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Por: Cesar Sanson | 01 Agosto 2016

"Vimos uma histeria repressora e condenatória diante das manifestações no Brasil que incluíam a insatisfação contra os megaeventos. Os protestos e manifestações têm a ver com essa percepção de mudanças urbanas velozes, artificiais e brutais para os mais pobres, com inclusive a violação de direitos, remoção da população, pequenas e grandes tragédias cotidianas e urbanas". O comentário é de Ivana Bentes, autora de livros como Mídia-Multidão: estéticas da comunicação e biopolíticas (2015), em entrevita publicada por Goethe Institut, 29-07-2016.

Segundo ela, "a mídia livre tem papel decisivo na cobertura dos megaeventos esportivos, pois constrói uma contranarrativa assinada por aqueles que criticam e sofrem as consequências de uma urbanização desigual e de um projeto cosmético de cidades globais acelerado pelos megaeventos."

Eis a entrevista.

Os projetos de intervenção e renovação urbana implementados nas cidades-sede de grande eventos esportivos são a expressão de uma nova rodada de mercantilização das cidades?

Sim, as corporações temem perder o controle da narrativa sobre as cidades e sobre seus empreendimentos e negócios. Por isso o grito do “não vai ter Copa!” em 2013 e 2014 perturbava tanto, desconfigurando o discurso publicitário das corporações, dos governos, das forças conservadoras e também da esquerda clássica com o seu simples enunciado. Vimos uma histeria repressora e condenatória diante das manifestações no Brasil que incluíam a insatisfação contra os megaeventos. Os protestos e manifestações têm a ver com essa percepção de mudanças urbanas velozes, artificiais e brutais para os mais pobres, com inclusive a violação de direitos, remoção da população, pequenas e grandes tragédias cotidianas e urbanas.

Os projetos de renovação e reestruturação urbana vinculados a megaeventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas promovem um processo de relocalização dos pobres nas cidades?

Os megaeventos geraram um aumento significativo de remoções forçadas de assentamentos populares tradicionais, muitos já regularizados. O Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas lançou um documento importantíssimo sobre os megaeventos e violações dos diretos humanos no Rio de Janeiro, que fala em 5.325 famílias ameaçadas de remoção em 24 comunidades, sendo que 1.860 foram removidas.

Ou seja, criou-se um estado de exceção, no qual a moradia dos mais pobres não vale nada ou pouco e volta-se a um princípio que higienização e embelezamento urbano, que tira os pobres e precários da visão de turistas e moradores das áreas urbanizadas. Nesse sentido, o Brasil viveu movimentos contraditórios: por um lado, o governo federal investiu no PAC das Favelas, no extraordinário programa de habitações populares Minha Casa Minha Vida; e, por outro, vimos as cidades chancelarem os processos massivos de remoção em nome dos megaeventos como a Copa e as Olimpíadas, inclusive com uso de violência e repressão.

João Paulo Quintella, curador do projeto "Permanências e Destruições", disse que no “panorama atual, com sintomas de calamidade econômica e insatisfação política, a destruição, com o sentido de perturbação crítica, parece ter se tornado uma premissa para a mudança, para criar espaço para a renovação de um campo”. Você concorda?

Sim, desde que a gente não naturalize nem a destruição, nem as permanências, mas politize e entenda o que foi destruído e por quem, com que interesses e objetivos para assim resistir às demolições. Pois o que estamos vendo nas grandes cidades são destruições e remoções em nome do capital e da especulação imobiliária, não do ponto de vista dos moradores, artistas, cidadãos. O que gosto é da possibilidade de ressignificar a destruição, ocupando os novos espaços, recolocando sua marca de origem em tudo que for desfigurado e apagado, reinserindo uma perturbação nos projetos urbanísticos que querem uma “cidade global” sem cara, sem marcas, genéricas. Nesse sentido, acho muito interessante ocupar espaços abandonados, trancados, sem uso, imóveis, praças monumentos e tudo o que foi abandonado ou desinvestido pela lógica simplesmente financeira.

Qual é o papel da mídia livre na cobertura desses megaeventos?

Ela é decisiva para construir uma contranarrativa. Desde 2013, vem surgindo no Brasil uma grande quantidade de coletivos, redes, grupos e também “perfis” nas redes sociais, a exemplo da Mídia NinjaJornalistas Livres e Agência Pública. Pessoas que individualmente começam a se ver e se assumir como produtores relevantes de conteúdos. Uma mídia orgânica feita pelos moradores da cidade, das periferias, feita pelos que sofrem as consequências dessa urbanização desigual e desse projeto cosmético de cidades globais que os megaeventos vêm acelerar.

Essa percepção de que a mídia somos nós tem sido decisiva para não naturalizar e nem aceitar que o Rio de Janeiro, por exemplo, declare “estado de calamidade financeira” nas vésperas das Olimpíadas e a gente ache isso normal. Além disso, tanto na Copa como agora nas Olímpiadas haverá uma cobertura colaborativa, uma crônica dos megaeventos vista “de baixo’, da rua, feita pelos muitos.

Os Jogos Indígenas, articulados pelos próprios indígenas, seriam uma alternativa à ideia dos Jogos Olímpicos, tais quais como eles existem hoje?

É uma tentativa de “hackear” as grandes estruturas e narrativas, de se apropriar do discurso publicitário e corporativo, de disputar os megaeventos. Nesse sentido acho importante, pois criam uma tensão e dizem: nós também temos uma tradição esportiva que poderia ser o modelo desses megaeventos e não nos submetemos simplesmente a um conceito genérico que não dialoga com nossas tradições.

Você esteve envolvida na criação do Fórum Permanente de Cultura do Rio de Janeiro (proposto pelo ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira). Neste contexto, uma das suas propostas era de uma maior contribuição da sociedade para a construção do programa cultural dos Jogos Olímpicos. Isso, a seu ver, foi possível de ser viabilizado?

As Olimpíadas no Brasil vão acontecer em meio a um golpe jurídico midiático para destituir a presidenta eleita, Dilma Rousseff, através de um processo ilegítimo de impeachment. Nós, o ministro da Cultura do governo Dilma, Juca Ferreira, e todos os seus secretários de cultura, inclusive eu, fomos exonerados dos nossos cargos no governo federal. Houve uma tentativa de extinguir o Ministério da Cultura do Brasil pelo governo provisório.

Toda a programação cultural que propusemos para as Olimpíadas do Rio de Janeiro, baseada no princípio da diversidade, com a participação de grupos indígenas, de matriz africana, com movimentos culturais urbanos novos, cultura LGBT, cultura vindo das periferias e favelas, com debates e encontros que problematizavam os megaeventos e as próprias Olimpíadas foram cancelados e descartados pelo governo interino de Michel Temer e pelo novo Ministro interino da Cultura.

Ou seja, estamos no momento vivendo um estado de exceção no Brasil. Tudo foi descontinuado. O Fórum Permanente de Cultura do Rio de Janeiro, proposto pelo campo cultural, não encontrou diálogo junto aos organizadores das Olimpíadas no Rio de Janeiro. É um momento tenso e as Olimpíadas do Rio vão refletir esse retrocesso e também as forças de resistência, principalmente no campo cultural, que vão hackear as Olimpíadas para fazer uma outra narrativa de Brasil.

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