A crise futura da Igreja alimenta-se de mensagens anti-LGBTQs atuais

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04 Outubro 2016

"Não exatamente discordando de Peppard, digo que os líderes religiosos precisam fazer mais do que simplesmente cuidar o que dizem. Eles precisam ser proativos na promoção de mensagens afirmativas e acolhedoras; precisam apoiar ideias, políticas e práticas pro-LGBTs, trabalhando pela igualdade, apoiando a não discriminação no trabalho e combatendo iniciativas anti-LGBTs", escreve Francis DeBernardo, diretor-executivo da New Ways Ministry, organização católica de gays e lésbicas, em artigo publicado por New Ways Ministry, 30-09-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis o artigo.

Se você costuma ler as postagens publicadas aqui no sítio do New Ways Ministry, perceberá que uma opinião recorrente é o quão prejudicial as mensagens negativas emitidas por líderes eclesiásticos católicos são para as pessoas LGBTQs e seus familiares. No entanto, um novo relatório recentemente divulgado identifica também uma outra vítima da linguagem e das políticas anti-LGBTQs advindas destes líderes: a própria Igreja.

Nesta semana, o Instituto de Pesquisa sobre Religião Pública (PRRI, na sigla em inglês) divulgou um relatório sobre o número crescente de pessoas sem religião nos EUA: pessoas que confessam não ter filiação religiosa ou que renunciaram a filiação religiosa anterior. Dessa forma, quando perguntado sobre a identidade religiosa, a resposta mais simples era “nenhuma”. O novo relatório do PRRI mostra que os “sem religião” aumentaram de 5% entre a população em 1972 para 25% da população em 2016, e que atualmente quase 40% dos adultos com idade entre 18-29 anos se identificam como “sem religião”.

Quando perguntaram aos participantes da pesquisa (as entrevistas foram feitas em agosto de 2016) por que não possuíam uma filiação religiosa, 29% disseram que era por causa das mensagens negativas relativas a questões LGBTs que ouviam da parte de instituições religiosas. De um modo significativo em se tratando de Igreja Católica, o número aqui é destacadamente mais alto.

De fato, as mensagens negativas sobre a comunidade LGBTQ é um dos motivos mais significativos que fazem com que as pessoas deixem a Igreja, e na Igreja o fenômeno ocorre em um número muito maior, em termos proporcionais, do que em outras denominações. É o que diz o relatório:

“De maneira notável, aquelas pessoas que cresceram dentro do catolicismo são mais propensas do que as outras das demais denominações e religiões a citar o tratamento religioso negativo dispensado às pessoas gays e lésbicas (39% e 29%, respectivamente) e os escândalos de pedofilia clerical (32% vs. 19%, respectivamente) como sendo as principais razões para deixarem a Igreja”.

A rejeição das mensagens anti-LGBTs tem um índice mais alto do que a crise de abusos sexuais como um dos motivos para o abandono na Igreja Católica: 39% e 23% estatisticamente.

No cômputo geral (não apenas os católicos), o motivo número um para a saída foi “parar de acreditar nos ensinamentos da religião”, com o motivo número dois sendo “minha família não era muito religiosa”. O terceiro resposta que mais apareceu entre todos os participantes foi “os ensinamentos religiosos negativos ou o tratamento dispensado aos gays e lésbicas”. Dado o fato de que os dois primeiros motivos são altamente existenciais, ou seja, eles vão no cerne da crença pessoal e da tenra formação, o fato de que as questões LGBTs vêm logo depois do número dois acaba sendo mais significativo ainda.
A Igreja Católica tem sido a denominação mais duramente atingida por pessoas que se desfiliam da tradição religiosa. O relatório diz também:

“Enquanto os protestantes não brancos e grupos religiosos não cristãos permaneceram relativamente estáveis, os protestantes brancos e os católicos tiveram declínios, com os católicos sofrendo o maior entre os grandes grupos religiosos: uma perda de 10 pontos percentuais no geral. Quase um terço (31%) dos americanos informam terem crescido num lar católico, mas somente 1 a cada cinco (21%) dos americanos se identificam como católicos hoje. Uma parcela equivalente a 13% dos americanos informa que já foram católicos antes, e cerca de 2% dos americanos abandonaram suas tradições religiosas para se juntar à Igreja. Os protestantes evangélicos brancos e os protestantes históricos brancos estão também testemunhando um crescimento negativo, porém num grau muito mais modesto (-2 pontos percentuais e -5, respectivamente).

Estes números deveriam chamar a atenção dos líderes eclesiásticos católicos que continuam defendendo políticas e difundindo mensagens anti-LGBTs. Se não estão em condição de enxergar o quanto têm prejudicado outras pessoas com suas ações e palavras, pelo menos deveriam tomar nota de como estão prejudicando a instituição como um todo. Em vez de se preocuparem com a liberdade religiosa, deveriam se preocupar com a sobrevivência institucional.

Um dos detalhes mais significativos destes dados é que eles refletem a realidade de pessoas com idade entre 18 e 29 anos. Numa pesquisa, o comportamento e as opiniões da geração mais jovem são indicadores confiáveis de como o comportamento e a opinião serão no futuro. A pesquisa citada indica também ser improvável que estes jovens voltem à Igreja para se casar ou ter filhos.

O relatório mostra ainda que 58% dos participantes disseram rejeitar totalmente a religião, enquanto só 22% indicam ter uma visão positiva da religião, e 18% que dizem ter fé, mas sem participar de algum grupo religioso. A Igreja está fracassando diante da sua próxima geração ao não desenvolver uma forma de falar com autenticidade às questões mais urgentes dos jovens, como justiça e igualdade.

Michael Peppard, professor de teologia da Fordham University e autor do blog dotCommonweal, teceu uma bela análise do que poderia estar por trás deste êxodo na Igreja entre os jovens:

“A maioria das pessoas que seguem uma religião fazem avaliações morais por meio de uma combinação de apelos à revelação, à razão e à experiência. O que dizem as Escrituras e a Tradição? O que o meu pensamento lógico conclui? E o que vivenciei pessoalmente e que preenche estes mesmos argumentos? No caso do estatuto moral da homossexualidade, parece claro que, na década passada, alcançou-se um ponto de inflexão em que a razão e as experiências das pessoas sobrepuseram-se ao apelo à revelação”.

E Peppard deixou uma boa sugestão aos líderes eclesiásticos:

“E o que os líderes religiosos podem tirar de lição? Todo e qualquer comentário que um líder religioso fizer sobre os gays e lésbicas – desde um pronunciamento magisterial a uma pequena observação num púlpito ou em sala de aula – deve ser pensado tendo em mente as questões em jogo. Com relação à maneira como se fala de gays e lésbicas em ambientes católicos, não há margem para o erro. Toda expressão de negatividade e exclusão proferida no púlpito será ouvida nos bancos como uma afronta irremediável a amigos e familiares – ou à própria pessoa ali sentada. Na próxima semana, o mesmo banco estará vazio”.

Não exatamente discordando de Peppard, digo que os líderes religiosos precisam fazer mais do que simplesmente cuidar o que dizem. Eles precisam ser proativos na promoção de mensagens afirmativas e acolhedoras; precisam apoiar ideias, políticas e práticas pro-LGBTs, trabalhando pela igualdade, apoiando a não discriminação no trabalho e combatendo iniciativas anti-LGBTs. Se não começarem em breve, logo os seus prédios estarão vazios.

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