Paróquia e Missão: Vinho novo em odre novo?

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26 Outubro 2016

"Aonde está a nossa paróquia? Não se encontra perdida no meio dos ricos, daqueles que contribuem com o maior volume financeiro na construção de obras materiais, pouco se importando se o dinheiro vem de algum opressor, dum agronegociante, depredador da biodiversidade que Deus semeou na terra, duma empresa mineradora, ou até dos cofres públicos, cujo destino deveriam ser iniciativas em prol do povo do município, do estado ou do país? Quais são os problemas que enfrentam as pessoas na paróquia, na Diocese e no mundo? Mas, principalmente, no interior da paróquia? Como amamos o próximo? A pergunta ecoa insistente e de acordo com o Papa Francisco hoje vem acrescida da pergunta, como está nossa irmã, a mãe-terra?", escreve Egydio Schwade, graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Foi um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário - Cimi e primeiro secretário executivo da entidade, 25-10-2016.

Eis o artigo.

Durante a minha caminhada de 53 anos de vida missionária, (15 anos como celibatário, 38 com família) que teve seu início na Prelazia de Diamantino/MT, depois como coordenador técnico da OPAN, em seguida como Secretário Executivo do CIMI-Conselho Indigenista Missionário, seguindo na Prelazia de Itacoatiara/AM e agora na Arquidiocese de Manaus, tive oportunidade de conhecer paróquias em todo o país, de Sul a Norte e de Oeste a Leste. E o meu foco sempre foram as populações em situação de missão.

Minha caminhada missionária iniciou em meio a agitação do Concilio Vaticano II. Os documentos conciliares: Lumen Gentium A Luz dos Povos, (com novas orientações para toda a Igreja), Gaudium et Spes-Alegria e Esperança e Ad Gentes-Aos Povos, (dirigidos, especialmente, aos povos esmagados pelo Estado e seus subprodutos, empresas de mineração e do agronegócio...) sobre o Ecumenismo e outros, contêm orientações que retomam o conceito original da missão e por isso agitaram corações e mentes nos seminários e em muitas paróquias e Dioceses de então.

Mundo afora criaram-se organizações missionarias que abriram novos horizontes aos cristãos em dimensões planetárias. Pessoalmente participei da fundação de diversas delas aqui no Brasil. Em fevereiro de 1969 participei da criação da OPAN Operação Anchieta, que suscitou, treinou e enviou jovens leig@s que sob o impulso da orientação do Concilio e superando as fronteiras das igrejas, se dirigiram à Amazônia, onde mudaram o conceito de missão doutrina, para missão encarnação, uma presença-serviço ao reerguimento dos povos indígenas. Três anos depois coordenei a reunião onde foi criado o CIMI-Conselho Indigenista Missionário, fundado sobre os mesmos princípios. Em 1975 ajudei na criação da CPT-Comissão Pastoral da Terra, visando a encarnação da Igreja na realidade dos pequenos agricultores injustiçados de diversas formas. Estes organismos contagiaram muitos setores da sociedade, onde em seguimento se criaram outras organizações de apoio para o erguimento dos povos e populações esmagados por injustiças históricas do Estado. Surgiram associações e comissões de apoio. Tive oportunidade de participar da criação, em Porto Alegre da ANAI-Associação Nacional de Apoio ao Indio, da CPI-SP- Comissão Pró-Indio de São Paulo, do GREQUI- Grupo da Questão Indigena em Belo Horizonte e do Grupo Kukuro em Manaus. No seguimento desses organismos surgiram outros como o MST-Movimento dos Trabalhadores sem Terra. E, se as populações indígena, quilombola e de pequenos agricultores estão aí hoje, vigorosos e organizados, com boa parte de suas terras reconquistadas, voltando a espalhar as suas “sementes divinas ocultas”, devem muito a todo este mutirão de pessoas e organizações.

