Farrell diz que Francisco quer ouvir os leigos, não só bispos e padres

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24 Agosto 2016

Inicialmente Dom Kevin Farrell, de Dallas, pensou que era uma pegadinha quando lhe disseram em maio que o Papa Francisco estava ao telefone, mas de fato era ele convidando Farrell para dirigir um novo departamento Vaticano. Em parte, suas ordens são assegurar que os leigos ocupem postos de destaque no Vaticano e ajudar o papa a ouvir os fiéis diretamente.

A entrevista foi publicada por Crux, 22-08-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Às vezes, quando novas nomeações para o Vaticano são anunciadas, não fica claro quem é o responsável por trás delas nem quem as executa. De forma alguma esta é a situação com o Dom Kevin Farrell, de Dallas, designado semana passada para ser o primeiro prefeito do novo dicastério dedicado a leigos, à família e à vida.

Nesse caso, está bastante claro quem defendeu a nomeação: o próprio Papa Francisco.

“Em algum dia do mês de maio, a minha secretária entrou em meu local de trabalho, porque eu não havia atendido o telefone; ela disse que o papa estava na linha”, lembra Farrell. “Eu disse: ‘Ah, ok. Com certeza.... Provavelmente um dos meus amigos bispos ou padres está no telefone imitando o papa’”.

De fato, era mesmo Francisco, que acabou apresentando a Farrell o que deseja vê-lo fazer em sua nova função no Vaticano, a qual o prelado provavelmente vai assumir no começo de outubro.

“O Santo Padre gostaria de ver mais leigos e leigas envolvidos na administração da Igreja em Roma”, disse Farrell sobre suas comunicações com o pontífice, que continuaram quando ele fez uma visita ao papa em junho em Roma.

“Em geral, na Cúria Romana ele gostaria de ver leigos e leigas em postos mais destacados”.

Farrell igualmente falou que Francisco quer que sejam abertos canais de comunicação e consulta com o laicato católico.

O prelado citou o papa, que teria dito: “Ouço todos esses órgãos consultivos que tenho aqui no Vaticano, mas gostaria de ouvir os leigos também”.

O bispo de Dallas falou nesta segunda-feira, 22-08-2016,  ao programa de rádio “The Crux of the Matter”. A seguir, reproduzimos alguns excertos da entrevista.

Eis a entrevista.

O senhor desconfiava que estava sob consideração do papa para assumir este cargo?

Não. Eu não fazia absolutamente ideia de que isso poderia acontecer. Vou a Roma com regularidade, tenho um irmão que mora lá a vida toda. [Dom Brian Farrell, secretário do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos]. Eu vou aí, me queixo sobre a burocracia vaticana, e ninguém nunca deu a entender que eu poderia ser indicado. Nunca ninguém falou comigo sobre isso.

Como soube do convite?

Em algum dia do mês de maio, a minha secretária entrou em meu local de trabalho, porque eu não havia atendido o telefone; ela disse que o papa estava na linha. Eu disse: “Ah, ok. Com certeza.... Provavelmente um dos meus amigos bispos ou padres está no telefone imitando o papa”. E era realmente o papa. Peguei o telefone e falamos (...). Eu não sabia por que ele estava telefonando. Fiquei com a língua presa naquele momento. Simplesmente não sabia o que dizer.

Ele passou a dizer que gostaria de me ver ir a Roma e liderar o novo dicastério que ele estava criando. E falou: “Algumas pessoas me disseram que és a pessoa certa para este trabalho. E eu gostaria que o fizesse”.

Respondi com cinco motivos pelos quais eu não seria a pessoa certa, e ele falou: “Bom, por que não pensas sobre a proposta por alguns dias, e então nos falamos de novo?”.

Qual foi o seu melhor argumento para dizer que o senhor não era a pessoa certa?

Antes de tudo, eu nunca trabalhei em Roma. Não sei bem sobre como é trabalhar aí. (...) E meio que sempre me mantive distante do funcionamento do Vaticano. Não escrevo livros sobre a família, ou sobre a Amoris Laetitia e coisas assim. [Amoris Laetitia é um documento escrito pelo papa sobre a família após as conclusões de dois Sínodos dos Bispos sobre o tema.

Eu simplesmente não parecia ser a pessoa certa, e não conseguia me ver nesse posto.

Também contei que me achava velho demais para o cargo [Farrell está com 68 anos de idade], portanto ele precisava de alguém mais jovem. Tentei convencê-lo disso. Disse que temos alguns bispos ótimos nos EUA caso ele precisasse de um americano, pessoas que poderiam fazer um trabalho muito melhor do que eu.

Obviamente, ele não aceitou a ideia…

Não, não aceitou. Acabou que eu fui a Roma falar com ele, no começo de junho. Conversamos por quase duas horas. Ele falou das muitas coisas, das muitas intenções, que gostaria de ver sendo feitas. Como sabemos, ele é bastante persuasivo! Então, acabei aceitando o trabalho.

