Elie Wiesel: tormento da memória. Artigo de Brunetto Salvarani

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07 Julho 2016

O que Elie Wiesel viveu e sofreu nos campos de concentração representou o fardo que ele deveria carregar consigo por toda a vida: todo o horror do mundo, toda a maldade que pode se esconder em uma alma humana. Assim, ele se dedicou a contar o horror da Shoá, na profunda convicção de que narrar o que acontece, e parece incrível, pode fazer com que não aconteça mais; que o homem se recorde, em um instante de lucidez, que ele é isso mesmo.

A opinião é do teólogo italiano Brunetto Salvarani, professor da Faculdade Teológica da Emilia Romagna e presidente da associação italiana Amigos de Neve Shalom – Wāħat as-Salām, que atua pela convivência pacífica entre judeus e palestinos com base na aceitação mútua.

O artigo foi publicado no sítio Settimana News, 05-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No Talmud, livro-chave para a identidade judaica, narra-se que, quando a criança que está prestes a nascer ainda está no corpo materno, uma luz brilha na sua cabeça, e ela aprende a Torá inteira. Enquanto chega o momento de sair ao mundo, porém, vem um anjo que pousa os dedos sobre os seus lábios, para que ela se esqueça de tudo e não possa falar a respeito no futuro. A sugestiva parábola expõe uma noção decisiva para Israel, suspenso constantemente entre a urgência da memória e a necessidade do esquecimento.

Parafraseando a ladainha dos tempos do Eclesiastes, pode-se dizer que, judaicamente, há um tempo para fazer memória e um tempo para se abster de recordar. Um tempo para fazer memória, para que o que aconteceu nunca mais aconteça, e um tempo para se abster de recordar, para não se ver pregado a um passado que deve ser superado, posto em discussão. Para não fazer um ídolo dele, como todo ídolo ilusório e inútil.

Existe, de fato, um recurso retórico ao apelo à memória, bastante difundido, especialmente em relação à memória da Shoah: uma referência, às vezes puramente celebrativa, ornamental, desprovido de brio e decadente até mesmo nas linguagens adotadas.

E existe, por outro lado, o risco de difundir a convicção da necessidade de uma pacificação social obtida ao preço da afasia ou do desmemoriamento, chegando ao ponto de ocultar as fontes históricas ou de reabilitar os culpados, encontrando uma culpa nas vítimas...

É um caso sério, portanto, a educação à memória, a aprendizagem progressiva desse fino fio interior que nos mantém fatigantemente ligados ao nosso passado: individual, familiar, da sociedade civil a que pertencemos e da comunidade de fé a que, no caso, nos referimos.

Não é fácil viver de maneira fecunda a relação com o próprio passado, e sempre se correm os dois perigos citados: suspensos entre o risco de permanecer prisioneiros, incapazes de superar os seus erros, e a tentação de despedaçar todo vínculo com ele, como se fôssemos os primeiros habitantes deste planeta.

Como sugeria o rabi Israel Spira, um mestre do hassídico moderno: "Há acontecimentos de tamanha grandeza extraordinária que não deveríamos recordá-los a todo o momento, mas também não deveríamos esquecê-los. A Shoah é um deles".

Esse é o contexto no qual se colocou, não por sua escolha, mas por dever ético, a longa existência de Eliezer (para todos, Elie) Wiesel, que concluiu sua vida no sábado passado, no seu apartamento em Nova York, 2 de julho, poucas semanas antes de chegar à marca dos 88 anos.

Ele nasceu em uma faixa da Romênia – que, na época, fazia parte da Hungria –, Sighet, nos Cárpatos, em 1928, em uma família judia (pai, mãe e três irmãs), que, em 1944, seria inteiramente deportada para os campos de concentração de Auschwitz-Birkenau. Apenas duas irmãs – além de Elie, com 16 anos, levado, enquanto isso, para Buchenwald – se salvariam, enquanto o pai morreria apenas algumas semanas antes da abertura dos portões por parte do exército soviético.

O que ele viveu e sofreu naqueles meses representou o fardo que Wiesel deveria carregar consigo por toda a vida: todo o horror do mundo, toda a maldade que pode se esconder em uma alma humana. Assim, ele se dedicou a contar o horror da Shoah, na profunda convicção de que narrar o que acontece, e parece incrível, pode fazer com que não aconteça mais; que o homem se recorde, em um instante de lucidez, que ele é isso mesmo.

Nasce aqui a parábola mundial de Elie Wiesel, a testemunha por antonomásia (prêmio Nobel da Paz de 1986 e um acérrimo defensor das vítimas, da América Latina a Ruanda, da ex-Iugoslávia ao Camboja), que mais bem testemunha a crise de sentido provocada por Auschwitz. Até a escrita de uma obra-prima literária, A noite (publicado em 1958): "Nunca me esquecerei daquela noite, a primeira noite no campo, que fez da minha vida uma longa noite e por sete vezes trancada (...) Nunca me esquecerei daquele silêncio noturno que tirou de mim pela eternidade o desejo de viver. Nunca me esquecerei daqueles instantes que assassinaram o meu Deus, e a minha alma, e os meus sonhos, que assumiram o rosto do deserto. Nunca me esquecerei de tudo isso, mesmo se fosse condenado a viver como Deus mesmo. Nunca".

E seria assim. Na realidade, ao silêncio de Deus diante do mal triunfante, Wiesel pretende, em um primeiro momento, reagir com o seu silêncio pessoal, obstinado, temendo – como aconteceria com Primo Levi e com tantas outras testemunhas – não ser acreditado. E seria somente depois de uma dramática conversa com um caro amigo, o escritor católico François Mauriac, que, de repente, adotaria uma inversão radical de estratégia.

A Mauriac, que ele estava entrevistando e lhe contou sobre Jesus de Nazaré com uma linguagem fascinante, Elie, não conseguindo mais se conter, grita na cara: "Você fala de Cristo, mestre. Os cristãos gostam de falar d'Ele. Paixão de Cristo, agonia de Cristo, morte de Cristo. Na religião de vocês, trata-se apenas disso. Pois bem, saiba que, há dez anos, não muito longe daqui, eu conheci crianças judias que sofreram, cada uma, mil vezes mais, seis milhões de vezes mais do que o Cristo na cruz. E nós não falamos disso. Você pode entender tudo isso, mestre? Nós não falamos disso!".

A partir daquele momento, Wiesel decidiria que todos os seus esforços seriam consumidos com o único e incessante objetivo de manter viva a chama da recordação, dedicando o seu empenho humano e intelectual para incidir palavras de fogo em uma lápide: uma memória dilacerante, que tortura, que cheira a morte, mas também tem o perfume de esperança, de acordo com um daqueles paradoxos aos quais a tradição judaica nos acostumou muitas vezes.

Daí o eterno fundo melancólico do seu olhar muito intenso e os mil pontos de interrogação recolhidos nas suas páginas (das extraordinárias Celebração bíblica e Celebração hassídica ao maravilhoso Processo de Shamgorod, em que se sugere que só Satanás pode pretender explicar o extermínio no processo que os sobreviventes tentam contra Deus, imputando-Lhe a culpa de ter abandonado o próprio povo), quase para assinalar, na escrita, o estupor de ainda estar vivo... ainda vivo, apesar de tudo.

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