São apenas alguns lampejos da memória de minhas andanças pelo país. Conheci paróquias que irradiaram esta vida nova e agitaram para além de seus limites. Ocorrem-me, neste momento, exemplos como a paróquia dos padres Claretianos de Goiânia, São José na Asa Norte de Brasília, (que acolheu a sede do CIMI na mira da Ditadura e escondeu o padre francês, Francisco Gentel, missionário entre agricultores injustiçados pelo agronegócio no Araguaia, perseguido e afinal expulso do país pela mesma Ditadura,). Pimenta Bueno/RO, Itamarati, no médio Juruá/AM e muitas outras. Lembro ainda da agitação em estruturas maiores. No nível da CNBB, Dioceses inteiras se tornaram igrejas irmãs de outras necessitadas ou se transformaram, como a Diocese de Goiás/GO e de São Félix do Araguaia/MT, de Rio Branco/AC e Itacoatiaria/AM, de Santarém/PA e Crateús/CE, de Recife/PE e João Pessoa/PB, de Linz/SP e Volta Redonda/SP, de Nova Iguaçu/RJ e Chapecó/SC.

São Bernardo e São Paulo, igrejas que encontraram o seu lugar de missão, abrindo suas portas aos injustiçados do campo, aos operários e políticos perseguidos. Conheci padres, irmãs e leig@s e entidades em diferentes partes do país e do mundo que caminharam com estas iniciativas missionárias. Foi o caso das Comissões de Justiça e Paz, dos seminaristas dominicanos que adentraram na transformação da política ditatorial, das Irmãzinhas de Jesus junto aos Tapirapé e dos jesuítas da Prelazia de Diamantino/MT que acabaram com a doutrinação e a estrutura de internato indígena, para se encarnarem na realidade das aldeias. Iniciativas de padres, irmãs e leig@s, em Porto Alegre/RS e Caxias do Sul/RS, Curitiba/PR, Palmas/PR..., apoiando as iniciativas missionarias. Seminaristas que interromperam seus estudos, devido ao fechamento das instituições ante o clamor dos excluidos e integraram organizações missionarias onde puderam se encarnar melhor na realidade das populações oprimidas, derramando o “vinho novo” do Concílio, em “odres novos” e contribuindo decisivamente para o reerguimento dessa gente país afora.

Acompanhei de perto o surgimento outras iniciativas, no campo e nas cidades, como a d@s médic@s do Hospital Pio X de Ceres/GO que transformaram a estrutura de hospital e ampliaram o olhar e raio de ação, treinando agentes de saúde para a Amazônia. Conheci ainda muitos jornalistas que arriscaram as suas vidas, teimosamente, diariamente, conquistando, a duras penas e com risco do emprego, espaços em jornais conservadores dando notícias de índios, de pobres e de perseguidos pelo esquema repressor da Ditadura.

Hoje, infelizmente, para a maioria d@s católic@s, o Concílio permanece letra morta. A maioria das paróquias caminha paralela, como se o Concílio não tivesse existido. Será porque @s paroquian@s nunca tiveram acesso ao seu conteúdo, ou porque se viciaram na rotina de pastorais sacramentais e financeiras perdendo a perspectiva missionaria? Ou será porque as casas de formação de padres e irmãs esqueceram o Concílio? O fato é que muitas paróquias não anunciam a Boa Nova para os excluídos da paróquia e do mundo. A Missão é vista apenas como pregação da palavra ou da doutrina bíblica, não como anúncio da Boa Nova da libertação. Anúncio que inicia pelos mais pobres, lá onde a Má-Nova se evidencia mais e onde também se encontram escondidas as raízes e as sementes da Boa Noticia da libertação e os instrumentos da Boa-Nova das mudanças estruturais para o bem viver da humanidade. A liturgia volta aos trajes ultramarinos e aos ritos individualistas, ao invés de se atualizar com a riqueza viva das praticas dos povos regionais.

