Os "inimigos" do Papa Francisco

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20 Outubro 2016

"A acusação contra a agência AsiaNews de ser contra o papa e a favor de Putin é uma oportunidade para mostrar os motivos que nos movem no nosso compromisso de evangelização. E também para pedir mais profissionalismo para quem escreve sobre o papa. O pontífice não precisa de defensores públicos. É preciso ajudar no diálogo entre ‘conservadores’ e ‘progressistas’ para realizar o Concílio e se preocupar com o mundo, para que encontre Jesus Cristo. Os ‘inimigos’ de Jesus também foram os seus ‘amigos’".

A opinião é do padre Bernardo Cervellera, membro do Pontifício Instituto das Missões Exteriores e editor-chefe da agência AsiaNews, 18-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Na AsiaNews, não passa um dia sem que publiquemos algo sobre o papa: as homilias, os discursos, os encontros, os resumos das encíclicas. Somos uma das agências mais rápidas que oferecem aquilo que o papa ensina em tradução online em italiano, chinês, espanhol e inglês: muitos chineses, indianos, latino-americanos nos agradecem pela velocidade com que a palavra do papa chega até eles, já que os sites oficiais são lentos demais. Escolhemos fazer esse serviço, que nos ocupa todos os dias, inclusive os domingos, para ajudar as Igrejas da Ásia a receberem o mais rápido possível a palavra do pontífice. Fizemos isso com o Papa Wojtyla, com Bento XVI, com o Papa Francisco.

Esse serviço é útil especialmente para os católicos chineses. E, como o site da AsiaNews às vezes é bloqueado pelas autoridades de Pequim, demos o ok para que outro site, mais anônimo, intitulado AscoltiamoPapaFrancesco.net republique os nossos artigos sobre o Papa Francisco em italiano e em chinês (ver para crer), embora os responsáveis pelo site assinem (sem muita ética profissional) os artigos escritos por nós. Mas esse fato pouco importa para nós: "contanto que Cristo seja anunciado", como diz São Paulo (Filipenses 1, 18).

Dada essa experiência, ficamos muito entristecidos – pela sua mentira, mais do que por nós – que dois vaticanistas tenham citado o AsiaNews dentre "aqueles católicos contra Francisco que adoram Putin". Porque ambas as afirmações, sobre o papa e sobre Putin, não são verdadeiras. Não estou aqui para adquirir as provas: basta ir ler os artigos que escrevemos. Para nós, é um ponto de honra – e de profissionalismo – gravar não aquilo que mais agrada no poderoso de plantão, mas todos os aspectos, mesmo que complexos e contraditórios, de um evento. Parece-nos que fazemos um serviço à verdade.

Também sobre a China, embora exaltemos os seus sucessos espaciais e o fato de abrirem caminho entre as grandes potências, não esquecemos os problemas da poluição ou o Dalai Lama, que, para nós, parece ser um migrante, um exilado, assim como aqueles tantos exilados e migrantes que o Papa Francisco abraçou em Lampedusa.

E assim também sobre a Igreja Católica, se gravamos todo o entusiasmo do Papa Francisco em relação a Xi Jinping, não podemos não comunicar a profunda dor que o silêncio sobre a perseguição provoca entre os cristãos clandestinos. Porque se trata de pelo menos cinco milhões de pessoas que, há décadas, deram a vida – às vezes até o sangue – pelo evangelho e agora, de repente, desapareceram das nossas preocupações.

