Xadrez da delação que ficou pairando no ar

Revista ihu on-line

Populismo segundo Ernesto Laclau. Chave para uma democracia radical e plural

Edição: 508

Leia mais

Gênero e violência - Um debate sobre a vulnerabilidade de mulheres e LGBTs

Edição: 507

Leia mais

Os coletivos criminais e o aparato policial. A vida na periferia sob cerco

Edição: 506

Leia mais

Mais Lidos

  • Os filhos dos padres: a nova investigação da equipe Spotlight

    LER MAIS
  • Para compreender a Sociedade do Espetáculo

    LER MAIS
  • Lutero, o “desbravador” da Modernidade

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

25 Agosto 2016

Os últimos capítulos da Lava Jato - com a emocionante refrega entre o Ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, e o Procurador Geral da República Rodrigo Janot - trazem uma montanha de informações para quem aprendeu a ler além do meramente factual. O comentário é de Luis Nassif, jornalista em análise no jornal GGN, 24-08-2016.

Eis a análise.

Vamos a algumas conclusões e algumas explicações sobre a capa da Veja sobre Dias Toffoli e sobre a suspensão da delação da OAS pelo PGR.

Como se recorda, era uma denúncia tão anódina que a própria reportagem tratava de desqualificar. Mesmo assim, serviu de álibi para que o PGR suspendesse a delação de Léo Pinheiro, da OAS.

O Xadrez de Toffoli e o fruto da árvore envenenada (http://migre.me/uKQMH)

O Xadrez do empate vitorioso de Gilmar e Janot (http://migre.me/uKQNQ)

Sobre disputas e concordâncias

Alguns leitores tendem a ver tudo como uma jogada ensaiada, com roteiro e ações combinadas. Não é bem assim. Há as grandes linhas e posições prévias, pontos em comum, pontos discordantes entre os personagens envolvidos na trama. Em torno deles, movimentos que acontecem ao sabor das circunstâncias.

Gilmar e Janot discordam em quase tudo que se relaciona com Ministério Público Federal. As pancadas de Gilmar na Lava Jato e em Sérgio Moro são reais. Gilmar é tido no MPF como inimigo da corporação, mesmo sendo originário dela. Dai o apelido de Darth Vader, com que se referem a ele.

Gilmar é adversário figadal dos poderes do MPF, mas tolerou a Lava Jato enquanto ela foi politicamente útil. Além disso, ambos – Gilmar e Janot - têm em comum a participação na frente para derrubar a presidente Dilma Rousseff. Daí o fato de Gilmar se manifestar apenas quando a Lava Jato chega perto do PSDB. E também estão juntos na provável vontade de anular a delação da OAS, Gilmar por solidariedade partidária, Janot um pouco por afinidade com Aécio Neves, um pouco para afastar de si esse cálice.

Não se pode afirmar que o vazamento da denúncia anódina contra Toffoli tenha sido uma ação combinada entre ambos. Quem vazou queria anular a delação.

Por outro lado, Janot enfrenta o dilema, sobre como anular a delação da OAS (que, pelos rumores, seria fatal para José Serra e Aécio Neves) sem confirmar as suspeitas gerais sobre o facciosismo da Lava Jato. A capa da presunção da isenção é essencial para que a Lava Jato prossiga com sua parcialidade. Tem que anular sem ficar mal na fita.

A saída encontrada foi aproveitar o empurrão da capa da Veja para ensaiar um salto maior: suspender a delação, imputando a responsabilidade aos advogados da OAS.

O que essa barafunda nos informa?

Informação 1 – a desculpa canhestra de suspender a delação mostra que Janot foi apanhado de surpresa pela capa da Veja.

Caso contrário teria pensado em um álibi mais elaborado. Não terá como explicar a falta de atitudes em relação aos 17 vazamentos anteriores.

Sobre a menção a Toffoli na pré-delação de Leo

Segundo a Folha de ontem (http://migre.me/uKOyA), "o episódio ligado a Toffoli foi mencionado em conversas preliminares entre OAS e investigadores, mas ficou de fora dos capítulos da delação por falta de indícios da empresa contra o ministro do Supremo".