Falaram em espanhol?

Sim, sempre que falei com ele, o que não foi muitas vezes, foi em espanhol.

Depois dessa conversa em Roma, fiquei um tempo sem ter notícias. Daí então o papa ligou e me disse que estaria fazendo o anúncio no dia 17 de agosto.

Pode-nos dizer um pouco sobre a visão que o papa apresentou, ou o que ele quer que seja feito?

Antes de tudo, o Santo Padre quer ver os leigos e leigas mais envolvidos na administração da Igreja em Roma. Esse é um ponto que ele comentou várias vezes. Ele disse: “Até mesmo o Pontifício Conselho para os Leigos tinha pessoas trabalhando logo depois do Concílio Vaticano II, pessoas que tinham funções importantes aí”.

Lembremos de Rosemary Goldie, leiga australiana que atuou no Conselho para os Leigos a partir de 1967.

Exatamente.

Então, de repente, o Conselho se clericalizou. O papa quer mudar isso, em todos os departamentos. Ele me falou sobre como, na Cúria Romana em geral, ele gostaria de ver mais leigos em cargos de destaque. Ele quis se certificar de que eu iria estar buscando isso. Esse desejo está escrito no estatuto.

Quando se trata das famílias, o papa quer, e eu também, ver o documento Amoris Laetitia sendo uma força condutora do novo dicastério. É surpreendente que esse documento seja fruto de dois Sínodos, e que não eram os mesmos bispos nas duas edições. Amoris Laetitia é a conclusão desse processo, portanto precisa conduzir o trabalho pastoral da Igreja no futuro.

Já falamos sobre os leigos e a família. Como o senhor vê o componente “vida” neste seu trabalho?

Penso que existem muitas ameaças à vida hoje. Vou gostar muito, e farei um esforço, de promover o respeito pela vida humana e pela dignidade de toda a vida humana ao redor do mundo na Igreja Católica.

Não estou bem familiarizado com o que cada um destes departamentos faz no momento, então obviamente haverá um período de aprendizado. Preciso entender exatamente o que eles fazem, e continuar com o bom trabalho que desempenham. A ênfase está no que precisa ser feito para o futuro. Não posso falar do que irei fazer até eu chegar lá e saber o que já foi feito. Como disse, não tenho muita familiaridade com os trabalhos internos de muitos desses departamentos.

O seu irmão já lhe deu algumas ideias?

Sim, tenho algumas ideias dele.

Basicamente, eu gostaria que os leigos e leigas se envolvessem mais. Gostaria também de que nos adaptemos à realidade do mundo atual, e que as nossas comunicações sejam tais que todas as pessoas, pessoas de todos os níveis, possam entender o que estamos dizendo e o que estamos tentando fazer.

Da mesma forma, é preciso ter em mente que este dicastério é aquele que organiza a cada três anos a Jornada Mundial da Juventude e, também, o Encontro Mundial das Famílias, cuja última edição foi aqui nos EUA, na Filadélfia.

Em tudo isso, pretendo consultar os leigos. É isso o que o Santo Padre ressaltou, e é isso o que pretendo fazer. A certa altura, ele na verdade me disse, e eu achei bem interessante: “Ouço todos esses órgãos consultivos que tenho aqui no Vaticano, mas gostaria de ouvir os leigos também. Tenho bispos e padres que me dizem o que os leigos pensam, mas eu gostaria de ouvir isso das pessoas”.

Já tem ideias criativas de como fazer essas coisas acontecerem?

Sim, tenho. Tenho alguns pensamentos, mas é melhor esperar para ver exatamente o que acontece nesses departamentos e quem são os membros desses órgãos consultivos que atualmente existem e que cessarão de existir no dia 1º de setembro.

Por curiosidade, o senhor irá ficar na casa junto com o seu irmão até encontrar um lugar para morar?

Eles deverão me dizer em algum momento, por volta do início de setembro, onde poderei morar. Até aí, sim, vou ficar com o meu irmão, que mora no Sant’Ufficio. [Construção que abriga a Congregação para a Doutrina da Fé, antigamente conhecida como “Santo Ofício”.] Ficarei no seu apartamento, espero que por apenas um breve período de tempo.

É compreensível, ninguém deseja compartilhar um quarto por muito tempo com os seus irmãos... Uma pergunta diferente: Normalmente quando se nomeia um novo prefeito para algum dicastério, a pessoa também é designada a arcebispo e recebe uma sé titular. O senhor sabe por que isso não acontece neste caso?

Não faço ideia. Nunca parei para pensar nisso. (...) Ninguém nunca me explicou, nem me perguntou, sobre essa questão. Estou até interessado agora.

Uma última pergunta: O senhor se considera irlandês, americano, irlandês-americano, ou todas as alternativas? [Farrell nasceu em Dublin e cresceu na Irlanda, mas passou os últimos 31 anos nos EUA, 14 como bispo.

Penso que sou um americano que nasceu na Irlanda!

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