"Não existe mais a diversidade da esquerda. Os partidos se tornaram máquinas de poder e de clientela." Entrevista com Eugenio Scalfari

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05 Agosto 2016

"Foi a mais importante das minhas entrevistas com Enrico Berlinguer", recorda Eugenio Scalfari, 35 anos depois (na foto, respectivamente, à esquerda e à direita). "Pela primeira vez, o secretário do Partido Comunista Italiano (PCI) esclareceu o que era ‘a questão moral’: não a presença de ladrões e corruptos nas altas esferas da política ou da administração pública, mas a ocupação sistemática do Estado por parte dos partidos do governo e das suas correntes".

A reportagem é de Simonetta Fiori, publicada no jornal La Repubblica, 28-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Era o dia 26 de julho de 1981, o ano da redescoberta das listas da P2 – a loja secreta do grande "aranha" Licio Gelli – e da prisão de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. O clima público italiano inclina-se a tonalidades lúgubres. O diretor do jornal La Repubblica vai se encontrar com Berlinguer no seu quarto na Via delle Botteghe Oscure.

Três horas e meia de conversa na presença do inevitável Tonino Tatò, principal colaborador do secretário. Dois dias depois, é publicada a entrevista destinada a entrar nos livros de história (disponível aqui, em italiano).

Eis a entrevista.

Diretor, você esperava a dura acusação de Berlinguer?

Eu fiz com que ela surgisse. Não era a primeira vez que o nosso jornal abordava a questão moral. Os antecedentes remontavam a antes da fundação do La Repubblica, da L'Espresso e das suas campanhas. Mas era a primeira vez que Berlinguer abordava a questão a partir de um ponto de vista inédito.

Qual foi a novidade?

A crítica dirigida aos partidos de terem se tornado máquinas de poder e de clientela, totalmente alheios aos problemas reais da sociedade. Substancialmente, Berlinguer não acusou a classe política italiana por não ter integrado o PCI no sistema, ao contrário: ele me disse que, nos tempos da solidariedade nacional, eles tinham tentado isso de muitas maneiras, oferecendo aos comunistas cadeiras de subgoverno, bancos, entidades, em suma, um lugar importante no banquete. Mas era justamente isso que Berlinguer queria combater: a ocupação do Estado por parte dos partidos.

A sua acusação foi meticulosa.

Ele denunciou a presença dos partidos em cada articulação do Estado e das instituições, na entidades locais e nas entidades de previdência, nos bancos, nas empresas públicas, nas instituições culturais, nos hospitais, nas universidades e dentro da Rai. O que era grave? A tarefa do Estado é a de salvaguardar o interesse geral, defendendo sobretudo os mais fracos e os excluídos, enquanto que a lógica do loteamento leva a agir no interesse do partido, da corrente ou do clã de pertença. Berlinguer disse isto expressamente: um crédito bancário é concedido se obtiver vantagens de clientela, um contrato é adjudicado se os beneficiários fizerem ato de fidelidade ao partido. Ele pintou com muita amargura uma situação dramática, que, em muitos aspectos, ainda existe.

Como a entrevista prosseguiu? Em relação a outras entrevistas importantes, você contou ter escrito não apenas o que o seu entrevistado lhe tinha dito, mas também aquilo que tinha pensado, sem dizer.

Não, no caso de Berlinguer, eu transcrevi fielmente a conversa. Eu não usei o gravador, nunca o uso, porque prefiro fazer algumas anotações. Eu me lembro que o pressionei muito sobre a questão moral, porque me parecia ser o ponto essencial. E, ao relê-la hoje, me parece ser uma entrevista que cresce sobre si mesma, através de uma nossa interlocução que alterna algumas discordâncias e uma grande sintonia.

Berlinguer quis relê-la?

Sim, por meio de Tatò. A entrevista era muito longa, abordava muitos temas, mas a ele só interessava a questão moral. Assim, ele perguntou a Tatò se, sobre esse ponto específico, eu tinha relatado corretamente a sua opinião. Uma vez tranquilizado, ele deu o consentimento.

A entrevista levantou polêmicas também dentro do PCI. Napolitano acusou Berlinguer se ter se deixado levar por uma atitude de "pura denúncia", pouco construtiva.

Giorgio era "melhorista", isto é, favorável ao diálogo com o partido de Craxi. E Berlinguer certamente não tinha sido terno com os socialistas, acusados, junto com os democrata-cristãos, de terem ocupado o Estado por interesses distantes do bem comum.

Você tinha boas relações com o secretário do PCI.

Berlinguer olhava com simpatia para um jornal de editores puros. E, não por acaso, durante o nosso encontro, ele denunciou o perigo de que o Corriere della Sera caísse nas mãos dos partidos, em suma, fizesse parte da divisão. Devo acrescentar que, entre nós, também havia uma relação privada. Acontecia de nos encontrarmos para jantar na casa de Tatò. Não havia uma grande intimidade, mas nos chamávamos de "você".

Ele, secretário do maior partido comunista do Ocidente. Você, liberal de esquerda. O que os unia?

Eu gostava das suas ideias, a questão moral, acima de tudo. O PCI era realmente um partido diferente dos outros partidos comunistas e, já naquela época, estava amadurecendo a sua ruptura com a URSS, embora, oficialmente, ela chegaria justamente no fim daquele mesmo ano, depois do golpe de Estado de Jaruzelski.

Berlinguer foi um dos poucos políticos pelos quais você chorou.

Sim, quando ele foi tomado por uma hemorragia cerebral em Pádua, eu fui à Via delle Botteghe Oscure. Eu estava entristecido, confuso. E, quando Ingrao me cumprimentou com o braço estendido, daqueles que não buscam a proximidade física, eu me agarrei no seu pescoço, sacudido pelos soluços. Ele deve ter considerado isso uma falta de dignidade e, então, tentava me sacudir: "Vamos, Eugenio, acalme-se". Mas eu continuava chorando incontrolavelmente. Eu lhe disse que a morte de Berlinguer seria uma perda para o partido, mas, sobretudo, uma perda para a democracia.

Berlinguer desejava que os partidos se retirassem do Estado. O seu apelo não só não foi ouvido, mas, se é possível, nesses 35 anos, a situação também se degenerou ainda mais.

Sim, a terapia indicada por Berlinguer não foi seguida. E a doença diagnosticada até piorou, envolvendo o Partido Democrático. A diversidade da esquerda caiu há muito tempo, e as tentações e as ocasiões proliferam tanto à direita quanto à esquerda. Naturalmente, o contexto mudou radicalmente. Hoje, existe uma questão europeia em termos diferentes de como ela se punha na época. E existe uma sociedade global que impõe uma velocidade diferente nas decisões. Por isso, nós nos encaminhamos a um regime parlamentar monocameral. Mas, para que ele funcione de modo realmente democrático, não deve ser um regime parlamentar de "nomeados" ou de "preferidos": por isso, torna-se importante a lei eleitoral.

Qual é a relação com a questão moral?

O Parlamento deve ser capaz de controlar o poder executivo. Caso contrário, a democracia está em perigo.

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"Não existe mais a diversidade da esquerda. Os partidos se tornaram máquinas de poder e de clientela." Entrevista com Eugenio Scalfari - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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