Aonde está a nossa paróquia? Não se encontra perdida no meio dos ricos, daqueles que contribuem com o maior volume financeiro na construção de obras materiais, pouco se importando se o dinheiro vem de algum opressor, dum agronegociante, depredador da biodiversidade que Deus semeou na terra, duma empresa mineradora, ou até dos cofres públicos, cujo destino deveriam ser iniciativas em prol do povo do município, do estado ou do país? Quais são os problemas que enfrentam as pessoas na paróquia, na Diocese e no mundo? Mas, principalmente, no interior da paróquia? Como amamos o próximo? A pergunta ecoa insistente e de acordo com o Papa Francisco hoje vem acrescida da pergunta, como está nossa irmã, a mãe-terra? A nossa “casa comum, comparada por São Francisco de Assis, ora a uma irmã com quem compartilhamos a existência, ora a uma mãe, que nos acolhe em seus braços”.(Laudado Si) A missão prioritária do padre, da irmã, do pastor e do bispo, não deveria ser como a de Paulo: andar no meio das comunidades animando os fiéis a encontrarem o seu lugar no processo de acolhimento de todos nesta “casa comum”? Onde está a Boa-Semente? A Boa-Notícia? Durante os 29 anos da sua existência a nossa paroquia dos Santos Mártires e Nossa Senhora Aparecida cresceu muito em obras, prédios, mas e em ações missionarias? Em seu percurso perdeu até o seu principal eixo missionário: os “Santos Mártires”. E Nossa Senhora que após a morte de seu Filho “surgia” nas comunidades como a “Aparecida”, consolando os aflitos, os sobreviventes dos mártires, deve-se sentir abandonada, refém como continua o povo Waimiri-Atroari de tantos mártires recentes: o martírio de mais de 2.000 pessoas.

O Ecumenismo entre os cristãos também é um amplo campo missionário aberto em nossa paróquia. Segundo o Concílio o caminho que leva a desejada unidade dos cristãos, não é a agressividade de palavras, mas “...contribuir para a dignidade da pessoa humana, promover o bem da paz, aplicar o Evangelho na vida social, (...) aplicar qualquer gênero de remédios aos males de nossa época, tais como: a fome e as calamidades...” (Ecumenismo 12).

Sei que há pastorais missionárias funcionando, como a “pastoral da visitação” e a “pastoral da criança”, que precisam e recebem constante incentivo, também dos recursos financeiros paroquiais. Ajudar a tod@s @s paroquian@s a acharem a sua vocação missionária deve ser a preocupação prioritária.

Foi encarnado na realidade do povo mais oprimido e excluído desta paróquia, os Kiña ou Waimiri-Atroari que encontrei, com minha esposa e família as fontes ou “sementes de Deus ocultas”, todo um sistema de valores sociais e religiosos como: a comunidade, a solidariedade, a partilha dos bens da terra, o encontro diário, o mutirão no trabalho, a segurança na terra, na família e na comunidade. Uma generosidade que sempre encontra algo (fruta, carne moqueada ou beiju) para oferecer e alegrar os visitantes, mesmo em meio à pobreza imposta pela interferência do modelo egoísta invasor. Gente que pratica um sistema de educação libertador, sem discriminação de pessoas, que cultiva o gênio ou dom de cada um, fazendo-os conhecerem e “dominarem” a natureza no seu verdadeiro sentido e não apenas pelo que ela representa de valor econômico ou comercial. A natureza respeitada em sua totalidade. Fontes de sabedoria oferecidas a tod@s para que dela tod@s se saciem plenamente.

Hoje surgem problemas e necessidades que exigem a criação de “novos odres”. O Planeta está sendo tomado por cânceres de diferentes espécies: o cimento, o asfalto e o próprio Estado que não responde às exigências da humanidade, clamando por um novo paradigma de organização dos povos. Para isto exigem-se novas organizações que preparem pessoas que a partir das “sementes do Verbo", colhidas ao longo da História da Igreja missionária, recente e passada, criem novos modelos que façam voltar a esperança e o bem-viver à humanidade.

“Colher, com alegria e respeito, as sementes do Verbo ocultas nos povos”(Ad Gentes 11). Reviver a economia da Amazônia, hoje invisível, a riqueza escondida nos povos oprimidos pela “crematística”, este sistema capitalista vigente que tudo queima e destrói. O Planeta carece de estruturas novas que criem pessoas novas, com coragem de propor modelos ou paradigmas alternativos ao caos do modelo atual de organização da humanidade.

A paroquia precisa ser abrigo e lar destas novas experiências, destes “odres novos” que possam acolher sempre de novo o “vinho novo”, semeado por Deus com abundancia nos corações jovens de cada época.

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