Acordo de Paz. O anoitecer de um dia agitado na Colômbia

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Por: Jonas | 27 Junho 2016

A Colômbia foi à rua para festejar a paz. Com manifestações e marchas em todo o país, a emoção transbordou em um povo marcado por um conflito no qual todos se sentem vítimas. “Quando cessa a guerra, cresce a vida”.

A reportagem é publicada por Página/12, 24-06-2016. A tradução é do Cepat.

 
Fonte: http://goo.gl/hwxUTP  

Caminha-se com a certeza de que, diante dos olhos, aparecerá essa imagem desejada desde que se tornaram conhecidas as entranhas da guerra: as pessoas se abraçam, agitam bandeiras brancas, ouvem música colombiana e todos dançam comemorando o fato de que a Colômbia conhecerá a paz. Ao virar a esquina, centenas de pessoas rodeiam flores e tambores no meio da calçada, entre as esculturas de Fernando Botero que, em silêncio, parecem outros espectadores desta cena incrível: agora sim, o último dia da guerra na Colômbia. Horas antes, em Havana, o presidente Juan Manuel Santos e o comandante das FARC, Timoleón Jiménez, deram-se as mãos após anunciar que essa guerrilha destitui as armas. “Silêncio aos fuzis! Que em paz descanse a guerra! Sim se pode!”, disse uma mulher ao microfone, convidando os transeuntes a se juntar nesta festa pela paz.

“Nascemos, crescemos e resistimos pacificamente a todos estes anos de guerra. Sigamos unidos. Sabemos que o que virá será difícil, mas também sabemos que juntos e juntas conseguiremos”, repete a porta-voz da Rota Pacífica das Mulheres que convocou para este Plantão pela Paz, na capital de Antioquia. Aqui, também estão as mães dos sequestrados, as viúvas que procuram por seus maridos desaparecidos em La Escombrera, os homens corajosos com quem, ano após ano, juntaram-se mercados e forças do governo em favor dos familiares de crianças que nos assassinam nas colinas desta comuna, dos deslocados, que não suportam os confrontos nas montanhas repletas de coca, para os órfãos dos que não encontram trabalho e empunham uma arma para se obstinar em seus sonhos.

Gerardo, com aproximadamente sessenta anos, é um deles. Há um abraço eterno com um companheiro e as lágrimas correm. Tantos inocentes enterrados e, agora, como nunca antes, festeja-se a vida, a esperança de um futuro em paz. “Nasci para viver este dia, pude conhecê-lo, estamos vivos, estamos vivendo-o, é real”, sussurra. Emerge a promessa intrínseca de seguir juntos no que virá: enfrentar os dias duros em que a oposição e as forças obscuras continuarão ameaçando aqueles que defendem este Processo de Paz. “Não importa, tem sido sempre assim, aqui estaremos, daremos a vida, já damos a vida. Esses que não têm mais o que dizer, mas, ao contrário, um disparo frente à paz, esses não acabam, mas nós também não, e confio sermos mais e mais”, disse María Elena Toro, de Mães da Candelária, com o que ganhou buscando por anos seus três familiares desaparecidos.

“Agora, a missão é aprender a nos amar”, comenta Jeison Henao, morador de um bairro popular chamado Moravia, que, junto a umas quinhentas pessoas, aplaude o ritmo dos tambores com o grito que não cessa: Sim, se pode. Sim, se pode”. “A felicidade é pelos que vêm. Quando cessa a guerra, cresce a vida”, acrescenta o jovem que acaba de ser pai e que vê no anúncio de hoje não só a esperança de viver em um país diferente, como também o legado de um povo em paz para sua pequena filha. Liseth e Anderson, crianças da Comuna 13 – um atordoado bairro onde a presença da guerrilha e da Força Pública, aliada com os paramilitares, golpearam suas vidas -, tiram fotos. “Estamos registrando o fim da guerra! É real!”, dizem, tocando-se os ombros, as mãos, e repetem: “É real!”;

Ao lado, Yerson González sorri aos pequenos da 13. “Parceirinhos”, gritam os defensores de direitos humanos, os antimilitaristas, as mulheres, os investigadores sociais, os artistas, todos reunidos para aplaudir este dia histórico. “Transitemos para o fim da guerra. É um momento de caminhar ao horizonte sem fuzis e com a palavra”, disse Yerson, que por anos fez teatro para construir paz nas colinas das regiões excluídas desta cidade onde, embora as FARC terminaram nos anos 1990, vive-se o rigor do conflito por conta do narcotráfico e o paramilitarismo, assim como pelo desenraizamento que expulsa milhões de camponeses para esta urbe.

“Muitas vezes, a garganta está presa pela dor, hoje está presa pela alegria e em nome dos que já não estão conosco é necessário trabalhar pela paz”, comenta entusiasmado Luz Amparo Sánchez, investigadora social e defensora de direitos humanos, junto a um grupo de “evangelizadores” da paz que, há um ano, realizam a pedagogia dos Diálogos de Havana, em municípios de Antioquia. A comemoração comove. Muitos choram e continuam se abraçando. Jairo Calle, por anos repórter de uma rádio, grita emocionado para dar as boas notícias: “Tocou-me isto. Tocou-nos, irmã. Tocou-nos!”. O sol começa a se esconder e, após duas horas, os tambores continuam vibrando. Entoam as melodias colombianas: cúmbia, palmas, sorrisos, globos coloridos, bandeiras brancas que se agitam no céu azul claro, assim como o sonho de todos os colombianos que, cansados de meio século de violências, carregam a esperança dessa outra Colômbia que hoje começa a ser construída.

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