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06 Outubro 2016

"Michel Löwy participou de um interessante encontro promovido pela Santa Sé para dialogar com marxistas sobre os problemas atuais da Europa. Foi um encontro significativo e muito simbólico, onde o Papa convida oficialmente marxistas para debater com cardeal e uma delegação do Vaticano. Ele me pediu que traduzisse o relatório que ele escreveu. Uma versão deste texto já circulou na Europa, mas ainda não teve reconhecimento no Brasil”, informa o Prof. Dr. Allan da Silva Coelho, pesquisador do PPG em Educação da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, ao enviar o artigo que publicamos a seguir.

Michel Löwy, sociólogo, nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. É diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). É autor, entre outros livros, de Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo.

Eis o artigo.

A eleição de Francisco criou, obviamente, um novo clima nas relações entre a Igreja e a esquerda europeia. Na reunião de setembro de 2014 entre o Papa, Alexis Tsipras e Walter Baier se aprovou iniciar um novo processo entre católicos e marxistas.

A primeira experiência aconteceu entre 31 de março e 1 de abril de 2016, no Instituto Universitário Sophia, perto de Florença, Itália. Os organizadores foram a Congregação do Vaticano para a Educação Católica, o Movimento dos Focolares e Transform Europa. Na declaração sobre a motivação e o conteúdo do diálogo se disse pelas três partes:

"Em vista das dificuldades e perigos atuais no mundo, todas as pessoas de boa vontade devem se unir com independência de suas filosofias, suas religiões e seus enfoques teóricos e práticos, para encontrar formas de saída à crise. Para citar Francisco, são necessários tanto a transversalidade como um diálogo através das linhas divisórias tradicionais (...)”.

Ambas partes estão de acordo em estabelecer uma “Mesa de Trabalho”, com o fim de que cada um entenda melhor o outro lado, e “realizar um trabalho de análise e soluções amplamente compartilhadas e, quando seja possível, definir os campos de ação conjunta”.

Entre as análises compartilhadas se encontra “a convicção de que a Terra foi dada a todas as pessoas, isto é, a humanidade como um todo, incluindo as gerações futuras. Assim, a cooperação quer contribuir a todas e todos os habitantes de nosso planeta para que os seres humanos possam viver uma vida digna, em paz, liberdade e justiça”. A declaração destaca também que “as diferenças de ponto de partida são consideradas como um enriquecimento e possa contribuir a clarificar, aprofundar e propor os pontos de vista próprios”.

A crise ambiental e econômica, a justiça social, a migração e os direitos humanos foram alguns dos principais temas abordados. Os participantes foram muito diversos: acadêmicos, ativistas de ONGs, teólogos, economistas, políticos e organizadores culturais. Também estiveram representadas várias gerações. A delegação da rede Transform contava com Walter Baier (Viena), Peter Fleissner (Viena), Cornelia Hildebrandt (Berlim), Michael Löwy, (Paris), Giulia Rodano (Roma), e a Santa Sé esteve representada por Vincenzo Zani, Secretário da Congregação para Educação Católica e Stefano Zamagni  (Academia Pontifícia de Ciências Sociais). A maioria dos participantes estavam vinculados ao Movimento dos Focolares: nossos anfitriões, Bernhard Callebaut e Paolo Frizzi, da Universidade Sophia, Catherine Belzung (França), Lorna Oro (Irlanda), Alejandra Herrero (Argentina), Herwig Van Staa (Innsbruck), Franz Kronreif (Áustria), e Herbert Lauenroth (Alemanha). Outros participantes foram Pasquale Ferrara (Universitário europeu de Florença).

É claro que os documentos do Papa Francisco, “Evangelii Gaudium” e “Laudato Si” e sua contribuição crítica de um ponto de vista humanista e solidário, foi um elemento importante nas discussões e serviu como referência tanto para os católicos como para os participantes marxistas.

Pode-se considerar este como um evento histórico nas relações entre a esquerda europeia e a Igreja Católica, que conheceu muitos obstáculos no passado. O Simpósio foi um êxito notável, graças a alta qualidade dos intercâmbios e o calor das relações humanas. Os debates desenvolveram-se em um ambiente de amizade e simplicidade, onde os títulos acadêmicos ou eclesiásticos foram deixados de lado e os participantes se chamavam pelo seu nome. Havia realmente um processo de aprendizagem e um enriquecimento mútuo. Claro que houve diferenças de opiniões, conceitos, de ênfases e nas soluções propostas, porém, houve uma autêntica abertura para “o outro” e um verdadeiro interesse na compreensão de seus pontos de vista.

O diagnóstico do papa sobre a crise do meio ambiente como resultado de um “sistema estruturalmente perverso” foi amplamente compartilhado pelos participantes, assim como a necessidade de uma alternativa às políticas neoliberais absurdas e irracionais de “austeridade”, promovidas pelos líderes europeus atuais. Os participantes de Transform propuseram um debate sobre as alternativas socialistas - ou ecossocialistas -, para além do modo de produção capitalista e do “modo de vida” capitalista.

Em seu comentário sobre os intercâmbios, Vicenzo Zani observou que agora estava convencido de que a ecologia e o meio ambiente devem ser parte da educação católica em todo o mundo. A necessidade das medidas concretas sobre o tema da mudança climática, e a solidariedade com os imigrantes que buscam encontrar um santuário na Europa, foi outra conclusão comum.

Isto é só o começo! Os organizadores concordaram com a necessidade de continuar com esta iniciativa, ampliar e aprofundar as trocas recíprocas. Haverá, ainda, uma publicação com as contribuições do Simpósio.

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