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Por: Ricardo Machado | 15 Setembro 2016

Um dos maiores inimigos dos bancos europeus não veste vermelho, não usa barbas e seu modelo mental de análise está longe da dialética esquerda-direita. Ao contrário, o sujeito que é encarado pelos economistas de mercado como um dos principais adversários ao sistema financeiro mundial é um francês de voz mansa, rosto afeitado e de modos discretos. Não obstante seu jeito calmo de estar em público, é contundente quando se trata de defender suas teses, sempre muito bem embasadas matematicamente. O homem que enfrenta os bancos armado de seus óculos de hastes finas e seus cálculos que constragem economistas se chama Gaël Giraud.

“Nossa missão histórica é fazer a transição ecológica. As gerações que viverão no final desse século nos considerarão heróis se tivermos êxito. O trabalho é difícil, pois essa transição é muito maior que a Revolução Industrial. Se fracassarmos teremos mais cinco graus na média da temperatura global no final de século, nossos filhos se perguntarão como fizemos isso”, avalia Giraud, durante a conferência O capitalismo vindouro e a sustentabilidade: os papéis da gestão e da economia que integrou a programação do IV Colóquio Internacional IHU - Políticas Públicas, Financeirização e Crise Sistêmica.


Gaël Giraud fala sobre a necessidade de uma transição energética (Fotos: Ricardo Machado/IHU)

Desafios

Em síntese, o desafio posto diz respeito à redução em dois terços da emissão de gás carbônico – CO2 (que é emitido pela queima de combustíveis fósseis). O problema é que 80% da energia consumida no mundo advém, justamente, do uso de petróleo, carvão mineral e gases, sendo que apenas a quinta parte dessa energia advém de fontes renováveis. Some-se a isso o fato de que já chegamos no Peak Oil (capacidade máxima) do modo convencional de extração de petróleo, sendo que os novos modos de retirada de combustível exigem mais gasto energético e com isso mais emissão de poluentes. “O debate, então, é quanto de energia conseguiremos gastar para tirar petróleo e a maior preocupção dos países ricos é que sem petróleo não há guerra, por isso eles fazem de tudo para tentar controlar o Mar Cáspio e estão dispostos a tudo, inclusive a matar as populações mais empobrecidas pelo aquecimento global, para arrancar até a última gota de petróleo”, problematiza Giraud.

Mar Cáspio

Não é suficiente conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preservação do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se simplesmente de redefinir o progresso (Laudato Si - 194)

A injustiça social é a injustiça global

As grandes questões ambientais e econômicas são alicerçadas no seguinte paradoxo: os países mais desenvolvidos economicamente são os que geram maiores impactos ambientais no planeta. Enquanto o Norte global dita as regras do mercado e descumpre protocolos internacionais de emissão de gases, os países meridionais tendem, ainda, a ter instituições políticas muito frágeis. “O sul do Vietnã foi invadido pelo aumento do nível das águas. As autoridades dizem que construirão diques, mas o aumento do nível do mar muda as correntes marítimas e os diques se tornarão completamente inúteis”, pondera Giraud.

O uso intensivo de agrotóxicos pode extinguir as abelhas em poucos anos. Esses insetos fazem um trabalho de polinização que sem ele a vida humana na terra torna-se impossível. “Há economistas estúpidos que dizem que isso é bom porque poderíamos aumentar o Produto Interno Bruto - PIB com a produção de robôs que fariam esse trabalho, só que isso não vai acontecer e o que vai ocorrer na prática é que teremos novamente escravos humanos para fazer esse trabalho a mão, porque a sobrevivência da humanidade estará em risco. Os pobres vão polinizar para os ricos”, critica.


Gaël Giraud em conferência e o público do encerramento do IV Colóquio Internacional IHU

(in)Eficiência - A grande utopia da economia neoclássica

Gaël Giraud é categórico ao afirmar que a prosperidade do mundo, por assim dizer, ocidental, deve-se exclusivamente ao consumo de energia, que levou ao crescimento do PIB e ao aquecimento global. “Talvez tenhamos que buscar soluções sem passar pelo PIB porque ele é um péssimo indicador. Do ponto de vista econômico o aumento do PIB está muito relacionado a satisfação das pessoas, mas a partir de 2 mil dólares isso é insignificante”, reitera.