O que esse trecho nos informa:

Informação 2 – os procuradores da Lava Jato sabiam da declaração vazada para Veja.

Ao contrário do que Janot afirmou – que a PGR e o MPF não dispunham da informação, logo não poderiam tê-la vazado - os procuradores da Lava Jato tinham essa informação, sim. Janot recorreu a uma meia verdade: não dispunham de informação oficial. Faltou com a outra metade da verdade: a de que os procuradores ouviram de Léo Pinheiro esse fato. Então tinham a informação e poderiam ter vazado. Alguém de dentro pode ter vazado, não o conjunto da Lava Jato.

Golbery do Couto e Silva dizia que a mentira é muito mais interessante que a verdade, porque esconde algum motivo. E São Tomas de Aquino dizia que uma das formas de mentira era não contar toda a verdade.

Se se somar a isso

* as afirmações de procuradores, de que aceitariam apenas mais uma delação de empreiteira;

* o fato de não terem permitido que os delgados da Polícia Federal assistissem os depoimentos de Léo Pinheiro;

* a posição do juiz Sérgio Moro, de interromper os trabalhos para analisar a delação da OAS,

chega-se à conclusão de que se depararam com bomba de alta octanagem, piscaram e ficaram planejando como se livrar da bomba. Mas nada indica que tenha sido um vazamento da Lava Jato.

Informação 3 Léo Pinheiro foi induzido pelos procuradores a encontrar algo que comprometesse Toffoli. Mas não tinha.

A troco de quê, Léo Pinheiro iria levantar tema tão anódino nas conversas preliminares? O que é mais factível:

Alternativa 1 - Do nada Léo Pinheiro dizer que Toffoli pediu conselhos sobre a impermeabilização da sua casa, ele indicou uma empresa, mas quem pagou foi o Toffoli. E os procuradores questionariam: e daí?

Alternativa 2. Os procuradores indagaram se ele não teria nada contra Toffoli e a única coisa de que ele se lembrava era de ter dado conselhos a Toffoli sobre impermeabilização.

É evidente que do nada, Pinheiro não levantaria uma informação que não significava nada. A única explicação é que foi instado a falar qualquer coisa sobre Toffoli, por indução dos procuradores, e só se lembrou desse episódio insignificante. A Alternativa 2 é a correta.

Informação 4 – os procuradores pautam as delações.

Esse pormenor reforça as versões que circulam sobre os métodos de delação da Lava Jato. Primeiro, há uma conversa informal, não gravada, na qual os procuradores passam dicas aos réus sobre os temas de seu interesse.

Sobre Lula, nem é necessário enfatizar. Mas se alguém é crítico da Lava Jato, político, advogado ou blogueiro, ou Ministro do Supremo, eles indagam do réu se não teria nada a oferecer sobre o crítico em questão. Mesmo sendo irrelevâncias, serve para assassinatos de reputação na mídia. O caso Gilberto de Carvalho é típico.

Informação 5 - Rodrigo Janot tem pleno controle sobre os vazamentos de informações.

Vazamento é como caixa 2 de empresa: não entra na contabilidade. Conforme levantamento do GGN, até hoje foram pelo menos 17 delações vazadas (http://migre.me/uKXP9). Então, para ter agido com tal presteza, de imputar de bate-pronto o vazamento aos advogados da OAS, significa que Janot tinha plena certeza de que nenhum dos 14 procuradores da força-tarefa vazou.

Se tem controle sobre o que não vazaram, obviamente sabe sobre o que vazaram. Faz sentido?

Resultado final

Gilmar atribui o vazamento aos procuradores; Janot rebate dizendo que foi estelionato informacional. Marco Aurélio Mello entra no meio e diz que tem que se apurar o vazamento. A imprensa regurgita impropérios de lado a lado.

No que importa: o candidato a delator Léo Pinheiro compareceu a uma audiência e nada falou, porque o acordo de delação está suspenso. Ponto para Gilmar, ponto para Janot.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Instituto Humanitas Unisinos - IHU - Xadrez da delação que ficou pairando no ar