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25 Maio 2016

"Na universidade, ser produtivista é pensar na geração de conhecimento como se fosse uma ultrapassada linha de manufatura, é alienar-se da missão de gerar conhecimento, transmiti-lo e ajudar a transformá-lo em algo útil para a sociedade. Para alguns observadores, o produtivismo é doença autoimune, cria da própria comunidade acadêmica. Resposta desvirtuada a uma demanda social legítima, o produtivismo é puro jogo de cena", escreve Thomaz Wood Jr., professor, em artigo publicado por CartaCapital, 24-05-2016.

Eis o artigo.

No mês passado, este escriba participou de mesa sobre o tema em epígrafe. O evento integrou as comemorações de 50 anos da Unicamp, foi organizado por Wilson Cano e presidido por Aníbal Vercesi, professores da própria universidade. Integraram a mesa os colegas Jorge Olimpio Bento, da Universidade do Porto, em Portugal, Valdemar Sguissardi, professor aposentado da Universidade Federal de São Carlos, e Luiz Carlos Wrobel, da Brunel University, na Inglaterra.

Bento dissecou as patologias com erudição, recorrendo a bons séculos de pensamento humanista. Sguissardi combinou objetividade e visão crítica em sua análise sobre o arenoso tema. Em contraponto construtivo, Wrobel fez elucidativa apresentação sobre o modelo inglês, que busca aumentar o impacto social dos investimentos em pesquisa.

O produtivismo é uma perversão da produtividade. Produtividade refere-se à capacidade de criar algo de valor a partir do uso maximizado de recursos. Uma fábrica que usa menos energia e aço para produzir mais carros é mais produtiva em comparação às suas concorrentes, gera mais lucro e polui menos.

Um hospital com melhor uso de seu corpo médico e dos leitos para atender a mais pacientes é mais produtivo comparado a outros e gera maior benefício social. Da mesma forma, uma universidade que maximiza seus recursos e cria mais conhecimento, contribui para gerar patentes e outros benefícios, é mais produtiva em relação a outros estabelecimentos do gênero.

Produtivismo é outra coisa. Ser produtivista é produzir sem se importar com a qualidade ou a finalidade do que é produzido, é acumular estoque condenado a virar sucata. Na universidade, ser produtivista é pensar na geração de conhecimento como se fosse uma ultrapassada linha de manufatura, é alienar-se da missão de gerar conhecimento, transmiti-lo e ajudar a transformá-lo em algo útil para a sociedade. Para alguns observadores, o produtivismo é doença autoimune, cria da própria comunidade acadêmica. Resposta desvirtuada a uma demanda social legítima, o produtivismo é puro jogo de cena.

Tristemente, o produtivismo viceja em nossas universidades. Muitos pesquisadores agem como capatazes de fábrica, a supervisionar doutorandos e mestrandos. Pesquisas são fatiadas em pedaços para alimentar vários artigos, é a “ciência salame”. Jovens pesquisadores são induzidos a atuar como ghost-writers para produzir artigos assinados por seus orientadores. Escreve-se cada vez mais e lê-se cada vez menos. Multiplicam-se os burocratas, desaparecem os intelectuais.

A preocupação com a produtividade científica é legítima e constitui fenômeno mundial. Nos países desenvolvidos, espera-se que os recursos destinados às universidades sejam bem geridos e retornem na forma de benefícios para a sociedade. Nos países em desenvolvimento, essa demanda ganha urgência. Entretanto, muitas universidades convivem com irresponsável complacência, usam recursos públicos para custear professores e pesquisadores de escassa contribuição ao ensino ou à ciência.

Há duas décadas, este escriba ouviu de um gerente industrial um discurso triunfante: sua fábrica batia recordes de produção. O gerente planejava bom uso para o bônus a receber no fim do ano. Fora da fábrica, entretanto, a situação era de desalento. A área de vendas não conseguia comercializar a produção, excessiva e de qualidade inferior àquela demandada pelos clientes. O setor de logística alugava, a preço de ouro, armazéns para estocar o produto encalhado.

O departamento de compras, enquanto isso, recorria a bancos para financiar a compra de matéria-prima. Em suma, a empresa tomava emprestado dinheiro caro, para produzir a um ritmo alucinante um produto não desejado por seus clientes. Qualquer semelhança entre essa situação e a de nossas universidades pode ser mais do que simples coincidência.

Há luz no fim do túnel? Talvez. Depois de décadas de discussão, o conceito de impacto social do conhecimento começa a ganhar status de política pública. O Reino Unido configura-se como grande laboratório para as novas políticas e práticas. Seu sistema nacional de avaliação passou, há pouco tempo, a considerar o impacto social da pesquisa na avaliação das universidades e para alocação de recursos. A solução não deve ser vista como panaceia, porém duas ou três lições podem estar a caminho.

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