitianos que deixaram o seu país, o mais pobre das Américas, por causa do terremoto de 2010, se instalaram no Brasil e agora voltam a se debater contra o desemprego e a pobreza. A bola é verde e amarela. Haitianos e mexicanos começam o jogo. Todos chegaram aqui para tentar marcar um gol entre as duas tangerinas e na fronteira dos Estados Unidos.

A reportagem é de David Marcial Pérez, publicada por El País, 26-10-2016.

O time do Haiti é relativamente novo. Desde junho, homens e mulheres sozinhos, adolescentes e famílias com crianças foram chegando às centenas a Tijuana e Mexicali, o outro ponto fronteiriço da Baixa Califórnia, até lotarem os centros mexicanos de acolhida. A crise econômica do Brasil, onde trabalhavam na construção com vistos temporários, gerou uma rota migratória inédita. As cifras oficiais nos últimos meses rondam as 8.000 pessoas, e a previsão é que o fluxo continue crescendo.

O Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), a Organização Internacional para a Migração e até o secretário nacional de Governo (Casa Civil do México), Miguel Ángel Osorio Chong, visitaram a região para tentar controlar uma situação que as organizações de direitos humanos definem como de crise humanitária. Igrejas e centros religiosos foram preparados nas últimas semanas para evitar que se repitam as imagens de haitianos dormindo sobre mantas nas portas dos albergues.

Ao final da pelada, Leonardo Flores e Fedner Charles, de 20 e 21 anos, colocam os pratos e os copos sobre as mesas do refeitório do albergue. Os dois estão há quase um mês na casa, uma espécie de cortiço de três andares construído por padres italianos, com capacidade para 140 pessoas e que chegou a abrigar 200. Um não fala a língua do outro, mas o idioma da bola e as brincadeiras de adolescentes bastaram para que construíssem uma amizade enquanto esperam ser recebidos pelas autoridades migratórias norte-americanas.

Flores e seu pai deixaram Acapulco na noite em que dois homens apareceram no restaurante de tortillas da família e dobraram o valor da extorsão habitual. “O clima já estava muito pesado”, contou. Uma semana antes, ele viu outro rapaz ter a cabeça estourada por um tiro enquanto esperava o ônibus. Para contar isso, Flores faz um gesto de pistola com a mão. Charles arqueia as sobrancelhas. Acaba de entender o que diz seu amigo. Ele também viu companheiros morrerem durante sua viagem.

Nove países e mais de 11.000 quilômetros depois, sua história é parecida com a dos outros Ulisses caribenhos encalhados no norte do México. O terremoto de 2010 devastou sua cidade, Porto Príncipe. Sua família, que tinha uma pequena mercearia, procurou refúgio no Brasil, que na época precisava de trabalhadores para remodelar suas cidades que seriam sede da Copa do Mundo de 2014. “Mas agora não há mais trabalho, e o aluguel das casas é muito alto”, conta, em português com sotaque francês. Com uma mochila e as economias da família – 3.000 dólares, dos quais já não resta nada – empreendeu a viagem. De ônibus e a pé.

O pior trecho foi a fronteira entre a Costa Rica e a Nicarágua, cujo Governo vedou a entrada de migrantes – cubanos, africanos e haitianos – rumo ao norte. Para cruzar a América Central, território das máfias de tráfico humano, foram obrigados a pagar coiotes, os guias das redes de traficantes.

Charles foi assaltado em Honduras enquanto dormia ao relento. Guillerme, 26 anos, boné de beisebol e trança africana, foi roubado pelo seu próprio coiote. “Eu lhe dei 500 dólares, mas ele sumiu.” Precisou esperar um mês na Costa Rica até que sua família lhe mandasse mais dinheiro via Western Union. Quando finalmente entrou na Nicarágua, através do lago Cocibolca, o maior da América Central, recorda que uma mulher que vinha doente da selva panamenha não teve a mesma sorte e se perdeu na água. “Os Estados Unidos são o único país que pode nos ajudar”, diz, remexendo viseira com uma mistura de aflição e esperança.

