Uma revisão de mentalidade para as religiões monoteístas. Artigo de Marco Garzonio

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16 Agosto 2016

"No seu interior, as três religiões monoteístas são chamadas a realizar uma profunda revisão de costumes, mentalidades, religiosidades. Sem atacar as verdades de fé, elas devem reiterar que são os atos individuais e coletivos que qualificam identidades, pertencimento, fidelidade a Deus, não dados sociológicos, culturais, étnicos."

A opinião é do psicólogo italiano Marco Garzonio, presidente do Centro Italiano de Psicologia Analítica e sócio-fundador da Associação Italiana para a Sandplay Therapy (AISPT). O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 13-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As condenações políticas do terrorismo e a solidariedade de instituições religiosas às vítimas importam. Mas olhar para além da crise, não ceder aos medos, espalhar sementes de esperança e clareza requer um suplemento de alma que pode vir do cristianismo, do judaísmo, do Islã.

O ponto de partida é a consciência de que estamos vivendo uma espécie de dupla religião e de que devemos responder a um pertencimento plúrimo. Isto é, como cristãos, muçulmanos, judeus, vivemos uma fé baseada em uma religião histórica específica, cada uma dotada de referências espirituais e éticas que conferem identidade, ditam comportamentos, criam ocasiões de encontros, das quais podem decorrer diálogos e entendimentos, mas também tensões, conflitos, guerras.

Ao mesmo tempo, somos cidadãos do mundo, membros daquela espécie de "religião universal", cara aos iluministas, baseada nos direitos individuais. Uma visão que coloca o ser humano no centro e exige tolerância, liberdade de pensamento, igualdade.

Fatos trágicos, junto com moralidade privada e pública, vida cotidiana, escolhas dos Estados, organizações internacionais, economia são lugares de contraste entre religiões históricas e a série de direitos que a sociedade secularizada dilatou nas aspirações dos indivíduos em relação à Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948).

Um nó do contraste está da natureza da experiência religiosa. Em síntese: as três grandes religiões monoteístas reivindicam estabelecer aquilo que é verdadeiro, a ser afirmado, e aquilo que, ao contrário, é falso, a ser condenado e combatido. E, como todas as três têm Abraão como patriarca, mas depois professam três modalidades diferentes através das quais Deus se manifestou na história, elas abriram duas frentes: uma interna, especificamente das relações entre cristãos, judeus, Islã, e a outra em relação a quem não acredita.

Devemos nos perguntar o que as três religiões podem fazer hoje para que as categorias de "verdade" e de "fidelidade" sejam vividas na dimensão de valor e experiência espiritual, sem beirar a violência verbal e física dentro das fés individuais (anátemas e aniquilação do outro), nas relações com as confissões que honram a Deus de modo diferente, diante do mundo que não se define nem mesmo mais como ateu.

A experiência fala de tentativas preciosas. Os católicos com o Concílio, herança de aspirações, elaboração de um pensamento, aplicações posteriores; os protestantes com uma teologia avançada e movimento ecumênico; os ortodoxos, com a libertação de uma visão ou muito espiritualista ou contígua ao poder (pense-se no papel dessa Igreja em relação ao pós-comunismo). O judaísmo, através da constituição do Estado de Israel, serviu um pouco como paradigma da necessidade de encontrar um equilíbrio entre teologia e política. O Islã, em vez disso, ficou fora desse processo, como religião predominante em países vítimas do colonialismo, depositários de fontes energéticas, com governos fechados e pouco interessados com temas como os direitos.

Para ir além, as religiões históricas têm pela frente alguns desafios nas relações entre si e internamente. É preciso procurar pontes, como estão fazendo o Papa Francisco, o Patriarca Kirill de Moscou (que finalmente se encontrou com o pontífice romano, em Cuba), Bartolomeu I (que foi para Lesbos com Francisco), os muçulmanos da França que reagem ao crime de Rouen na igreja com os católicos, os judeus que testemunham proximidade aos cristãos vítimas de atentados e pedem reciprocidade quando Israel é atacado.

Mas é no seu interior que as três religiões monoteístas são chamadas a realizar uma profunda revisão de costumes, mentalidades, religiosidades. Sem atacar as verdades de fé, elas devem reiterar que são os atos individuais e coletivos que qualificam identidades, pertencimento, fidelidade a Deus, não dados sociológicos, culturais, étnicos.

É um desafio difícil, que pode suscitar dúvidas e impopularidade, como aconteceu quando Francisco, diante da morte do sacerdote de Rouen, condenou o ato humano delituoso, não o ser muçulmano do assassino. Até notar que até mesmo cristãos "batizados" cometem feminicídios.

Aos fiéis, cabe refletir sobre a responsabilidade individual e de grupo, além da taxa de ortodoxia das práticas de fé. Sem desvios relativistas, é preciso temperar modos que pertencem à história, conteúdos essenciais, "sinais dos tempos". Estes, para aqueles que se dizem descendentes de Abraão, vêm de Deus e devem ser entendidos. Caso contrário, prevalecem afirmações de si, poder e, infelizmente, violência, que, no fim, todos condenam.

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