Um bispo entre os órfãos da esquerda. Artigo de Alessandro Santagata

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23 Mai 2016

Com Dom Matteo Zuppi, Bolonha se tornou o laboratório de uma instituição eclesiástica que está mudando, mas também a manifestação mais evidente daquela crise de identidade à esquerda que o o papa deixou manifesta.

A opinião é do historiador italiano Alessandro Santagata, professor da Universidade de Roma Tor Vergata, em artigo publicado no jornal Il Manifesto, 22-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Arrogante e papal", para usar as palavras de Guccini, a diocese de Bolonha o foi realmente nos últimos 30 anos. Talvez justamente porque a cidade era "vermelha" e, portanto, perigosa aos olhos de uma Igreja que tinha arquivado a época do diálogo com os comunistas. Especialmente porque o próprio mundo católico, sob as Duas Torres, tinha sido atravessada, nos anos 1960, por agitações e impulsos propulsores inquietantes aos olhos da Santa Sé.

Em 1968, o arcebispo Lercaro, arauto da Igreja dos pobres e protagonista do confronto com Dozza, foi removido por incompatibilidade com a "restauração atualizada" pós-conciliar de Paulo VI.

Três anos depois, era comissariada a redação da revista Il Regno, órgão do progressismo católico bolonhês, mas de fôlego nacional. Depois do longo e plano episcopado do cardeal Poma, coube aos bispos próximos do Comunhão e Libertação imprimir a reviravolta definitiva: Manfredini, Biffi e, por fim, Caffara, este último que, recentemente, se distinguiu na batalha clerical contra as transcrições das uniões gays contraídas no exterior.

Enquanto isso, a foice e o martelo deram lugar a novos símbolos até chegar à bandeira tricolor democrática, primeiro a de Pier Luigi Bersani, que em Bolonha tinha uma das suas fortalezas, e depois a do partido da nação de Matteo Renzi.

Precisamente por causa dessa passagem político-cultural – pode-se pensar – a posse em outubro do combativa Dom Matteo Zuppi, que marca o fim de uma longa temporada eclesial, despertou tanto entusiasmo também entre os bolonheses (órfãos) à esquerda.

Trata-se do entusiasmo sincero daqueles que não estão interessados nos equilíbrios internos do mundo católico e, portanto, no debate sobre o vínculo do arcebispo com a Comunidade de Santo Egídio, movimento leigo filho do 1968 e, hoje, particularmente relevante também no plano político.

A atenção da sociedade bolonhesa à figura do "padre Matteo" cresceu, depois, nos últimos meses de conflito entre os movimentos sociais e o Palazzo d'Accursio [sede da prefeitura de Bolonha].

"Padre das ruas" rodado em privilegiar o interesse dos últimos, Zuppi deu mostra de uma notável capacidade de mediação política, provavelmente legado das suas experiências internacionais.

Assim como o Papa Francisco, ele soube gerir com inteligência também o plano midiático, sem medo de tomar posições fortes. "Eu mesmo vou ocupar a prefeitura", afirmou ao término do encontro com as famílias da ocupação da Via Irnerio.

Também atraem as críticas da direita as advertências dirigidas aos dirigentes empresariais em matéria de crise econômica e defesa do trabalho. Depois do "bom trabalho e boa luta" dirigido aos operários da Saeco de Gaggio Montano, foi a vez da participação nas celebrações do 1º de maio. No centro do discurso, novamente, a dignidade do trabalho.

No plano da retórica, as analogias com Bergoglio, portanto, são evidentes: da inspiração no Concílio Vaticano II à opção preferencial pelos pobres, pelos imigrantes, pelas periferias. Análoga também é a atenção à coerência entre as palavras e um estilo de vida sóbrio, pastoral e dialógico.

Na sua bagagem para Bolonha – declarou ele à revista Famiglia CristianaZuppi levou a Evangelii gaudium, o documento programático do Papa Francisco. Nesse texto, o pontífice descreveu a sua Igreja como "Igreja em saída".

O arcebispo de Bolonha escolhe a imagem do "rio que também irriga terras que não sabe que irriga". Também são significativas as palavras proferidas na sede da região no início de maio: "Há uma tradição e muita experiência de solidariedade fruto de um desafio crescente nos anos passados entre a Igreja e o Partido Comunista Italiano, que aqui gerou tanta atenção ao bem comum".

A referência é às políticas de integração e vem como conclusão de uma reflexão abrangente sobre o compromisso social da diocese (também através da doação dos proventos da multinacional Faac, de propriedade curial), sobre a emergência da moradia, sobre a luta contra a máfia, mas também sobre a defesa do crucifixo nas escolas.

O "desafio" lançado por Zuppi se joga no terreno do social e, também desse ponto de vista, se insere perfeitamente no processo de renovação de Bergoglio, decisivamente mais lento e parcial quando o que está em discussão são as questões da moral, da laicidade e da biopolítica.

No caso de Zuppi, no entanto, estamos longe do intervencionismo do cardeal Bagnasco em defesa da "família tradicional". Expressão do modelo de episcopado que o Papa Francisco imagem para a Itália, Zuppi inverteu as dinâmicas do passado, quando era a Igreja bolonhesa que perseguia o Partido Comunista Italiano no plano do consenso popular e dos projetos de transformação.

Bolonha se tornou, assim, o laboratório de uma instituição eclesiástica que está mudando, mas também a manifestação mais evidente daquela crise de identidade à esquerda que o papa deixou manifesta.

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