As raízes comuns do drama do Holocausto

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01 Agosto 2016

"Nos últimos anos os historiadores puseram em luz as dificuldades que a Igreja católica ainda encontra hoje no fazer as contas com as suas responsabilidades históricas no extermínio dos hebreus. Deste ponto de vista, é particularmente interessante o documento Nós recordamos, elaborado em 1998 pela Comissão para as relações com o hebraísmo, no qual se fazia aceno ao problema do silêncio de Pio XII e, sobretudo, era proposta a tese histórica da total estraneidade do cristianismo ao antissemitismo secularizado", escreve Alessandro Santagana, professor da Universidade de Roma Tor Vergata, em artigo publicado por Il Manifesto, 30-07-2016. A tradução é de Benno Dischinger

Eis o artigo.

São atualmente célebres as palavras com as quais Adorno afirmava que também “escrever uma poesia é um ato de barbárie após Auschwitz”. O mesmo filósofo teria posteriormente revisto esta posição, destinada em todo caso a permanecer no temo das reações suscitadas pelo divisor histórico e teológico da Shoah; um evento, segundo Hans Jonas, a atribuir à história sagrada, ao plano mais profundo da compreensão de Deus. A escolha do Papa Francisco de visitar em silêncio o campo de concentração polaco parece inscrever-se neste campo de reflexão sobre o “Evento” que chama em causa Deus, a sua existência e comunicabilidade. 

Já em maio de 2014, no Memorial de Yad Vashem, em continuidade simbólica com o gesto dos seus predecessores, Bergoglio havia utilizado uma das passagens mais debatidas do livro do Gênesis (3,9), aquele no qual Deus procura Adão, o interroga para provoca-lo e chama-lo a prestar contas das suas responsabilidades: “Aquele grito: 'Onde estás?' aqui, diante da tragédia incomensurável do Holocausto, ressoa como uma voz que se perde num abismo sem fundo...”

Um registro diverso tinha sido adotado em 1979 por João Paulo II, o primeiro Papa a visitar o campo. 

Então, tinham prevalecido os acentos de uma esperança cristã (l Jo 5,4) simbolizada pelo “martírio” do padre franciscano Maximiliano Kolbe. Em 2006 Bento XVI escolhia retornar a Auschwitz e Birkenau, ele, Papa alemão que diante daquele “acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem confrontos na história”, sentia o peso das responsabilidades do seu povo. Então o Papa teólogo Ratzinger punha o acento sobre o desígnio nazista direcionado a “extirpar também a raiz, sobre a qual se baseia a fé cristã, substituindo-a definitivamente com a fé feita por si, a fé no domínio do homem”. Nas costas de tal reflexão estava a lição do Concílio Vaticano que, na declaração Nostra Aetate, havia posto de parte os motivos tradicionais de um anti-judaísmo cristão que, na sua versão do século vinte, tinha sido com frequência confundido com o antissemitismo político. 

Nos últimos anos os historiadores puseram em luz as dificuldades que a Igreja católica ainda encontra hoje no fazer as contas com as suas responsabilidades históricas no extermínio dos hebreus. Deste ponto de vista, é particularmente interessante o documento Nós recordamos, elaborado em 1998 pela Comissão para as relações com o hebraísmo, no qual se fazia aceno ao problema do silêncio de Pio XII e, sobretudo, era proposta a tese histórica da total estraneidade do cristianismo ao antissemitismo secularizado. Nos anos 2000 o percurso iniciado com o Concílio prosseguiu de maneira frutuosa no plano do confronto teológico, mas sem descontinuidade na narração histórica (veja-se, por exemplo, a introdução ao documento elaborado pela mesma comissão em dezembro de 2015). 

Central tornou-se, ao invés, a categoria das raízes comuns (religiosas e civis) unidas pelo drama indizível do Holocausto. No colóquio com os jornalistas durante a viagem de ida a Cracóvia Bergoglio condenou a nova guerra mundial e exortou as religiões a estigmatizarem uma utilização do sagrado para fins político-econômicos. 

Falando com as autoridades polacas, ele mencionou o sonho de Wojtyla de “um novo humanismo europeu que encontra no cristianismo as suas raízes mais sólidas” e ressaltou o ema da história comum como apelo (espinhoso para o governo de Varsóvia) “a fim de que os processos decisionais e operativos sejam sempre respeitos da dignidade da pessoa. Cada atividade está nisso envolvida: também o complexo fenômeno migratório”. 

No complexo da viagem apostólica de Francisco na Polônia o silêncio de Auschwitz parece inserir-se num quadro coerente que, como escreve o sociólogo Jeffrey Alexander, encontra na memória da Shoah o fundamento moral do Ocidente, o ponto de referência para a defesa dos direitos humanos e a posição contra as novas guerras. Do ponto de vista da Igreja católica, Auschwitz pode hoje ser lido como um paradigma, em parte funcionalmente des-historicizado e agora teologicamente sólido, exemplificativo da contribuição que as religiões pretendem dar à civilização europeia.

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