Papa Francisco esforça-se para sustentar pedidos de perdão com ações

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30 Agosto 2016

Ações geralmente falam mais alto do que palavras, e dificilmente isso fica mais evidente do que quando um papa pede desculpas. O Papa Francisco já pediu inúmeras desculpas e sugeriu a necessidade de fazê-lo mais vezes. Quando o papa pede perdão, ele tenta alinhavar tais pedidos com atos, por exemplo sentando-se com as vítimas de redes de prostituição.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 15-08-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Pode ser um clichê, mas as ações geralmente falam mais alto do que palavras, e dificilmente isso fica mais evidente do que quando um papa pede desculpas.

No caminho de volta da Armênia no final de junho, o Papa Francisco sugeriu que os cristãos deveriam pedir perdão aos gays que foram ofendidos pela Igreja, aos pobres, às mulheres que foram maltratadas, às crianças exploradas pelo trabalho forçado, e por ter abençoado tantas armas – basicamente, todo aquele a quem a Igreja pôde ter ofendido.

Na sexta-feira passada, 12-08-2016, quando visitou um centro para mulheres resgatadas de redes de prostituição em Roma, o líder católico fez um pedido de desculpas por meio de atos e palavras, pedindo o perdão às mulheres ali presentes em nome do cristianismo pelo sofrimento que elas têm suportado.

Ainda que o Vaticano não tenha dado muitas informações sobre a visita – isso geralmente acontece em ocasiões consideradas privadas –, o padre italiano Aldo Bonaiuto, diretor espiritual da Comunidade Papa João XXIII que Francisco visitou, falou com a Rádio Vaticano.

“O papa usou palavras muito bonitas, mas ao mesmo tempo usou palavras fortes: ele pediu por perdão em nome de todos os cristãos pela violência e pelas maldades que estas mulheres vêm sofrendo”, disse Bonaiuto.

Nos últimos três anos, o pontífice argentino tem sido um dos líderes mundiais mais destacados no tocante ao tráfico humano – atividade ilegal que afeta mais de 40 milhões de pessoas, que são forçadas a trabalhar em condições análogas à escravidão.

Por repetidas vezes Francisco chamou essa prática de “um crime contra a humanidade”.

Pondo em prática aquilo que diz, Francisco reuniu líderes religiosos de todas as principais religiões no Vaticano para subscreverem uma declaração conjunta contra o tráfico humano. Ele igualmente convocou prefeitos de algumas das cidades mais importantes do mundo – entre elas: Nova York, Paris, Roma e Madri – para fazerem o mesmo, e no início do ano realizou uma oficina com mais de 100 juízes de todo o planeta para apontar os holofotes sobre flagelo do tráfico de pessoas.

O cardeal australiano George Pell, nomeado por Francisco como secretário para a economia, prometeu se certificar de que sua cadeia de fornecedores seja livre de trabalho análogo à escravidão, num encontro em Roma que reuniu líderes de alguns dos maiores supermercados do mundo para tratar do assunto.

Francisco está longe de ser o primeiro papa, evidentemente, a pedir desculpas em nome da Igreja.

Sem ir muito longo no tempo, São Papa João Paulo II em 1998 fez no mínimo 94 pedidos de desculpas, catalogados pelo jornalista italiano Luigi Accattoli na obra “Quando o papa pede perdão” (Paulinas, 1998). Os motivos para este ‘mea culpa’ eram variados: desde o silêncio e inação de católicos individuais durante o holocausto até o julgamento da Igreja contra o cientista católico Galileu Galilei.

Dois anos depois, em um “Dia do Perdão” durante o Grande Jubileu do Ano 2000, São Papa João Paulo II se desculpou em nome da Igreja pelos pecados de seus próprios filhos e filhas contra judeus, hereges, mulheres, ciganos e povos nativos.

O então Cardeal Joseph Ratzinger, que mais tarde seria eleito Papa Bento XVI, ajudou a dar um marco teológico para o pedido de desculpas por meio de um documento chamado “Memória e Reconciliação: a Igreja e as culpas do passado”. Um dos primeiros tópicos foi a reafirmação de que, embora emitida em nome da Igreja, o pedido de desculpas na verdade era pelas maldades de cristãos individuais, porque a Igreja em si é sempre santa.