O México respondeu a este novo fluxo concedendo uma permissão temporária por 20 dias a partir da entrada dos migrantes por Chiapas (sul). Enquanto isso, os EUA aumentaram de 75 para 100 a quota de solicitações diárias de asilo na fronteira. A metade é para refugiados mexicanos – um fenômeno quase invisível no país, mas que no ano passado somou quase 300.000 casos –, e a outra metade é para não mexicanos. “Por causa dessa saturação, os migrantes haitianos estão passando muito mais do que 20 dias na cidade. Nós os ajudamos a marcar hora com as autoridades dos EUA, e estão dando um prazo de quase dois meses. Enquanto isso, convivem aqui com outros migrantes e com os deportados”, diz Leonardo Martínez, coordenador de outro albergue, o Refeitório de Café da Manhã do padre Chava.

Na entrada do centro, um pátio de terra, foi erguido um grande barracão de madeira para dar proteção aos novos visitantes. Deitadas sobre mantas, mães haitianas amamentam seus filhos, enquanto uma fila de idosos espera o desjejum. É o caso de um salvadorenho que, em vez de se identificar, prefere levantar a camiseta e mostrar o tórax: faltam-lhe duas costelas, porque ficou sem dinheiro e o coiote o jogou de um trem em movimento; ou um mexicano, natural de Guadalajara, que tampouco revela seu nome, mas diz ter sido deportado três vezes e estar decidido a uma quarta tentativa através do Ninho da Águia, um pequeno morro de Tijuana, estratégico para quem se infiltra pela cerca fronteiriça.

“Com os haitianos, estamos encontrando um perfil completamente diferente do tradicional. Pessoas de classe média baixa, com menos de quarenta anos, e 20% delas crianças. Além disso, vêm com a ideia muito clara de obter autorização de entrada nos EUA”, diz Araceli Almaraz, professora do Colégio da Fronteira Norte, que estuda os fenômenos migratórios.

Num ferro-velho a duas ruas do refeitório do padre Chava, junto a uma caminhonete com placa da Califórnia, dois amigos de barriga de fora observam, do balcão de um quiosque, uma mulher que cozinha. Magali, 28 anos, está preparando frango créole, empanado e frito com especiarias. “Não gostamos da comida mexicana”, diz Michel, seu marido, vestido de moletom e tênis Nike e com um iPhone na mão. Magali, que não quer falar, como todas as mulheres haitianas abordadas para esta reportagem, ganha 25 dólares por semana para trabalhar seis horas diárias nesta cozinha embutida, onde alguns de seus compatriotas vêm comer a três dólares por prato. Os donos do ferro-velho ganham um pouco de dinheiro, e Magali, com seu salário mais a renda do marido, paga uma pensão onde o casal espera a sua vez de passar pela fronteira.

A tese de muitos acadêmicos sobre o porquê deste fluxo agora, e o motivo de ser só na Baixa Califórnia, é que os migrantes haitianos chegam procurando as portas abertas por um tratado humanitário, o Status de Proteção Temporária, (TPS, na sigla em inglês), firmado depois do terremoto de 2010 e ainda vigente por mais um ano. “Mexicali e Tijuana são as únicas fronteiras onde o tratado é aplicado. Não ganham residência permanente nem qualquer status migratório, precisam estar permanentemente localizáveis, mas podem trabalhar enquanto solicitam o asilo, por exemplo, que é um processo muito mais longo e complexo”, diz a professora do Colef.

A possibilidade da deportação uma vez em território norte-americano parece descartada. Já a sombra do tráfico humano continua pairando. “Sempre houve fluxos de migrantes haitianos. Mas, além do efeito da saída deles do Brasil, este pico tão grande e o fato de a maioria viajar sem passaporte revelam que sem dúvida há redes que estão operando durante toda a rota”, afirma Mario Madrazo, diretor do Instituto Nacional de Migração do México.

Outras redes mobilizadas são a da solidariedade. Um dos funcionários da Casa do Migrante abre a porta da despensa. As estantes estão abarrotadas até o teto. “Este é uma cidade de migrantes”, conta, “e há muita empatia com quem chega e precisa de ajuda”. Assim é Tijuana, com suas ruas largas e poeirentas, onde com a mesma naturalidade se pode topar com um consumidor de heroína injetando-se a droga às 8h da manhã ou com algum dos restaurantes mais sofisticados e saborosos do país.

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