A política, quando é feita pelos novos usurpadores do Estado, é permitida

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12 Agosto 2016

“Não estaria no horizonte de um grego, nem em seu pior pesadelo, usar as Olimpíadas, espaço no qual se celebrava a excelência da potência humana e de sua perfeição, para cultuar uma vida sem qualidade política, vida reduzida à mera vida animal dos corpos adestrados e, na maioria das vezes, unidimensionais, vida reduzida à zoé”, escreve Vladimir Safatle, professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 12-08-2016.

Segundo ele, “mas é, afinal de contas, esta a vida que alguns querem nos oferecer: uma vida sem política, talvez porque assim eles podem continuar com mais facilidade a fazer política à sua maneira, a nos empurrar suas ideologias e naturalizar suas práticas de usurpação do Estado e de governo oligárquico”.

Eis o artigo.

Dentre os maiores feitos olímpicos brasileiros nestes últimos dias esteve a medalha de ouro em silenciamento, disputada em jutas renhidas contra Rússia e Arábia Saudita. A tática brasileira foi infalível, fruto de anos de aprimoramento técnico contínuo no qual a violência bruta foi trabalhada a fim de perder seu azedume graças a doses do mais puro cinismo. Com essa nossa mistura, essa nossa miscigenação na qual a violência vem amansada pelo cinismo, somos imbatíveis.

Vejam, por exemplo, o caso dos torcedores "convidados a se retirar" por insistirem em portar perigosos cartazes com dizeres como "Fora, Temer" no interior do espaço sagrado dos templos olímpicos. Se fosse na terra do velho Putin, eles já estariam na cadeia, saindo dos estádios algemados e de cabeça baixa. Mas no Brasil a coisa toda é feita com muito mais gingado.

Dois soldados do Exército, com metralhadora na mão e dedo no gatilho chegam junto ao elemento, falam manso "pedindo" para o referido retirar o cartaz, e, caso o recalcitrante continue sua prática ilícita, ele será escoltado para fora do recinto por tentar macular o espaço olímpico, no qual se celebram a união nacional e a reconciliação do povo com seus heróis e com suas cadeias de televisão, com questões políticas miseráveis.

Questões estas, é sempre bom lembrar, proibidas segundo a nova lei que visa imunizar locais de culto esportivo contra o vírus da sedição e da revolta. Coreografia perfeita, medalha de ouro mais que merecida. Volta para casa, Putin, porque aqui não tem para mais ninguém.

Mas, vejam que interessante. Na abertura da tal Olimpíada, o mundo foi obrigado a ouvir a velha ladainha política de sempre a respeito do país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, no qual todas as raças, no qual a favela e o asfalto, no qual todos os gêneros se encontram em uma conciliação multicultural poligenerosa. Se há um discurso político neste país, fruto de uma ideologia cultural secular baseada no silenciamento das contradições e da violência dos conflitos, ei-lo aqui.
Sim, foram horas de discurso político e ideológico, pagos por mim e por você, travestido de show pirotécnico. Até onde eu saiba, ninguém foi preso ou convidado a se retirar do recinto por isto. Ou seja, a política, quando é feita pelos novos usurpadores do Estado, é permitida. Fora disso, é crime.

Não deixa de ter lá sua ironia que isto tenha como palco a Olimpíada. Os gregos tinham dois termos para "vida": zoé e bios. O primeiro estava frequentemente associado a mera vida própria à vida animal em sua nudez biológica, por isto era partilhada tanto pelos humanos quanto pelos animais, enquanto o segundo, com frequência se referia à vida social para a qual os humanos estavam destinados. Bios era assim, preferencialmente, a vida que possui qualidade política, que resulta do uso da palavra (logos) pois é fruto da deliberação humana a respeito de formas de vida. Bios é frequentemente a vida na pólis.

Vale a pena lembrar isso porque não estaria no horizonte de um grego, nem em seu pior pesadelo, usar as Olimpíadas, espaço no qual se celebrava a excelência da potência humana e de sua perfeição, para cultuar uma vida sem qualidade política, vida reduzida à mera vida animal dos corpos adestrados e, na maioria das vezes, unidimensionais, vida reduzida à zoé.

Mas é, afinal de contas, esta a vida que alguns querem nos oferecer: uma vida sem política, talvez porque assim eles podem continuar com mais facilidade a fazer política à sua maneira, a nos empurrar suas ideologias e naturalizar suas práticas de usurpação do Estado e de governo oligárquico.

É singular que nosso país seja atualmente atravessado por tentativas de retirar a política das esferas de visibilidade da vida, da frente das câmeras, das escolas. A pior política é aquela que não diz seu nome, que fala sem se assumir como tal ou que fala através de seus silêncios impostos. Contra isso, sempre foi questão de associar a política ao logos, ou seja, à fala, à capacidade de dizer e de mostrar em todo e qualquer espaço público. Por isso, como dizem 62% da população brasileira que pedem eleições o mais rápido possível: "Fora, Temer".

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