No artigo citado, um professor, dentre os mais otimistas do diálogo entre China e Vaticano – lembro que ainda em 2005, logo depois da morte de Wojtyla, ele tinha previsto que, em poucos dias, se assinaria o acordo diplomático que ainda esperamos com fé e esperança –, pois bem, esse "superotimista" diz que nós estaríamos "aliados" com "ambientes de Hong Kong, setores dos EUA e da direita europeia" para pressionar o Papa Francisco a privilegiar a liberdade religiosa sobre a unidade da Igreja na China. Uma opinião que nos parece infundada: nunca recebemos visitas ou prêmios de um presidente ou de um secretário de Estado estadunidense nem europeu. Mas, talvez, professor superotimista queria dizer – de longe – que nós, muitas vezes, publicamos artigos do cardeal Joseph Zen, que, como nós, está preocupado com o destino dos cristãos clandestinos. Se eu fosse o Papa Francisco, eu apreciaria que um cardeal meu me contasse os problemas que sofrem e vivem esses cristãos tão... periféricos, rosto do Cristo sofredor, parte do meu rebanho, para os quais eu devo dar a vida.

Infelizmente, o Papa Francisco tem poucos amigos desse calibre. E também não os tem entre os jornalistas vaticanistas. E, de fato, a minha dor maior é ver a lista de proscrição elaborada naquele artigo: aquele site, aquele jornalista, aquele padre, aquele bispo, aquele cardeal. Pergunto-me qual a serventia disso e temo que seja usado para dividir, graças à obra incansável desses corifeus que se autoelegeram como "intérpretes infalíveis" do papa e defensores do papa.

Quando o Papa Francisco subiu ao sólio pontifício, ficou claro que ele queria realizar o Concílio Vaticano II (como ele diz nas suas encíclicas). Para isso, era necessário (e é necessário) unir, fazer dialogar e encontrar um caminho comum entre os chamados católicos "conservadores" e os "progressistas", cuja divisão é uma das chagas mais feias que carregamos há décadas. Se alguém ouve tudo o que o Papa Francisco diz, percebe que ele é justamente o papa da tradição em desenvolvimento, superior às "hermenêuticas de ruptura" típicas dos conservadores e dos progressistas. Infelizmente, parece que os dois partidos – graças também às mídias seculares – se dividem e endurecem o seu rosto cada vez mais. Cabe ao papa, como sinal da unidade da Igreja, trabalhar pela recostura. E cabe aos jornalistas vaticanistas mostrar como esse trabalho progride. Eu não me expresso sobre a vontade de dar os "boletins" dos bons e dos maus.

O meu conselho, se eles realmente querem ajudar o Papa Francisco, é o de apoiar as posições de diálogo – aquilo que gostaríamos também entre as "almas" da Igreja da China –, fazendo surgir aquele pedacinho de verdade, que o Espírito – como também diz o nosso papa – também coloca dentro de um muçulmano, de um judeu, de um hindu... imaginemos de um cristão!

Esse trabalho de diálogo também com as posições mais distantes é ainda mais urgente por causa do abismo de secularização e indiferença que está engolindo o mundo. O mundo crê porque a Igreja está unida ("que todos sejam um para que o mundo creia", diz o Evangelho de João). Por isso, devemos nos preocupar – direita e esquerda na Igreja – não de nos mostrar como "superapóstolos" exibicionistas, mas de compreender como fazer com que o mundo se interesse pela fé em Jesus.

Infelizmente, o debate entre muitos cristãos já está polarizado em "papa sim, papa não" e não sobre a missão em direção ao mundo. Da mesma forma, sobre a China, todos debatem as relações diplomáticas, e ninguém sobre o modo de levar a fé cristã para esse país que tem sede de Deus, antes que de diplomacia.

Quanto ao papa: o papa não precisa de defensores públicos. Acima de tudo, porque ele me parece bastante "blindado": uma Sala de Imprensa, um Centro Televisivo, um jornal, uma rádio... Mas, depois, especialmente porque o próprio Papa Francisco disse que não quer que se grite "Viva o papa!", mas "Viva Jesus Cristo!". E mesmo se acontecesse de o papa ser ofendido ou criticado, desse modo ele se torna mais semelhante justamente a Jesus Cristo flagelado, que era agredido pelos "inimigos", mas havia sido traído pelos "amigos". E também é possível trair com aplausos demais.

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