O Papa Francisco, o uruguaio Carriquiry e o bicentenário da Independência dos países latino-americanos

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Por: Jonas | 19 Julho 2016

Assim como, em meio a suas férias de verão, a inesperada visita que o Papa Francisco fez à Pontifícia Comissão para América Latina (CAL), na última quarta-feira, surpreendeu funcionários da Santa Sé e vaticanistas, uma semana antes, muitos outros também ficaram surpresos com as afirmações do Santo Padre em sua carta pelo Bicentenário da Declaração da Independência argentina, com referências à Pátria Grande e ao povo latino-americano.

A reportagem é de Hernán Reyes Alcaide, publicada por Télam, 15-07-2016. A tradução é do Cepat.

Mas, o que há em comum entre as duas “surpresas” da semana do Pontífice? Em dois prólogos que o então cardeal Jorge Mario Bergoglio escreveu para as obras do secretário da CAL, o uruguaio Guzmán Carriquiry, em 2005 e 2011, já aparecem conceitos chaves presentes na carta do dia 8 de julho.

“Bom dia, você tem tempo para conversar um pouquinho?”, disse-lhe Francisco, nesta quarta-feira, assim que chegou a sua visita “surpresa” a Carriquiry, o leigo de maior renome dentro da Cúria Romana e a quem Francisco dedicou dois dos três prólogos que escreveu como Cardeal.

E nos prólogos já estão disseminadas muitas das ideias que depois aparecem com mais força no Pontificado, iniciado no dia 19 de março de 2013. E também na carta que enviou no último dia 8 de julho ao secretário da Conferência Episcopal Argentina, José María Arancedo, motivada pelo Bicentenário da Declaração da Indepêndencia.

No primeiro prólogo que escreveu para uma obra de Carriquiry (Una apuesta por América Latina, 2005), Francisco expressava sobre essa aposta que “antes de mais nada, trata-se de percorrer as vias da integração para a configuração da União Sul-Americana e a Pátria Grande Latino-Americana”, já que “sozinhos, separados, contamos muito pouco e não iremos a lugar algum” e “seria um beco sem saída que nos condenaria como segmentos marginais, empobrecidos e dependentes dos grandes poderes mundiais”.

Na carta do dia 8 de julho escreveu: “Celebramos duzentos anos de caminhada de uma Pátria que, em seus desejos e anseios de fraternidade, projeta-se para além dos limites do país: para a Pátria Grande, sonhada por San Martín e Bolívar. Esta realidade nos une em uma família de horizontes amplos e lealdade de irmãos”.

A noção de “povo”, tão criticada neste ano por alguns editoriais, já aparece com força nesse primeiro prólogo de Bergoglio. “Nada de sólido e duradouro poderá se obter se não vier forjado por uma vasta tarefa de educação, mobilização e participação construtiva dos povos – ou seja, das pessoas e das famílias, das mais diversas comunidades e associações, de uma comunidade organizada – que coloca em movimento os melhores recursos da humanidade que vem de nossa tradição e que se somem às grandes convergências populares e nacionais em torno de conteúdos ideiais e metas estratégicas para o bem comum”.

Seis anos mais tarde, em 2011, o então cardeal Jorge Bergoglio escrevia pela segunda vez um prólogo para um livro de CarriquiryEl Bicentenario de la Independencia de los países latinoamericanos.

Nele, Bergoglio expressava que “a independência dos países latino-americanos não foi um fato pontual que se deu em um determinado momento, mas, ao contrário, em um caminho, com tropeços e retrocessos, um caminho que mesmo agora é preciso continuar trilhando em meio a variados obstáculos de novas formas de colonialismo”.

Nessa linha, na carta do dia 8 de julho, escreveu: “Por essa Pátria Grande também rezamos hoje em nossa celebração: que o Senhor a proteja, a torne forte, mais fraterna e a defenda de todos os tipos de colonizações”.

“Trata-se de um livro de história, de História com letras maiúsculas, na qual o protagonista é o povo, os povos latino-americanos. Povos que vivem um presente que lhes exige um compromisso com o passado e o futuro: um passado recebido para fazê-lo crescer e transmiti-lo aos que nos sucederão”, acrescentava o Pontífice nesse segundo prólogo, no qual convidava a “construir pátria”.

“Um presente recebido e emprestado ao mesmo tempo, mas um presente que é fundamentalmente nosso. Tornar-se responsável dele é construir pátria, o que é algo muito diferente de construir um país ou configurar uma nação. Um país é o espaço geográfico, a nação a constitui o arcabouço institucional”, escreveu em 2011.

“A pátria, ao contrário, é o recebido dos pais e o que devemos entregar aos filhos. Um país pode ser mutilado, a nação pode se transformar (nos pós-guerras do século XX vimos tantos exemplos disto), mas a pátria ou mantém seu ser fundante ou morre. Pátria significa patrimônio, o recebido e que é preciso entregar acrescentando, mas não adulterado. Sim, pátria supõe suportar o recebido não para guardá-lo em conserva, mas para entregá-lo íntegro em sua essência, mas avolumado no caminho da história”, sentenciou.

Para além destes conceitos que servem como exemplo, Bergoglio multiplicou nos dois prólogos os elogios às obras do autor uruguaio, discípulo de outra personalidade de enorme influência para o Pontífice: Alberto “Tucho” Methol Ferré.

De fato, Carriquiry desempenhou um papel chave para o andamento da sistematização do arquivo sobre Methol que, em Montevidéu, é dado prosseguimento pelo filho do pensador uruguaio e o filósofo argentino Ramiro Podetti, justamente irmão de Amelia, a outra privilegiada que contou com um prólogo de Bergoglio e de quem o Papa assumiu sua noção sobre a dialética “centro-periferia”.

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