(No avião de volta da Armênia em junho, Francisco fez a mesma distinção.)

O gesto de João Paulo II continua sendo o pedido de desculpas mais abrangente feito nos tempos modernos por algum líder mundial.

Muito embora sendo um apoiador da tendência de João Paulo II em pedir desculpas, Bento XVI foi mais cauteloso quando se tratou de pedi-las por ele mesmo – porém, como Francisco, ele também sustentou a maioria dos pedidos que fez de forma prática.

Para dar um exemplo: em 2010, o papa alemão proferiu o que foi considerado um pedido de desculpas inédito na forma de uma carta, de 8 páginas, dirigida às vítimas de pedofilia na Irlanda. Nela, o pontífice admitia “a vergonha e o remorso que todos sentimos” pelos “atos pecaminosos e criminosos” cometidos por padres ou religiosos.

Ele admitiu que aqueles anos de crimes cometidos pelo clero e por católicos leigos em escolas e orfanatos aniquilaram a fé na Igreja, e foi bastante duro quanto à maneira como a Igreja irlandesa tinha lidado com os casos de abuso.

Dirigindo-se às vítimas e seus familiares diretamente, Bento XVI falou: “Sei que nada pode cancelar o mal que suportastes. Foi traída a vossa confiança e violada a vossa dignidade”.

No papado de Bento, o Vaticano laicizou mais de 800 padres por abusos sexuais e mais de 2.500 receberam algum tipo de punição, como a de viver uma vida de penitência e oração, ou a proibição de realizar ministérios públicos.

O Papa Francisco pediu desculpas pelo crime de abuso sexual cometido pelo clero também, e sustentou as suas declarações com ações – embora, como normalmente é o caso quando o escopo do pedido é grande demais, muitos consideraram tais atos como insuficientes.

Por exemplo, em setembro do ano passado, ao se encontrar com um grupo de sobreviventes de abusos sexuais na Filadélfia, Francisco manifestou um “profundo pesar” com a traição que as vítimas haviam sofrido, pelas vezes que a Igreja ignorou os sobreviventes e suas famílias que se pronunciavam sobre o tema e a culpa de alguns bispos em suas responsabilidades de proteção aos menores.

“Comprometo-me a seguir o caminho da verdade, onde quer que nos possa levar. Clero e bispos terão de prestar contas das suas ações, quando abusem ou protejam os menores”, disse ele.

Em 2013, Francisco lançou uma pontifícia comissão para a proteção dos menores destinada a auxiliar na implementação de diretrizes que visam prevenir casos de pedofilia. Ele também criou um tribunal, ainda a ser composto, para supervisionar as prestações de conta dos bispos ao redor do mundo e, numa tentativa de aumentar a conscientização, ele continua trazendo o tema em alocuções semanais do Angelus aos domingo.

Uma outra questão pela qual Francisco se desculpou várias vezes são os “escândalos que abalaram o Vaticano”, fossem eles de natureza sexual ou econômica. Ele fez um pedido de desculpas nesse sentido, por exemplo, uma semana depois que um funcionário vaticano fora objeto de manchetes nos jornais ao assumir ser gay e ao denunciar o tratamento da Igreja à comunidade LGBT.

Numa tentativa de resolver estas coisas, Francisco criou uma comissão de nove cardeais assessores que o ajudam na reforma da Cúria; lançou também várias iniciativas que buscam garantir uma transparência financeira da Santa Sé. 

Resta saber se o papa irá explicitamente pedir perdão à comunidade LGBT, conforme deu a entender em julho – e, se o fizer, resta saber quais ações ele poderá estar preparado para tomar no intuito de sustentar um pedido nesse sentido. Uma coisa, no entanto, parece clara: para Francisco, da mesma forma como aconteceu com seus dois antecessores, ser papa nãos significa jamais ter de dizer que está arrependido.

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