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01 Julho 2016

“Há pais de família que dizem: “prefiro um filho morto a um filho gay”. E muitos pais os expulsam de casa. Entre os palavrões mais ofensivos existentes, estão a referência à condição homossexual e à relação sexual entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil são frequentes os homicídios, sobretudo de travestis. Há muitos suicídios, principalmente de adolescentes”, constata Luís Corrêa Lima, padre jesuíta, professor na PUC-RIO, em depoimento que publicamos a seguir.

Segundo ele, “no mundo religioso cristão, muitas vezes se fazem citações descontextualizadas da Bíblia ou simplificações indevidas da doutrina, com extrema rigidez e um terrível ímpeto condenatório dirigido aos LGBT. Algumas vezes, como se viu, eles são considerados endemoninhados a serem exorcizados, ou são submetidos a oração de “cura e libertação” para mudarem a sua condição ou identidade”.

Eis o depoimento.

O atentado brutal à boate gay em Orlando, com dezenas de mortos e outras dezenas de feridos, gerou um intenso clamor pelo enfrentamento ao ódio contra os LGBT. Dentre as vozes deste clamor, está a do papa Francisco, urgindo que as causas dessa violência horrível sejam combatidas eficazmente e o mais rápido possível. E chega a dizer que a própria Igreja deve pedir desculpas aos gays que tenha ofendido.

Isto me encoraja a compartilhar uma experiência dramática vivida há cinco anos. Eu fui a um simpósio de direito homoafetivo na Universidade Católica de Pernambuco. Diante de um auditório lotado e vibrante, eu participei de em uma mesa redonda. Falei sobre o amor de Deus e a importância da consciência da pessoa. E alertei sobre o mal-uso que frequentemente se faz da Bíblia para condenar os homossexuais. Após o final, um jovem me procurou e disse: “Padre, o senhor não sabe o bem que me fez! Eu ia me matar”! Eu fiquei pasmo. Conversei brevemente com ele, pedi o seu contato e lhe passei o meu. Pedi encarecidamente que daquele dia em diante nos mantivéssemos contato. Voltei ao Rio de Janeiro. Três dias depois, o jovem me escreveu contando a história. Resumidamente, é a seguinte:

“Eu fui criado na Igreja. A minha mãe é ministra da eucaristia. O lugar onde eu mais gosto de estar é a Igreja. Por eu ser gay, o padre da minha paróquia fez um duro sermão em uma missa. Olhando para mim, ele disse que as pessoas homossexuais têm um demônio. Quanto mais elas vivem, mais pecam. É melhor que não vivam muito. E os outros fiéis balançavam a cabeça concordando. De tanto ouvir isto, e de tanto ver os outros concordarem, tomei uma decisão: ‘este demônio aqui não vai mais viver’! Eu decidi que no dia 17 de setembro de 2011 iria a um prédio público de dezoito andares, e me atiraria do topo. Escrevi uma carta à minha família e coloquei na mochila. Quando esse dia amanheceu, peguei o ônibus rumo ao local. Porém, encontrei no ônibus um amigo que me disse: ‘vamos ao simpósio da Católica’. Eu não queria ir, mas o meu amigo insistiu. Eu aceitei porque a Universidade ficava no caminho. De lá, eu seguiria para o prédio a fim de fazer o que tinha decidido. Ao chegar na Universidade, vi na programação que à tarde um padre ia falar. Decidi ficar para ouvi-lo. Padre, quando o senhor fala, não imagina o que se passa na cabeça das pessoas que lhe ouvem. Suas palavras salvam vidas! Pelo amor de Deus, não pare”!

Confesso que ao ler esta carta chorei muito, como poucas vezes chorei tanto em minha vida. Nos meus 22 anos de sacerdote, nunca tive uma experiência tão dramática e tão emocionante quanto esta. Desde então, este jovem e eu nos falamos com frequência. Felizmente, ele superou a depressão em que estava e os desejos suicidas.

Esta é uma amostra do ódio aos LGBT presente em toda parte, com violência física, verbal e simbólica. Tal ódio gera inúmeras formas de discriminação e causa feridas profundas. 

Há pais de família que dizem: “prefiro um filho morto a um filho gay”. E muitos pais os expulsam de casa. Entre os palavrões mais ofensivos existentes, estão a referência à condição homossexual e à relação sexual entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil são frequentes os homicídios, sobretudo de travestis. Há muitos suicídios, principalmente de adolescentes. 

No mundo religioso cristão, muitas vezes se fazem citações descontextualizadas da Bíblia ou simplificações indevidas da doutrina, com extrema rigidez e um terrível ímpeto condenatório dirigido aos LGBT. Algumas vezes, como se viu, eles são considerados endemoninhados a serem exorcizados, ou são submetidos a oração de “cura e libertação” para mudarem a sua condição ou identidade. Desta forma, o anúncio do Evangelho, que é Boa Nova, não cura feridas e nem aquece o coração, mas traz mais devastação. A Palavra do Deus da vida se torna palavra de morte. 

Aprendi de modo contundente que as nossas palavras podem salvar vidas, ou podem destruí-las. Deus pode se servir de nós, como anjos, para salvá-las; e o mal, para destruí-las. Oxalá as salvemos.

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