Os financistas e banqueiros europeus acusaram o golpe ao reagir à publicação da Carta Encíclica Laudato Si', pelo Papa Francisco. “Se entendermos como funciona o sistema financeiro e o que custa ambientalmente o crescimento financeiro dos países ricos, concordaremos com o papa de que as pessoas responsáveis pelo colapso financeiro e ambiental são criminosas”, analisa.

A cultura do relativismo é a mesma patologia que impele uma pessoa a aproveitar-se de outra e a tratá-la como mero objeto, obrigando-a a trabalhos forçados, ou reduzindo-a à escravidão por causa duma dívida. É a mesma lógica que leva à exploração sexual das crianças, ou ao abandono dos idosos que não servem os interesses próprios (Laudato Si - 123)

Para Gaël, a economia ortodoxa não prova a eficácia do mercado, ao contrário, ela mostra a ineficiência do mercado quando estudada aprofundadamente. “O George W. Bush, em 2002, quando viajou ao Japão, disse em seu discurso que a economia japonesa estava em 'desvalorização' e os ativos financeiros em iene (moeda japonesa) perderam valor vertiginosamente. Todavia, os assessores de Bush ao escreverem o discurso erraram ao digitar a palavra 'desvalorização', porque eles queriam dizer 'deflação'”, exemplifica Gaël. “Tolices proféticas como esta ocorrem diariamente e isso mostra que a financeirização de nossas sociedades não tem base teórica nenhuma. Isso que estou dizendo não vem de nenhuma teoria marxista, produzida por um marxista barbudo, cabeludo etc. É teoria matemática pura. Até mesmo os liberais admitem que o mercado é irracional e por isso vivem nessa esquizofrenia”, complementa.


Gaël Giraud detalha suas inferências matemáticas sobre a necessidade de uma transição energética

Transição ecológica, uma realidade concreta

Da falsa utopia econômica neoclássica, de que é preciso crescer o Produto Interno Bruto - PIB para prosperar, mesmo que isso signifique danos ambientais irreversíveis, à realidade concreta da transição energética, há um caminho claro e objetivo, que o professor Gaël Giraud, divide em quatro partes. “Primeiramente precisamos descarbonizar a produção elétrica, isto é, reduzir o uso de combustíveis fósseis. Em segundo lugar devemos substituir os automóveis por trens e carros elétricos. O terceiro ponto é aumentar a eficiência energética das moradias e fazermos a renovação térmica para não precisarmos nem aquecê-los, nem refrigerá-los. E, por fim, preservar os poços de absorção de CO2, como a Amazônia”, propõe o economista e matemático.

Não se salva o mundo do dia para a noite, mas o processo de transição não é nem tão longo e nem tão caro como se poderia imaginar. “Um relatório que fizemos calculou que o custo para a transição ecológica seria de 90 trilhões de dólares, algo como uma vez e meia o PIB mundial, a serem gastos ao longo de 15 anos”, explica Gaël. “Isso parece muito dinheiro, mas como explicou o professor Boutang, um levantamento atual dos ativos financeiros futuros – títulos a serem liquidados futuramente – somam o valor de 700 trilhões de dólares, aproximadamente dez vezes mais que o custo da transição ecológica. Então, temos uma situação em que os investidores não sabem onde colocar esses recursos para se manterem rentáveis e, ao mesmo tempo, a necessidade de investimento na transição”, avalia o conferencista. 

Para Gaël Giraud, a saída da Ilusão Financeira, título de seu livro (São Paulo: Edições Loyola, 2015), passa por encarar a realidade concreta de frente. “ O que devemos fazer é trabalhar para colocar os investidores em conexão com a nossa realidade. Isso é a transição ecológica. É preciso trabalhar, mas a tarefa não é tão complicada assim”, finaliza.

Veja a conferência na íntegra

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