Ser minoria é uma grande oportunidade para o cristianismo. Artigo de Vito Mancuso

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05 Julho 2016

A inevitável passagem de uma condição de maioria a uma condição de minoria é uma grande oportunidade para o cristianismo: a de abandonar a lógica do poder que pretende controlar as mentes e os corpos dos seres humanos, dizendo-lhes o que devem pensar e como devem se comportar (como a doutrina católica ainda pretende) e assumir a lógica do serviço à vida concreta e à experiência espiritual dos indivíduos.

A opinião é do teólogo italiano Vito Mancuso, professor da Universidade de Pádua, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 03-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Ainda em 1929, o jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, teólogo e cientista, escrevia: "A Igreja continuará declinando enquanto não se isentar do mundo fictício da teologia verbal, do sacramentalismo quantitativo e das devoções etéreas das quais ela gosta de se cercar".

Depois de quase um século, o cardeal Carlo Maria Martini, na última entrevista, de agosto de 2012, declarava: "A Igreja ficou 200 anos para trás". Muitos outros teólogos interpretaram o nosso tempo sob a insígnia desse contínuo declínio da crença e da prática eclesiástica, um fenômeno debaixo dos olhos de todos, se considerarmos apenas a condição das nossas Igrejas, que, no passado, não bastavam para conter os fiéis e que, agora, muitas vezes, estão fechadas e, quando abrem, raramente chegam ao "tudo esgotado". A situação também não melhora para os mosteiros, os conventos, os seminários e as chamadas vocações.

O fato é que a condição da religião institucional no Ocidente é uma só: a decadência. Nessa perspectiva, o dado realmente surpreendente de uma recente pesquisa não é que 28% dos jovens italianos entre os 18 e os 29 anos se declarem não crentes, mas que ainda haja, na Itália, 72% de jovens que declaram crer em Deus.

Realmente? Tantos assim? E por quanto tempo ainda os crentes serão a maioria entre os jovens? Mas, depois, é realmente tão importante para a fé ser a maioria? Na realidade, o cristianismo deu o melhor de si quando era minoria, enquanto os grandes números o levaram para o abraço fatal com o Império, injetando-lhe o vírus do poder e transformando-o de mansa religião de Jesus em aparato de controle dos corpos e das almas.

Hoje, o poder no Ocidente tem cada vez menos necessidade da religião, e, também por isso, ela perde consensos. Mas o que realmente está em jogo nessa perda? Um desaparecimento da espiritualidade ou a sua renovação sob a insígnia da liberdade? O homo sapiens sempre foi homo religiosus, o pagão Plutarco dizia que "a fé é inata no gênero humano desde a sua primeira aparição".

Por que esse vínculo entre religião e origem do homem? A essa pergunta, pode-se responder de dois modos: 1) porque a humanidade estava em uma condição de imaturidade, mas que, com o progresso do conhecimento, vem marcando o fim da religião; 2) porque a humanidade é estruturalmente religiosa, sapiens sempre produz religio, ou seja, consciente e amorosa unidade com a lógica cósmica (a qual, no Ocidente, nos referimos tradicionalmente dizendo "Deus" e, em outras culturas, de outros modos).

Trata-se de duas filosofias diferentes de vida: a primeira sob a insígnia do enigma; a segunda sob a insígnia do mistério. Enigma remete a um problema intelectual a ser resolvido; mistério, a uma condição mais ampla da existência a não ser resolvida intelectualmente, mas a ser experimentada existencialmente como abandono e confiança.

Na minha opinião, está aqui, na retomada da centralidade da dimensão mistérica ou mística, que a religião deve se regenerar: não para cultivar de novo ambições de primado, mas simplesmente para ser verdadeira e cuidar, sem outros interesses, as feridas da condição humana.

Eu acho que a inevitável passagem de uma condição de maioria a uma condição de minoria é uma grande oportunidade para o cristianismo: a de abandonar a lógica do poder que pretende controlar as mentes e os corpos dos seres humanos, dizendo-lhes o que devem pensar e como devem se comportar (como a doutrina católica ainda pretende) e assumir a lógica do serviço à vida concreta e à experiência espiritual dos indivíduos.

Está em jogo a passagem da religião que se concebe como única verdade a que todos devem ser convertidos àquela que ama o diálogo, porque sabe que a verdade é sempre maior e não é possuída por ninguém.

Os jovens chamados de "millennials" não sabem essas coisas, mas as sentem e, por isso, alimentam um substancial desinteresse pelo saber doutrinal (teísta ou ateísta, pouco importa), enquanto mostram um real interesse pela busca espiritual ligada à experiência pessoal.

Cabe à Igreja do Papa Francisco escolher entre o mundo fictício da teologia do catecismo e a demanda de vida dos nossos jovens.

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