Terremoto na Itália: "Dizer o nome dos mortos já é uma oração." Entrevista com Domenico Pompili, bispo de Rieti

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30 Agosto 2016

"Eu não tenho palavras minhas para dizer para as pessoas. Eu digo as do Evangelho e as da proximidade humana. Eu choro com os que choram. Estamos todos aos prantos. A dor comum está enraizada nesse povo ao qual fui enviado há poucos meses. Agora, realmente, todos aqui são meus irmãos e filhos": assim fala Domenico Pompili, bispo de Rieti e dos municípios mais afetados pelo terremoto, Amatrice e Accumoli.

A reportagem é de Luigi Accattoli, publicada no jornal Corriere della Sera, 29-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor não sentiu o tremor assassino...

Eu estava em peregrinação a Lourdes e voltei imediatamente. Desde então, estou indo e vindo, abençoo os mortos, celebro a missa entre as pessoas que esperam para reconhecer os mortos na frente do necrotério de campo. Espero com eles e faço um sinal da cruz em cada um, abraço os vivos.

Aconteceram-lhe histórias particulares?

Muitas. Um padeiro me mostrou os três sacos ao lado dos quais ele estava sentado e me disse: "Esta é a minha esposa, estes são os meus filhos". Ele disse isso com uma naturalidade incrível e quase desmaiou assim que terminou de falar. E me contaram de duas cuidadoras: uma morreu na casa onde tinha acabado de começar a trabalhar, e a outra – aquela que a tinha substituído – morreu na casa onde tinha ido descansar. Eu ouço os relatos e me sinto dentro de cada história.

No sábado, o senhor estava na celebração que foi feita em Ascoli, onde foram nomeados todos os mortos: vocês farão o mesmo nesta terça-feira em Amatrice?

Vamos ler todos os nomes. Dizer o nome já é oração. E esperamos que, nessa terça-feira, quando serão seis dias do terremoto, os nomes estejam todos lá. Esperemos.

Disse-se que, ao contrário de Ascoli, onde a celebração ocorreu em um ginásio, na presença dos caixões, a celebração de vocês será um funeral ao ar livre e sem os corpos. É verdade?

Foi dito assim por causa do grande número de mortos e também por causa da falta de um espaço suficiente para acolher tantos caixões. É uma decisão tomada na sexta-feira, em um encontro de todas as autoridades, no qual também estava presente o secretário da Conferência Episcopal Italiana, Nunzio Galantino. Mas estamos nos perguntando se não deveríamos repensar essa decisão. Obviamente, vamos rezar por todos, estejam ou não os caixões, mas talvez seria bom que ao menos uma parte dos mortos estivessem, se possível e tanto quanto possível.

O papa telefonou-lhe várias vezes: quantas vezes?

Três. A primeira vez eu estava em Lourdes e me telefonou às 7h. Ele me contou que tinha sentido o tremor, tinha acordado, tinha se informado e tinha celebrado a missa por nós já às 4h da manhã. Era quarta-feira, e ele mencionou a ideia de fazer algo na audiência geral. Depois, outros dois telefonemas: ele quer saber, me pergunta quantas crianças foram salvas, quantos ficaram debaixo dos escombros. Ele pergunta mais do que eu sei. Ele se sente envolvido. Ele tinha vindo para cá algumas vezes, quase incógnito, em janeiro e em julho. Ele nos quer bem e, nesse domingo, anunciou que virá nos visitar assim que possível.

Que palavras o senhor vai dizer na homilia do rito dessa terça-feira?

Eu ainda não pensei nisso, como, aliás, não tinha pensado no que dizer nas três celebrações que eu já fiz em meio ao povo que chora. Nesse domingo, enquanto eu falava, veio outro tremor, e eu tive que interromper. O mesmo tinha acontecido no sábado, durante uma vigília fúnebre. Eu digo aquilo que me vem do coração, entre um tremor e outro.

O que o senhor espera para o futuro?

Que toda essa morte possa ser uma ocasião de redenção. Pelo número dos mortos, a nossa prova é semelhante à de L’Aquila, mas a situação ambiental é diferente: Amatrice é um pequeno centro. Aqui, podemos fazer mais e melhor na reconstrução. O drama desses dias também é o da falta de estradas e de pontes. Essa falta nos diz como este território foi abandonado por muito tempo. Quem sabe agora o abandono pode cessar.

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