"As fotos da dor alheia são uma dívida ética"

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30 Agosto 2016

"Olhando ou compartilhando um clique – os dois atos são muitas vezes inseparáveis –, sentimo-nos mais perto de quem sofreu; mas, talvez, em vez disso, nos afastamos. O sofrimento dos corpos está sempre tão disponível a ponto de parecer quase abstrato; e a coação a reproduzi-lo acaba em si mesma."

A opinião é do escritor italiano Giorgio Fontana, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 27-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nos últimos dois dias, eu observei, como todos, inúmeras fotografias do terremoto no centro da Itália. Edifícios destruídos, centros de acolhida, socorristas no trabalho, montanhas de escombros e, sobretudo, pessoas: as vivas – desesperadas, tremendo, sem casa – e as mortas. E, como sempre, me perguntei: são realmente necessárias todas essas imagens? E é realmente necessário rebatê-las continuamente nas mídias sociais?

Eu sei que é uma pergunta banal: a escolha de documentar a dor é menos problemática do que no passado e, muitas vezes, se traduz em uma multiplicação indevida. Isso acontece tanto por razões horríveis de cinismo ou por um costume ao relato do mal, mas não só. Talvez indultamo-nos tanto em relação a isso também por uma forma de exorcismo. Se eu o compartilho publicamente, posso, de algum modo, controlá-lo; pode inseri-lo em um esquema de denúncia coletiva – todos fazem isso – embora muitas vezes superficial.

É um rito como outro, frequentável em todos os momentos com um clique. Então, uma pergunta melhor poderia ser: o que nos dizem essas fotografias? Melhor: de que modo podemos educar o nosso olhar para que elas nos digam algo de substancial e duradouro?

O modo como observamos as imagens da catástrofe deveria se transformar de um rito coletivo voltado ao passado – uma missa digital que chora a tragédia e, depois, a remove – a um rito coletivo voltado ao futuro, ao compromisso, à prevenção. Talvez, pode não ser uma observação muito original, mas, enquanto eu olhava uma mulher ferida em lágrimas ao lado das ruínas, pensei que o nosso direito de observar essa dor devia ser pago com um dever: o de evitar que tal dor aconteça de novo no futuro. Caso contrário, é tudo em vão. A fotografia como dívida ética: pois bem, foi isto que aconteceu; nunca foi tão fácil de vê-lo e de mostrá-lo a outros; agora, o que se faz?

O ponto é que, olhando ou compartilhando um clique – os dois atos são muitas vezes inseparáveis –, sentimo-nos mais perto de quem sofreu; mas, talvez, em vez disso, nos afastamos. O sofrimento dos corpos está sempre tão disponível a ponto de parecer quase abstrato; e a coação a reproduzi-lo acaba em si mesma. Não cria uma comunidade ativa, mas apenas uma comunidade passiva, feita de indignação sumária, bastante breve, muitas vezes autoabsolutória. Quando o que ela deveria estimular – e que é documentado mais raramente – são os gestos concretos de solidariedade, as ajudas in loco, a tenacidade para resgatar os sobreviventes e, acima de tudo, um seriíssimo trabalho de prevenção. Porque os terremotos não são previsíveis, mas as zonas de perigo sísmico podem e devem se tornar mais seguras.

Nos dias posteriores aos trágicos acontecimentos de Nice, vários dos meus conhecidos citaram uma frase de Susan Sontag, tirada do ensaio "Imagens do desastre": "Vivemos sob a ameaça contínua de duas perspectivas igualmente assustadoras, embora aparentemente opostas: a banalidade ininterrupta e um terror inconcebível". A atualidade dessa afirmação é evidente e poderia ser aplicada, sem problemas, também ao recente terremoto. Como abrir caminho na complexidade do mundo e, ao mesmo tempo, prestar justiça à brutalidade repentina da violência que o atravessa? A fotografia parece ser uma resposta razoável: está ao alcance de todos, é compartilhável por qualquer pessoa em um instante e, aparentemente, não requer nem mesmo muitos raciocínios. Mas é justamente aí que reside o problema.

Porque poucos citam o que Sontag acrescenta, identificando na imaginação um remédio popular à dupla ameaça a que estamos submetidos: "Uma das coisas que a imaginação pode fazer é nos levantar da insuportável monotonia e nos distrair dos medos – atuais ou futuros – com uma fuga no exotismo de situações perigosas resolvidas alegremente no último minuto. Outra coisa que ela pode fazer é normalizar aquilo que é psicologicamente insuportável, acostumando-nos a ele. No primeiro caso, a imaginação embeleza o mundo; no segundo, neutraliza-o".

A escritora estadunidense se refere, principalmente, aos filmes de ficção científica de caráter apocalíptico, nos quais ela vê uma resposta banalizante da nossa incapacidade de reagir ao terror. E, quando o disaster movie entra em cena na realidade que está ao nosso redor, nós reagimos com uma meio instintivo, mas, no fundo, igualmente ineficaz da ficção científica de que Sontag fala: espalhando as imagens da catástrofe. Colocamo-la em cena por um pouco e as comentamos, esperando que isso nos baste para nos salvar. Permanecemos inertes diante do seu poder extremo, mas, assim, corremos o risco de nos privar da única verdadeira salvação: substituir a cega reprodução da dor por uma compreensão lúcida daqueles fatos e um compromisso cotidiano para impedir que se repitam. Para tornar o mundo um lugar mais habitável e menos injusto para os outros – para quem vive em uma área de risco, para quem foge de uma guerra, para quem é mais pobre ou sofre a desigualdade da nossa sociedade.

Em outro ensaio – "Na caverna de Platão"Sontag escrevia: "O limite do conhecimento fotográfico do mundo é que, se ele pode estimular as consciências, nunca pode ser, a longo prazo, conhecimento político ou ético. O conhecimento alcançado através das fotografias sempre será uma forma de sentimentalismo, cínico ou humanista".

A passagem de tal conhecimento superficial a um conhecimento mais profundo, engajado e politicamente ativo, certamente é cansativo; mas também indispensável.

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